Contas globais batem recorde de aberturas e pressionam disputa por capital no crédito
Depois das urnas, a procura por ativos no exterior acelera e recoloca a pergunta: quanto do capital do investidor brasileiro continuará no crédito privado local?

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A abertura de contas globais por brasileiros disparou após os dois turnos das eleições de 2026. O movimento mostra um investidor mais disposto a diversificar fora do país, em um momento em que o mercado local de crédito estruturado também vive expansão.
Contexto: da conta de viagem à reserva em moeda forte
As contas globais nasceram como solução prática para quem precisava pagar despesas de viagem e compras internacionais. Com o tempo, passaram a funcionar como porta de entrada para manter reservas em moeda estrangeira e aplicar em ações, fundos e títulos de renda fixa de outros países.
Esse uso mais amplo explica por que plataformas como a Avenue, que pertence ao Itaú, viraram termômetro do apetite do investidor por exposição internacional. Quando a abertura de contas acelera, o sinal vai além do turismo: indica busca por proteção e diversificação de patrimônio.
O fato central: recorde de aberturas após o primeiro e o segundo turno
Segundo o Jornal do Comércio, em 26 de outubro, dia seguinte ao segundo turno, a Avenue registrou o maior número de aberturas de contas de 2026. Nos dois dias seguintes, os novos cadastros ficaram 60% acima da média do ano, e a captação líquida foi de três a quatro vezes superior às médias recentes.
O movimento já havia aparecido após o primeiro turno. Em 5 de outubro, as aberturas cresceram 130% em relação à média diária do mês, e a captação líquida foi 8,2 vezes maior que a de um dia normal. De acordo com o BPMoney, a queda do dólar ajudou a impulsionar o envio de recursos naquele momento. A Avenue projeta que outubro seja o melhor mês de sua história em captação líquida.
Análise: diversificação que já vinha em curso
O CFO da Avenue, Emmanuil G. Inglesis, afirmou ao BPMoney que clientes relatam piora do cenário macroeconômico e receio quanto ao futuro. Na avaliação do executivo, eventos políticos e macroeconômicos intensificam uma tendência de diversificação internacional que já existe há alguns anos. Ele também considera que a exposição dos brasileiros a ativos no exterior ainda é pequena, o que deixa espaço para novo crescimento.
Para quem atua em crédito estruturado, o dado merece atenção por um motivo simples: o capital do investidor é finito, e cada real direcionado a uma conta global é um real a menos disponível para a alocação local. É uma leitura de mercado, e não um dado medido: as fontes consultadas não quantificam a migração entre classes de ativos.
O mercado de Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs), porém, segue em expansão. Conforme o Boletim de Fundos de Investimento da Anbima de outubro, os FIDCs captaram R$ 56 bilhões líquidos entre janeiro e setembro de 2026. O patrimônio líquido do segmento chegou a R$ 902,2 bilhões em setembro, ante R$ 760,2 bilhões no fim de 2025, alta de cerca de 19%. O número de classes passou de 3.785 para 4.270 em um ano.
Perspectivas: o que monitorar
O primeiro ponto a acompanhar é a duração do movimento. Picos de abertura logo após eventos políticos costumam perder força quando a incerteza se dissipa, mas a Avenue aposta em tendência estrutural de diversificação, e os próximos boletins de captação mostrarão qual leitura prevalece.
O segundo é a relação entre juros, câmbio e retorno do crédito privado local. Enquanto os prêmios dos FIDCs seguirem atrativos frente a alternativas no exterior, o segmento tende a manter fluxo de captação. Para gestores e originadores, a mensagem é de que a concorrência pelo capital do investidor agora também passa pela conta global dele.
Folha de S.Paulo: Contas globais atraem brasileiros e impulsionam investimentos no exterior
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