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Fidcs & FundosNotíciasCrédito privado

FIDCs passam de R$ 1 trilhão, mas provisão para perdas sobe 40,8% em 12 meses

Patrimônio dos FIDCs passou de R$ 1 trilhão, e as provisões para perdas cresceram mais rápido que as carteiras.

FIDC NEWSFIDC NEWS 5 min de leituraSem comentários

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Foto: Ana Paula Paiva/Valor

Os FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios) atingiram R$ 1,015 trilhão de patrimônio líquido em julho, segundo levantamento do Valor Data na base da CVM. No mesmo período, a provisão para perdas com inadimplência cresceu 40,8% e os créditos com mais de 90 dias de atraso aumentaram 62%. A indústria nunca foi tão grande, e o risco das carteiras também nunca recebeu tanta atenção.

Da prateleira de nicho ao centro do crédito privado

Por muito tempo, os FIDCs foram vistos como instrumentos exóticos, restritos a poucos gestores e investidores especializados. Esse cenário mudou a partir de 2025, quando os fundos se tornaram o principal motor da segunda onda de expansão dos fundos de crédito no país. O patrimônio líquido cresceu 16,3% em 12 meses e passou da marca de R$ 1 trilhão.

A carteira mostra o ritmo com mais clareza. Considerando apenas os direitos creditórios, sem títulos públicos, CDBs e cotas de outros FIDCs, a carteira bruta foi de R$ 634,4 bilhões para R$ 779,2 bilhões em 12 meses, alta de 22,8%. É cerca de três vezes o avanço de 7% do crédito com recursos livres dos bancos no mesmo intervalo. A proporção se mantém mesmo sem os fundos de NPL (ativos não performados, ou créditos já vencidos), que cresceram 22,4%.

Parte desse movimento tem explicação conhecida: com os bancos mais seletivos na concessão, o crédito migrou para os fundos. Segundo Samuel Garson, presidente da Anfidc (Associação Nacional dos Participantes em Fundos de Investimento em Direitos Creditórios), a entrada dos próprios bancos nos FIDCs também ampliou o patrimônio da classe. Os dados públicos da CVM, porém, não permitem medir esse efeito, porque não identificam todos os cedentes nem o volume total de créditos comprados de instituições bancárias.

Provisões crescem mais rápido que a carteira

O mesmo levantamento mostra o custo dessa expansão. A PDD (provisão para devedores duvidosos) passou de R$ 46,1 bilhões para R$ 64,9 bilhões em 12 meses. Os créditos com atraso superior a 90 dias subiram para R$ 7,5 bilhões. Em relação à carteira bruta de direitos creditórios, o valor provisionado foi de 7,3% para 8,3%.

Como referência, no sistema financeiro as provisões para devedores duvidosos correspondiam a 7,4% da carteira de crédito em julho de 2025 e a 7,8% um ano depois, segundo o Banco Central. A comparação é apenas indicativa, já que as carteiras e os critérios contábeis são diferentes. Um ponto importante: o levantamento excluiu integralmente os fundos dedicados a NPLs e o percentual de provisões não mudou. A deterioração, portanto, não vem do segmento de créditos estressados, e sim das carteiras performadas.

Para Ricardo Rochman, professor de finanças da FGV, a Selic elevada por muito tempo e o aumento do endividamento de famílias e empresas são os principais fatores da piora. Ele aponta ainda uma grande oferta de FIDCs com critérios menos rigorosos. “Os fundos permitem estruturação flexível de crédito, por isso alguns deles assumem conscientemente riscos mais elevados”, avalia. Segundo o professor, parte dos fundos colocou na carteira “créditos que na realidade deveriam ter sido barrados, aumentando consideravelmente os riscos de perdas dos fundos”.

Subordinação como amortecedor e o debate sobre a régua de provisão

Nem todos leem os números como alerta. Garson diz não ver um cenário alarmante: a pulverização das carteiras compensa os atrasos, e parte dos créditos pode ter tratamento extraconcursal em recuperações judiciais, dependendo da estrutura da operação. Ele vê melhora no último trimestre, com os programas de renegociação de dívidas, a renda maior no fim do ano e os cortes de juros. “O fundo do poço já chegou”, avalia.

Marcelo Michaluá, sócio fundador e co-CEO da RB Asset, que tem cinco FIDCs, também é otimista. “Eu não diria que existe deterioração, que os fundos estão mais arriscados, e sim que perdas eventuais podem se concretizar, mas o nível de subordinação dos FIDCs é robusto e deve absorvê-las”, afirma. Na prática, a cota subordinada absorve os primeiros atrasos e protege a sênior. Segundo Michaluá, ela costuma ser um múltiplo da perda esperada: se a previsão é de 2% de default, a subordinada pode chegar a 8% da estrutura de capital. Em geral, é comprada pela gestora ou pelo cedente, como sinal de alinhamento.

Rochman, por outro lado, aponta uma diferença de fundo na forma de provisionar. “Os bancos formam provisões considerando a carteira diversificada que possuem, enquanto fundos podem ser específicos para um segmento ou empresa, logo, são menos diversificados, e por isso deveriam ter maior provisão em função do risco”, ressalta.

Para Eduardo Solamone, diretor de RI da Sol Agora, fintech de crédito para energia solar, a falta de transparência é o principal ponto fraco. “Onde há opacidade, não há segurança. Portanto, os passos subsequentes dessa indústria passam exatamente por aumentar a transparência dessas estruturas, em especial no que diz respeito às regras de provisionamento”, avalia. Ele estima que o Brasil está dez anos atrás do mercado americano. Para ele, regras padronizadas tendem a comprimir os retornos das cotas sêniores: na Sol Agora, o spread da sênior caiu de 2,85 para 1,85 ponto percentual acima do CDI.

O que muda para gestores e investidores

O crescimento colocou a classe na agenda regulatória da CVM neste ano. A Anbima criou um grupo de trabalho para revisar a autorregulação e publicou um guia sobre metodologia de PDD. O CMN, por sua vez, endureceu as regras para a compra, por FIDCs, de créditos originados de processos judiciais e arbitrais, em resposta às fraudes identificadas em fundos ligados ao Banco Master.

Para quem estrutura e gere FIDCs, a provisão deve virar o principal critério de comparação entre fundos. Política de crédito, régua de PDD e nível de subordinação tendem a pesar mais na captação do que a taxa oferecida. A padronização tem dois lados: pode comprimir prêmios, mas tende a ampliar a base de investidores, hoje limitada pela falta de ratings e de critérios uniformes.

Para o investidor, o recado é de seleção. “O investidor precisa ter cautela”, diz Christopher Galvão, sócio e analista de fundos da Nord Investimentos. “Vejo casos de assessores que vendem como investimentos seguros, mas cada FIDC é diferente e é importante inserir na parcela da carteira de crédito alternativo, com risco mais elevado.” Galvão lembra ainda que a saída é difícil, porque o mercado secundário tem pouca liquidez. Os próximos meses devem mostrar se a melhora apontada pela Anfidc aparece nos números de atraso e se as novas regras de provisionamento chegam antes de uma nova rodada de perdas.


Fontes: Valor Econômico, “FIDCs chegam a R$ 1 tri, mas piora do crédito eleva risco da carteira” (28/09/2026)

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