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Opinião

Estruturados

Mandor e a due diligence no mercado privado: o que sai pela porta não é o analista, é o método

Toda casa documenta o parecer. Quase nenhuma documenta a régua que o produziu. E, num mercado que já beira o trilhão de reais, é essa régua, e não o arquivo, que vai separar as casas que lideram das que ficam para trás.

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Por Tiago Netto e Renan Regonato, cofundadores do Mandor. (www.mandor.com.br)

[Foto: Renan Regonato e Tiago Netto, cofundadores do Mandor. Divulgação]


Todo mundo fala em prazo e custo: análises que levam semanas, equipes afogadas, volume que cresce mais rápido do que o time aguenta. Tudo verdade. Mas nada disso explica o que mais deveria preocupar uma casa de análise: por que duas operações parecidas, feitas pela mesma equipe, terminam avaliadas por réguas diferentes, só porque foram outras mãos que as conduziram.

O que não está documentado não é a conclusão. É o caminho até ela.

O parecer é escrito, revisado e arquivado. O critério que o sustenta, como se pesa um cedente, o que torna uma garantia frágil, quando um covenant merece desconfiança, esse ninguém escreve. Fica na cabeça de quem analisou. No dia em que esse analista troca de emprego, o parecer continua no arquivo e o método vai embora com ele. A casa guarda o histórico das decisões e perde a régua que as produziu. Num mercado que já reúne mais de 4,2 mil veículos e cerca de R$ 961,5 bilhões de patrimônio líquido só em FIDCs, segundo o informe mensal da CVM, uma régua não escrita deixou de ser tradição para virar risco aberto.

Durante anos, esse critério artesanal foi lido como sofisticação, e era mesmo. Com volume baixo e operações que se repetiam, o analista sênior era a melhor régua disponível, e formalizar o que ele fazia parecia burocracia sobre talento. Mas a lógica se inverteu. O volume multiplicou, a Resolução CVM 175 redistribuiu responsabilidades e o investidor institucional passou a perguntar como a casa chegou àquela conclusão. O mesmo artesanato que ontem passava por sofisticação hoje soa como inconsistência.

E isso não é privilégio do crédito estruturado. Todo mercado que sai do artesanal para o institucional bate na mesma parede, e ela quase nunca aparece como erro técnico. Aparece como variação. O investidor experiente não julga só o que a casa concluiu. Julga se a próxima conclusão teria o mesmo rigor. E, quando fica em dúvida, cobra por essa incerteza, no preço ou na escolha de outra casa.

[CITAÇÃO, perfil sugerido: alocador institucional, gestor de fundo de pensão ou responsável por seleção de gestores em family office ou asset. A fala confirma a tese pelo lado de quem compra a análise: o alocador julga a consistência do critério, não a elegância do parecer, e régua que varia por analista entra na conta como risco. Uma citação só, com cargo e instituição nomeados.]

A fragilidade quase nunca está no rigor da análise. Está no que sobra dela: critérios que ninguém escreveu, checklists que vivem em planilhas pessoais, precedentes que só existem na memória de quem participou, atas que registram o voto e não o raciocínio. Isso convive com governança impecável no papel, e é exatamente por isso que ninguém percebe até doer.

Sistemas de arquivo guardam documentos. Comitês registram decisões. Auditorias verificam conformidade. Mas ninguém no ecossistema captura a única coisa que importa depois: o critério que separou a operação aprovada da recusada.

Esse vácuo tem nome: memória de método, o que a instituição retém do raciocínio por trás das próprias decisões. Foi para preenchê-lo que construímos o Mandor. Em vez de documentar só o resultado, ele documenta a régua, para que a próxima análise comece onde a anterior parou, e não do zero.

O Mandor não parte de um modelo genérico. Captura o critério que a casa já aplica, converte os checklists pessoais em padrão auditável e divide a análise por domínios com função definida (jurídico, financeiro, risco, garantias, estrutura, compliance), com as diretrizes de mercado, como a da ANBIMA para CRI e CRA, dentro do racional. Antes de fechar o veredito, confere se cada número do parecer bate com o documento que o sustenta. O parecer sai em horas, não em semanas, e cada afirmação aponta para a fonte que a prova. Um parecer sem esse lastro funciona só até alguém contestar.

A diferença aparece na mesa. A casa que fez do método uma estrutura responde ao investidor no mesmo dia, sustenta cada conclusão no documento que a prova e entrega o mesmo padrão na operação seguinte. A que deixou o critério na cabeça dos analistas leva semanas, defende decisões de memória e vê a régua variar a cada deal. Essa distância não é linear. Ela compõe, ano após ano, até ficar intransponível.

Método documentado não é arquivo. É patrimônio.

Começamos pelo crédito estruturado porque é ali que a pressão chega primeiro: prazo curto, garantia complexa e um investidor institucional do outro lado da mesa. Mas a aposta é maior. Nos próximos anos, o ativo mais valioso de uma casa de análise não vai ser a carteira de operações que ela aprovou. Vai ser a régua com que aprovou, a única parte do trabalho que se transfere, se audita e se defende diante de terceiros. Vale para um FIDC, um M&A, um CRI ou um crédito com garantia real, porque o que se documenta não é a resposta. É o modo de chegar até ela.

A pergunta nunca foi se a casa documenta o parecer. Ela sempre documentou. O que ainda não documenta é o método. E é o método que vai embora. O Mandor existe para que ele fique.

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