Crédito híbrido movimenta R$ 10 bilhões ao unir banco e capitais
Estruturas que somam banco, fundos e mercado de capitais ganham espaço entre empresas que buscam fôlego de caixa.

Com a Selic em 14% ao ano e o crédito livre para pessoas jurídicas custando em média 24,4% ao ano em junho, empresas brasileiras têm buscado alternativas que vão além da simples renegociação de taxa. Uma dessas alternativas, o crédito híbrido, já movimentou R$ 10 bilhões em 2026 apenas na Multiplike, empresa especializada em estruturação de operações, com projeção de fechar o ano em R$ 20 bilhões.
O ambiente de juros elevados no Brasil tem forçado gestores financeiros a repensar não apenas o custo da dívida, mas sua composição como um todo. Prazo, garantia e concentração de vencimentos passaram a pesar tanto quanto a taxa nominal na hora de estruturar o passivo de uma companhia.
Esse movimento aparece nos números do mercado de capitais como um todo. As emissões de títulos privados de dívida corporativa somaram R$ 429,8 bilhões nos sete primeiros meses de 2026, alta de 8,8% em relação ao mesmo período do ano anterior. Em 12 meses, o crescimento desses instrumentos chegou a 14,2%, ritmo bem superior à expansão de 7,1% registrada pelos empréstimos do Sistema Financeiro Nacional no mesmo período. O dado sugere que parte da demanda por crédito está migrando do balanço bancário tradicional para estruturas apoiadas em mercado de capitais, entre elas securitizações, Letras de Crédito Imobiliário e do Agronegócio e fundos especializados.
O Banco Central, por sua vez, mantém postura cautelosa em relação à economia, com projeções de inflação acima da meta para 2026 e 2027, o que reforça a lógica de empresas priorizarem alongamento de prazos em vez de apostar em uma queda rápida de juros.
É nesse contexto que ganha força o crédito híbrido, modelo que combina, em uma mesma operação ou estratégia de captação, recursos de bancos, fundos de investimento, securitizadoras e instrumentos de mercado de capitais, direcionando cada fatia do financiamento para a fonte mais adequada ao perfil de risco e prazo da empresa.
Na Multiplike, todas as operações estruturadas em 2026 já são classificadas internamente como híbridas. O volume de R$ 10 bilhões movimentado até agora reflete também uma mudança de comportamento das empresas: a procura por substituição de contratos de dívida já existentes cresceu cerca de 22% em 2026 na comparação com o ano anterior, sinal de que companhias estão trocando estruturas antigas, muitas vezes concentradas em um único credor ou vencimento, por arranjos mais diversificados.
O tempo médio para estruturar essas operações ficou em 10 dias, e a carteira da empresa está concentrada em setores específicos: serviços responde por 69% do total, indústria por 24% e agropecuária por 7%. A maior transação já realizada somou R$ 837 milhões, envolvendo uma companhia de distribuição e comércio de metais não ferrosos. A inadimplência segue controlada, com apenas 0,39% das operações vencidas no último mês.
Para Volnei Eyng, CEO da Multiplike, o movimento reflete um amadurecimento na forma como as empresas encaram sua própria dívida. "Depois de um período prolongado de juros altos, muitas empresas começaram a perceber que o problema não está apenas na taxa. A concentração de vencimentos, o prazo da dívida e o tipo de garantia podem pressionar tanto o caixa quanto o custo financeiro. O que temos observado é uma busca por liquidez e por estruturas que permitam alongar o passivo de maneira compatível com a geração de caixa da companhia", afirma o executivo.
Eyng vai além ao propor uma mudança de enfoque na gestão financeira corporativa: "A discussão para a empresa não deveria ser simplesmente como conseguir mais crédito, mas como construir um passivo que ela consiga carregar de forma sustentável".
Do ponto de vista de quem acompanha o mercado de FIDCs e securitização, a lógica do crédito híbrido dialoga diretamente com o racional por trás da cessão de direitos creditórios: pulverizar risco, adequar prazo ao fluxo de caixa do originador e trazer para dentro da operação instrumentos historicamente restritos ao mercado de capitais. A diferença é que, em vez de uma estrutura única de securitização, o modelo combina múltiplas fontes dentro de uma mesma estratégia de captação, o que exige originação e monitoramento mais sofisticados.
Perspectivas: o que vem a seguirCom a Multiplike projetando dobrar o volume de operações no ano, de R$ 10 bilhões para R$ 20 bilhões, o crédito híbrido tende a ganhar relevância como categoria própria dentro do mercado de crédito corporativo brasileiro, especialmente enquanto a Selic permanecer em patamar elevado e o Banco Central mantiver cautela quanto à trajetória da inflação em 2026 e 2027.
Para gestores de fundos de crédito e estruturadores, o dado a acompanhar é a velocidade de migração da demanda corporativa do crédito bancário tradicional para instrumentos de mercado de capitais, tendência já visível no descompasso entre o crescimento de 14,2% dos títulos privados de dívida e a expansão de 7,1% dos empréstimos do sistema financeiro. Caso esse movimento se sustente, a origination de operações híbridas pode se tornar um canal relevante de ativos para fundos estruturados, ampliando o leque de garantias e fluxos de recebíveis disponíveis para securitização.
Fontes: Brazil Economy (https://brazileconomy.com.br/financas/2026/09/credito-hibrido-movimenta-r-10-bilhoes-ao-combinar-banco-e-mercado-de-capitais/)
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