SulAmérica reduz risco no crédito privado, mas vê FIDCs como exceção
Gestora de R$ 100 bilhões diz que os FIDCs foram a grande surpresa de 2026 e que a estrutura resistiu ao teste de estresse.

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Em meio a juros altos e eventos de crédito, a gestora mantém caixa elevado e prazos curtos. Para a CIO de crédito privado, os fundos de direitos creditórios mostraram resiliência na inadimplência.
Contexto: seletividade em um cenário de juros altos
A SulAmérica Investimentos, que ultrapassou R$ 100 bilhões sob gestão em setembro, mantém postura seletiva no crédito privado neste segundo semestre. Segundo Daniela Gamboa, CIO (diretora de investimentos) de crédito privado e imobiliário da gestora, a casa opera com posição de caixa maior que a habitual, níveis mais baixos de risco nas carteiras e prazos médios mais curtos.
O pano de fundo é uma Selic de 13,75%, com previsão da gestora de encerrar o ano em 13,5%. Para 2027, a avaliação é que a trajetória de queda dos juros dependerá da disciplina fiscal, independentemente do resultado das eleições, e que a taxa não deve cair abaixo de dois dígitos de forma rápida. Esse nível de juros pressiona as empresas e já foi acompanhado por uma série de eventos de crédito no País, incluindo recuperações judiciais e extrajudiciais.
O fato central: saída da saúde e FIDCs como destaque
A gestora investe em títulos de energia elétrica, telecomunicações e saneamento, e zerou recentemente a exposição ao setor de saúde. O motivo é a pressão de capital de giro na cadeia: quando o plano de saúde demora a pagar, hospitais e laboratórios, na ponta da operação, ficam mais fragilizados. Esse tipo de risco de recebíveis é acompanhado de perto por quem investe em direitos creditórios.
Em varejo e incorporação, a posição está abaixo da média da carteira, por serem segmentos mais sensíveis à taxa de juros. Em 2026, a gestora também tem evitado novas histórias e novos setores. Um exemplo é o consignado privado, carteira que cresce em bancos e financeiras, mas que, por ser um novo perfil de crédito, ainda não motivou alocação.
Sobre os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs), o tom é outro. “Foi a grande surpresa deste ano. Nossa expectativa era que aconteceria uma piora na inadimplência, mas as estruturas têm se mostrado muito resilientes, mesmo nesse teste de estresse. A indústria de fundos, em geral, não mostra crescimento, mas os FIDCs representam uma exceção”, afirma Gamboa.
Análise: risco precificado e spreads
Gamboa avalia que o maior volume de negociação no mercado de debêntures mudou a dinâmica dos eventos de crédito: hoje, a precificação dos riscos tende a ocorrer meses antes do evento, como aconteceu com Raízen (RAIZ4) e GPA (PCAR3), que entraram em recuperação extrajudicial no primeiro semestre. Para ela, a evolução passa despercebida. “As pessoas veem a parte ruim da marcação a mercado. Acho que a beleza é termos os riscos precificados”, diz.
Sobre spreads, a CIO não vê gatilhos para abertura entre emissores AAA, a nota máxima de crédito. “A dispersão deve ser maior nos papéis com classificações abaixo do AAA”, afirma. Ela observa ainda que o investidor está maduro e resiliente, permanecendo na estratégia apesar dos sustos.
Perspectivas: emissões, infraestrutura e atenção ao risco
Para Gamboa, o fim das eleições deve levar o mercado a reprecificar a curva de juros, com espaço para maior tomada de risco pelos investidores. No mercado tradicional de debêntures, ela vê possibilidade de mais emissões em novembro e dezembro, principalmente entre companhias de baixo risco e com histórico recorrente de emissões. Em infraestrutura, a expectativa é oposta: os fundos do segmento enfrentam resgates sucessivos, e a CIO vê mais espaço para novos resgates do que para novas ofertas.
Nos FIDCs, a ressalva é de comportamento. “Em algum momento, será natural ver investidores mais negligentes com a tomada de risco, mas ainda observamos uma indústria bastante saudável”, diz. Para gestores e investidores da classe, o recado é manter a disciplina de seleção enquanto a resiliência da inadimplência segue como argumento a favor.
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