Grupo Pereira compra 21 lojas do Carrefour e adiciona R$ 1 bilhão em faturamento
O Carrefour vende 21 supermercados para o Grupo Pereira e o varejo alimentar volta a trocar de mãos, com reflexos diretos para quem financia a cadeia.

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A varejista catarinense, dona das bandeiras Fort e Comper, avança sobre São Paulo e o Distrito Federal no momento em que o Carrefour praticamente abandona o formato supermercado para concentrar forças no Atacadão. Para o mercado de crédito, a transação muda o mapa de sacados, fornecedores e recebíveis de um dos setores que mais movimentam direitos creditórios no país.
Fundado em 1962, em Itajaí (SC), o Grupo Pereira é hoje a sétima maior varejista do Brasil. O grupo opera nos modelos de atacarejo, supermercado e hipermercado, com 194 unidades de negócio em seis estados e no Distrito Federal. Em 2025, faturou R$ 17,5 bilhões e projeta crescer entre 10% e 12% em 2026.
O portfólio vai além das gôndolas. O grupo reúne a rede Fort Combustíveis, a Perlog Logística, o cartão Vuon Card, a operadora turística Pera Turismo e a rede de restaurantes Trudy's. Recentemente, a companhia chegou a montar uma posição acionária no Pão de Açúcar, mas não deu continuidade ao investimento.
Esse desenho de negócios é relevante para quem acompanha crédito estruturado. Varejistas com braço financeiro próprio, como o Vuon Card, geram fluxos de recebíveis de cartão, e a escala de compras junto à indústria alimenta operações de antecipação a fornecedores, estruturas que costumam desembocar em FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios).
Segundo documentos protocolados no Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica), o Grupo Pereira está adquirindo 21 lojas do Carrefour, sendo 15 no estado de São Paulo e seis no Distrito Federal. O pacote inclui ainda áreas adjacentes a algumas unidades: três postos de combustíveis e nove drogarias.
De acordo com apuração do Pipeline, do Valor Econômico, o conjunto de lojas fatura R$ 1 bilhão por ano, o equivalente a cerca de 6% da receita do grupo catarinense em 2025. O BTG Pactual assessorou a transação.
Com o negócio, a bandeira Comper estreia em São Paulo, estado onde o grupo já atua com Atacado Bate Forte, Fort Atacadista e Farmácia SempreFort. No Distrito Federal, onde já mantém seis lojas do Fort Atacadista, o grupo passará a operar com 10 lojas dos Supermercados Comper.
Do lado vendedor, a operação marca a saída quase total do Carrefour do formato supermercado. A rede tinha 26 unidades do Carrefour Bairro e fica agora com apenas cinco, que também devem ser revistas, segundo fontes ouvidas pela reportagem original. A multinacional francesa mantém minimercados e hipermercados com sua marca, mas a prioridade declarada é a expansão do Atacadão. Procurado, o Carrefour não havia se manifestado até a publicação da reportagem.
Na leitura do mercado de crédito, uma transferência de ativos desse porte tende a reorganizar as relações comerciais na ponta. As 21 lojas passam a comprar sob a política de um novo operador, o que significa novos contratos com fornecedores, novos prazos de pagamento e, em muitos casos, a migração de operações de risco sacado (quando o fornecedor antecipa o que tem a receber do varejista) de um CNPJ para outro.
Para gestores de FIDCs com carteiras lastreadas em duplicatas de fornecedores do varejo alimentar, o movimento pede atenção à concentração por sacado. A consolidação aumenta o peso de poucos grandes compradores regionais nas carteiras, e isso afeta limites de exposição, critérios de elegibilidade e o dimensionamento da cota subordinada, a parcela que absorve as primeiras perdas do fundo.
Há ainda o outro lado. O Carrefour, ao reduzir sua presença em supermercados, concentra o volume de compras no atacarejo, modelo de giro rápido e negociação agressiva de prazo com a indústria. Esse perfil costuma ampliar a demanda por antecipação de recebíveis entre fornecedores de médio porte, justamente o público que mais recorre a FIDCs multicedentes.
Por fim, o crescimento de uma operação com cartão próprio, como o Vuon Card, em praças de alto consumo como São Paulo e Brasília, amplia a base potencial de recebíveis de varejo. Em mercados onde varejistas securitizam carteiras de cartão, a expansão geográfica costuma vir acompanhada de mais emissões.
O próximo passo formal é a análise do Cade, que precisa aprovar a operação antes da transferência efetiva das lojas. Depois disso, o foco se volta para a integração: conversão das bandeiras, renegociação com fornecedores e o desempenho das unidades sob a gestão do Grupo Pereira.
Para o mercado de crédito, os pontos de atenção são três. Primeiro, a velocidade com que as lojas adquiridas entram na política comercial do novo dono, com impacto nos prazos de pagamento a fornecedores. Segundo, o destino das cinco lojas remanescentes do Carrefour Bairro, que podem gerar uma nova rodada de desinvestimento. Terceiro, a capacidade do Grupo Pereira de entregar o crescimento de 10% a 12% projetado para 2026 enquanto absorve R$ 1 bilhão em faturamento novo, variável que pesa na avaliação de risco de quem tem o grupo como sacado.
Fonte: Pipeline Valor, "Carrefour vende 21 lojas para o Grupo Pereira, saindo do formato supermercado", por Silvia Rosa e Maria Luiza Filgueiras, 25/09/2026. https://pipelinevalor.globo.com/negocios/noticia/grupo-pereira-compra-21-lojas-do-carrefour-em-sao-paulo-e-distrito-federal.ghtml
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