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Atlas leva registro de CR de R$ 10 milhões à XRP Ledger sob regulação da CVM
Primeira operação de CR com espelho na rede pública XRP Ledger chega ao mesmo tempo em que a CVM abre seu piloto de DLT.

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Foto: Alexandre Reda e Felipe Siqueira, fundadores da Atlas
Plataforma de infraestrutura financeira registra a titularidade de um Certificado de Recebíveis em rede blockchain pública, sem alterar a estrutura fiduciária da securitização. O movimento ocorre duas semanas após a CVM instituir o Programa Piloto DLT.
Contexto: tokenização de recebíveis ganha escala no Brasil
A tokenização de ativos reais, conhecida pela sigla RWA (real-world assets), deixou de ser experimento isolado no crédito privado brasileiro. Estimativas do setor citadas no material da Atlas indicam que as emissões de RWA somaram R$ 4,84 bilhões no primeiro semestre de 2026, alta de 122% sobre o mesmo período de 2025.
No campo regulatório, a CVM instituiu em julho de 2026 o Grupo de Trabalho de Tokenização (GTT). O grupo reúne técnicos da autarquia, associações, autorreguladores e especialistas, com a missão de propor critérios técnicos para registro, depósito centralizado, custódia qualificada, negociação e liquidação de valores mobiliários em redes de registro distribuído (DLT, na sigla em inglês). O Colegiado recebeu, no prazo de 60 dias, a proposta de regime regulatório experimental.
O que mudou: CR com espelho digital na XRP Ledger
A Atlas colocou em operação, em outubro de 2026, um sistema que registra a titularidade de ativos regulados na XRP Ledger, rede pública de blockchain. A primeira operação é um Certificado de Recebíveis (CR) de cerca de R$ 10 milhões, distribuído sob a Resolução CVM 88.
Cada participante da oferta recebe um espelho digital de sua posição jurídica, mantido em carteiras individuais criadas automaticamente na rede. A empresa afirma que o modelo não substitui as estruturas fiduciárias tradicionais nem altera as garantias do patrimônio separado da securitização. Na descrição da Atlas, trata-se de uma camada independente de auditoria e verificação, reaproveitável em ofertas futuras sem reconstrução do software.
Do ponto de vista do investidor, a compra segue o fluxo usual de renda fixa. Não é preciso ter criptoativos, tokens de taxa de rede ou custódia direta de chaves privadas. Os dados de titularidade permanecem integrados aos sistemas regulatórios do emissor, de modo que o extrato conforme as regras da CVM deve coincidir com o registro on-chain.
A Atlas também compara os modelos. Segundo a empresa, o custo fixo de registro nas estruturas tradicionais inviabiliza emissões menores, enquanto na via tokenizada o custo marginal por investidor seria de frações de centavo. A confirmação, que costuma levar D+1 ou D+2, ocorreria em segundos. A verificação de titularidade, hoje apoiada em extratos de custodiantes, passaria a poder ser auditada de forma aberta e independente na rede. São números e comparações da própria Atlas, sem validação independente.
Entre as funcionalidades técnicas da XRP Ledger citadas estão as permissões de transferência, que limitam quais endereços podem receber os tokens sem exigir contratos inteligentes complexos, e os mecanismos de clawback e congelamento, pensados para correção de erros operacionais ou cumprimento de ordens judiciais. As chaves criptográficas ficam sob gestão da plataforma, desenhada para funcionar com custodiantes fiduciários independentes.
Análise: o que dizem os especialistas
A leitura editorial que acompanha a divulgação da operação aponta que o modelo pode ampliar o acesso ao financiamento direto no mercado de capitais, sobretudo para emissões que hoje não comportam o custo de infraestrutura. A mesma análise ressalva que a viabilidade em larga escala depende dos padrões de custódia qualificada e das regras finais da CVM.
Para o gestor de FIDC (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios) e para o investidor profissional, o ponto de atenção está na fronteira entre registro e instrumento jurídico. A Atlas afirma que a camada on-chain espelha a posição, e não substitui a estrutura de securitização. Esse desenho dialoga com a discussão sobre quem é o registrador oficial do ativo e como se resolve eventual divergência entre o livro tradicional e o registro distribuído, tema que o próprio GTT tem em pauta.
Perspectivas: piloto da CVM e abertura a investidor estrangeiro
A Resolução CVM 249, publicada em 14 de outubro de 2026, instituiu o Programa Piloto DLT CVM. O programa cria um ambiente de testes para operações experimentais com valores mobiliários em redes DLT, cobrindo emissão, oferta, distribuição, negociação, escrituração, custódia, depósito centralizado e liquidação. Entre os objetivos estão avaliar a viabilidade técnica, operacional e jurídica, testar interoperabilidade e identificar riscos e lacunas regulatórias. A coordenação cabe a um Comitê Gestor formado por membros da CVM que integram o GTT, e os relatórios conclusivos seguirão ao Colegiado.
A Atlas informa ter mais de 20 ofertas públicas e cerca de R$ 700 milhões estruturados em operações anteriores. Entre os planos estão estender o sistema automatizado a emissões futuras e, em etapa posterior, permitir que investidores estrangeiros adquiram valores mobiliários emitidos no Brasil, sujeito às regras de câmbio e à conformidade regulatória.
O que monitorar: os critérios de participação no Programa Piloto DLT, os padrões de custódia qualificada que a CVM vier a adotar e se o modelo de espelho on-chain será validado como camada complementar ao registro oficial. Para originadores e securitizadoras de recebíveis, a redução de custo fixo em emissões menores é a variável a acompanhar.
Fontes:
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