Fundos de startups voltam à alta renda e disputam espaço com o crédito privado
Gestoras de venture capital preparam novos fundos para o investidor de alta renda, o mesmo público que sustenta a captação do crédito privado.

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Com o preço das startups mais estável, gestoras de venture capital preparam novos fundos até o fim do ano para o investidor de alta renda. Para o mercado de FIDC (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios), o movimento interessa por dois motivos: é o mesmo público que compra cotas de crédito estruturado e, em boa parte, são negócios que mais tarde vão precisar de crédito para crescer.
O ciclo que esfriou o venture capital
O venture capital é o modelo em que o fundo compra participação em empresas nascentes para vender depois com lucro. Em 2021, com os juros no menor patamar da história, o investidor aceitava mais risco. Isso gerou muita competição por participação em startups, os preços subiram e o setor perdeu atratividade nos anos seguintes.
Agora os valores dos negócios estão se estabilizando. Para as gestoras, isso abre uma nova janela para investir em empresas jovens com alto potencial de crescimento. A leitura é que a entrada volta a ficar mais barata, e é com esse argumento que as casas voltam a procurar o investidor qualificado.
Quem está captando e em que condições
A Astella Investimentos, que tem R$ 1 bilhão sob gestão, prepara sua sexta rodada de captação nos próximos meses. No fundo da gestora, 5% dos cotistas são investidores qualificados, ou seja, com R$ 1 milhão ou mais para investir. Marcelo Sato, sócio da Astella, acredita que o apetite da alta renda deve continuar. “Já se vê sinal de reaquecimento de preço em algumas rodadas, o que costuma contaminar o mercado inteiro quando pega. Foi o que aconteceu em 2020 e 2021”, afirma.
A Link Venture, com R$ 25 milhões sob gestão, prepara seu segundo produto do tipo, com aporte mínimo de R$ 100 mil, a ser lançado neste semestre. Segundo Nicolas Scridelli, diretor de fundos da gestora, o primeiro fundo já atraiu 42 investidores. A estratégia mira empresas em estágio inicial, ainda validando o modelo de negócio, com valor inicial em torno de R$ 2 milhões e aportes de cerca de 5% de participação em cada uma. Em rodadas seguintes, novas avaliações e novos investidores podem diluir essas participações. Além do capital, a gestora oferece acesso a fornecedores, clientes e apoio na distribuição.
A TAG, com R$ 18 bilhões sob gestão, está na terceira safra de fundos, iniciada no fim do ano passado. A estratégia investe em startups de tecnologia no exterior, por meio de casas como a A16Z e a Iconic, e reserva 30% do portfólio para negócios no Brasil e na América Latina. “O movimento de inteligência artificial é muito forte e vai ter uma geração de valor muito grande no mundo privado porque as empresas têm demorado cada vez mais para estrearem na bolsa”, diz Marco Bismarchi, sócio e gestor de portfólio da TAG.
O que isso significa para o crédito estruturado
O primeiro efeito é a disputa pela carteira. O investidor qualificado é o público central dos FIDCs, e cada real destinado a um fundo de startups deixa de ir para outras classes. Pelos números das próprias casas, essa fatia ainda é pequena: a TAG recomenda entre 3% e 5% do portfólio em venture capital para clientes de perfil moderado, e a 3V Capital, de Luciane Ribeiro, sugere entre 5% e 10% para o cliente de maior risco, com foco em inteligência artificial. É a “pimenta” da carteira, não o prato principal.
O segundo efeito está no perfil do produto. Fundos de venture têm pouca liquidez e horizonte longo, e o retorno depende de uma venda futura da participação. O crédito estruturado trabalha com fluxo de recebíveis, prazos definidos e estrutura de cotas sênior e subordinada. Por isso, a Nord, cujos clientes têm tíquete médio de R$ 3,5 milhões e perfil entre conservador e moderado, não recomenda esses fundos. “O produto é de alto risco e longuíssimo prazo. Tíquetes altos, que podem chegar a R$ 250 mil, também colaboram para afastar grande parte dos clientes”, diz Renato Breia, diretor da área de gestão de patrimônio da casa de análises.
O terceiro efeito é de longo prazo. Os portfólios descritos incluem serviços financeiros, antifraude e varejo. A Link cita uma fintech avaliada em R$ 150 milhões criada por alunos da sua escola de negócios e uma empresa de suplementos que passou de R$ 1,2 milhão para R$ 70 milhões de faturamento no último ano. Empresas nessa fase de crescimento costumam precisar de capital de giro e de estruturas para financiar suas operações, uma demanda que o mercado de recebíveis atende.
O que monitorar daqui para frente
O sinal mais importante para o gestor de FIDC é o que Sato descreve como reaquecimento de preços nas rodadas. Em 2020 e 2021, o mesmo movimento coincidiu com juros baixos e com o investidor aceitando mais risco. Se o ciclo se repetir, a competição pela alocação da alta renda tende a aumentar, e o crédito estruturado vai precisar mostrar com mais clareza seus diferenciais: previsibilidade de fluxo, prazo definido e proteção pela subordinação.
Ao mesmo tempo, a nova safra de startups de tecnologia e serviços financeiros pode virar, em alguns anos, uma nova geração de originadores e cedentes. Vale acompanhar a captação da Astella e o lançamento do fundo da Link até o fim do semestre.
Fontes: Estadão E-Investidor, “Gestoras que investem em startups preparam novos fundos para a alta renda. Faz sentido investir?”, Marília Almeida, 09/10/2026 (https://www.estadao.com.br/einvestidor/wealth-management/gestoras-que-investem-em-startups-preparam-novos-fundos-para-a-alta-renda-faz-sentido-investir/)
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