Getty Images pede recuperação judicial nos EUA e fecha acordo com credores antes
Reestruturação negociada antes de chegar à Justiça vira modelo para o crédito privado lidar com empresas em crise.

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Pressionada por dívidas, pela concorrência da inteligência artificial e pelo fracasso da fusão com a Shutterstock, a dona de um dos maiores bancos de imagens do mundo entrou com um Chapter 11 pré-negociado. O caso mostra como credores, acionistas e financiadores podem dividir o prejuízo antes de o processo chegar ao juiz, um mecanismo que o mercado brasileiro de crédito estruturado conhece cada vez melhor.
Uma crise que vinha sendo anunciada
A Getty Images entrou nesta quarta-feira, 21 de outubro, com pedido de proteção contra credores no Tribunal de Falências dos Estados Unidos para o Distrito de Delaware. O processo foi aberto com base no Chapter 11 da lei de falências americana, o equivalente à recuperação judicial no Brasil. Nos documentos entregues à Justiça, a empresa estima ter entre US$ 1 bilhão e US$ 10 bilhões em ativos e um valor na mesma faixa em passivos.
O pedido não foi surpresa. Em 12 de outubro, a companhia já tinha anunciado um acordo de reestruturação com seus principais credores. No começo do mês, também tinha avisado que suas ações poderiam parar de ser negociadas na Bolsa de Nova York (NYSE) se a cotação ficasse abaixo de US$ 1. Em 2025, a Getty teve prejuízo líquido de US$ 206,1 milhões, cerca de R$ 1,1 bilhão.
Do lado estratégico, a empresa perdeu o principal caminho de saída que tinha. A fusão com a Shutterstock, avaliada em cerca de US$ 3,7 bilhões, foi abandonada em junho, depois que a autoridade de concorrência do Reino Unido exigiu que a Shutterstock vendesse sua operação editorial. Ao mesmo tempo, ferramentas de inteligência artificial que criam imagens sob demanda reduziram a procura por bancos de imagens tradicionais e pressionaram a receita de licenciamento, que é o centro do modelo de negócio da Getty.
O que muda com o Chapter 11 pré-negociado
O ponto central do caso é o formato. O processo é prepackaged, ou seja, os termos principais foram negociados com os credores antes do pedido. A maior parte das classes de credores necessárias já se comprometeu a votar a favor do plano, e a votação começou no mesmo dia do pedido. Ainda falta a aprovação da Justiça americana, e a companhia espera terminar a reorganização antes do fim de 2026.
O plano prevê aporte de até US$ 533 milhões, cerca de R$ 2,67 bilhões, de membros da família Getty e de subsidiárias da Koch Equity Development (KED), o braço de investimentos do conglomerado Koch. Esse dinheiro vai ser usado para reduzir dívidas. Além disso, a Koch se comprometeu com até US$ 143 milhões, cerca de R$ 716,43 milhões, para manter a operação funcionando durante o processo. É o chamado financiamento DIP (debtor-in-possession), dado a empresas em recuperação.
A divisão do prejuízo entre os credores é clara. Os detentores de títulos sem garantia aceitaram eliminar cerca de US$ 270 milhões em notas. Os credores com garantia aceitaram mudanças que reduzem o custo da dívida e dão mais prazo para pagar. No fim, a empresa deixa a bolsa e passa a ser controlada integralmente pelos investidores ligados à família Getty e à Koch.
Em nota, a Getty afirmou que vai seguir operando normalmente: “Não prevemos consequências para os fornecedores de conteúdo, parceiros comerciais, clientes ou funcionários em todo o mundo”.
O que o caso ensina ao mercado de FIDC
O caso mostra bem a hierarquia de risco que o investidor de crédito privado precisa acompanhar. Quem tinha garantia sai com prazo maior e custo menor, mas preserva o valor do principal. Quem não tinha garantia absorve o maior desconto. Quem entra com dinheiro novo, os acionistas que aportam capital e o financiador DIP, fica com o controle e com a prioridade de recebimento. É a mesma lógica da separação entre cotas sênior e subordinada em um FIDC (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios): a estrutura de subordinação define quem sofre primeiro.
No Brasil, essa lógica tem base legal desde a Lei 14.112/2020, que reformou a Lei de Recuperação Judicial e Falências e trouxe o financiamento DIP com prioridade de recebimento sobre os créditos sujeitos ao processo. Com isso, FIDCs passaram a ter espaço tanto para financiar empresas em recuperação quanto para comprar créditos de companhias em reestruturação, uma estratégia de special situations que pede análise jurídica detalhada e precificação cuidadosa do risco.
O caso também é um alerta para a originação. Quando uma tecnologia, como a IA generativa, muda rapidamente o modelo de receita de um setor, a qualidade do recebível muda junto. Para quem estrutura e analisa FIDCs, a capacidade de pagamento do sacado e do cedente depende cada vez mais de quanto o negócio resiste a mudanças tecnológicas, e não só do histórico de adimplência.
Perspectivas: o que acompanhar
Os próximos passos são a homologação do plano pelo tribunal de Delaware e a conclusão da votação dos credores, com a saída da bolsa prevista até o fim do ano. Se o cronograma for cumprido, o processo deve se tornar referência de reestruturação rápida e negociada, com pouco atrito judicial e continuidade da operação.
Para o mercado brasileiro de crédito estruturado, o caso reforça a tendência de resolver crises com negociação prévia entre credores e capital novo, como na recuperação extrajudicial, em vez de longas disputas na Justiça. Nos próximos meses, vale acompanhar quantas empresas pressionadas pela transformação digital vão seguir o mesmo caminho e como os fundos com mandato para situações especiais vão se posicionar nessas operações.
Fontes: Times Brasil | CNBC (timesbrasil.com.br/empresas-e-negocios/getty-images-prepara-saida-da-bolsa-em-falencia-pre-acordada); PYMNTS com informações da Reuters (pymnts.com/cpi-posts/getty-images-files-for-bankruptcy-as-533m-restructuring-paves-way-for-private-ownership); pauta original: g1 (g1.globo.com/economia/noticia/2026/10/21/getty-images-entra-com-pedido-de-recuperacao-judicial-nos-eua.ghtml)
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