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iFood compra a Caju por cerca de R$ 1 bilhão e dobra a aposta no mercado de benefícios

O mercado de benefícios se consolida, e o novo marco do PAT muda a conta para quem financia recebíveis de pagamento.

FIDC NEWSFIDC NEWS 5 min de leituraSem comentários

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O iFood, por meio do iFood Benefícios, vai comprar a Caju, uma das principais startups de benefícios do país. O negócio dobra o tamanho da operação do grupo num setor ainda dominado pelas empresas tradicionais. Ele acontece num momento em que o novo regulamento do Programa de Alimentação do Trabalhador (PAT) limita taxas, abre as redes de pagamento e muda a economia de toda a cadeia de recebíveis ligada ao vale-refeição e ao vale-alimentação.

Um setor em transformação

O mercado brasileiro de benefícios corporativos foi dominado por décadas por quatro empresas tradicionais: Alelo, Ticket, VR e Pluxee (antiga Sodexo). Esse modelo funcionava em redes fechadas, em que a própria empresa de benefícios credenciava os estabelecimentos e cobrava deles taxas de desconto elevadas. Nos últimos anos, empresas novas como Caju, iFood Benefícios e Flash passaram a disputar esse espaço com produtos digitais e cartões flexíveis.

A virada regulatória veio com o decreto do PAT publicado em novembro do ano passado. O texto limita a 3,6% a taxa cobrada dos estabelecimentos comerciais e exige que as grandes redes de pagamento sejam abertas e possam operar entre si (interoperabilidade). Na prática, o decreto enfraquece a vantagem das redes fechadas, base do modelo de negócios das empresas tradicionais, e favorece quem já opera em arranjos abertos e digitais.

A movimentação do iFood no setor não é nova. No ano passado, o grupo teria negociado a compra da Alelo por até R$ 5,5 bilhões, operação que não foi adiante.

O que muda com a compra

As empresas não divulgaram o valor da transação. Segundo uma fonte ouvida pelo Brazil Journal, a Caju foi avaliada em cerca de R$ 1 bilhão. O negócio faz parte do pacote de R$ 24 bilhões em investimentos anunciado pelo iFood no mês passado e ainda depende de aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE) e do Banco Central.

As duas operações têm porte parecido. Cada uma movimenta cerca de R$ 1,3 bilhão por mês. Considerando um take rate (percentual que a empresa fica de cada transação) de 3%, cada uma gera em torno de R$ 450 milhões de receita por ano. Juntas, passam a somar 3 milhões de usuários e 135 mil empresas clientes. Só a Caju atende 70 mil empresas e 1,3 milhão de usuários.

Fundada em 2020 por Eduardo e Renan Mendes, a Caju levantou apenas cerca de US$ 50 milhões com investidores como Canary, Valor Capital Group, Caravela Capital e K1 Investment Management, um volume modesto para o tamanho que a empresa alcançou. Eduardo continua na companhia combinada. A estrutura de liderança e o plano de integração serão definidos só depois da aprovação dos órgãos reguladores.

Do lado financeiro, as duas empresas chegam ao negócio com resultado positivo. Segundo Arthur Freitas, CEO do iFood Benefícios, a operação teve lucro operacional em 2025 e segue no azul em 2026. A Caju deve virar lucrativa ainda neste ano. A combinação também ganha o ecossistema do iFood, que reúne mais de 500 mil restaurantes e mercados parceiros, 600 mil entregadores e 65 milhões de consumidores.

O que a operação sinaliza para o crédito e para os FIDCs

Para o mercado de crédito privado, a compra mostra uma mudança de escala num segmento que gera um volume grande e recorrente de recebíveis de pagamento. Com R$ 2,6 bilhões movimentados por mês somando as duas operações, o novo grupo passa a concentrar uma fatia relevante dos fluxos de benefícios que passam por restaurantes, supermercados e pequenos varejistas.

Esse movimento tem dois efeitos para quem estrutura e investe em FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios) lastreados em recebíveis de cartão e de arranjos de pagamento. O primeiro é positivo: redes abertas e interoperáveis tendem a deixar o fluxo de recebíveis mais padronizado e mais fácil de rastrear, o que ajuda na análise da carteira, no controle da cessão de crédito e no acompanhamento da inadimplência. O segundo pede cautela: com o teto de 3,6% nas taxas, a margem por transação cai, e o crescimento das empresas do setor passa a depender mais de volume e de eficiência do que de taxa. Para originadores que dependem desse segmento, isso pede atenção ao risco de concentração e ao poder de negociação de grupos maiores.

O ponto de maior incerteza é regulatório. Como as regras do PAT vêm de um decreto presidencial, um governo futuro pode alterá-las sem passar pelo Congresso. Eduardo, fundador da Caju, aposta na estabilidade: “Acreditamos que, independentemente do governo, não haverá retrocessos no ambiente regulatório”. Para os gestores de carteiras ligadas a esse setor, porém, o risco de mudança nas regras deve entrar no cálculo de prazo e de estrutura das operações.

Perspectivas

Os próximos passos dependem do CADE e do Banco Central. Até a aprovação, as empresas seguem operando separadas, sem definição sobre a liderança ou o formato da integração. A forma como os órgãos reguladores vão olhar a concentração de mercado no novo cenário de redes abertas será um dos pontos a acompanhar.

Para o mercado de crédito, os sinais a observar são a velocidade de adesão às redes abertas, a pressão que o teto de taxas vai exercer sobre as empresas tradicionais e se novas consolidações vão acontecer num setor que, até pouco tempo, parecia blindado. Quanto mais o fluxo de benefícios migrar para arranjos abertos e digitais, maior tende a ser a oferta de recebíveis padronizados disponíveis para cessão, e mais relevante fica entender quem controla esse fluxo.


Fontes: Brazil Journal, “iFood paga R$ 1 bilhão pela Caju e dobra a aposta em benefícios” (https://braziljournal.com/ifood-paga-r-1-bilhao-pela-caju-e-dobra-a-aposta-em-beneficios)

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