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Os donos de FIDCs são os novos banqueiros da Faria Lima

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Os donos de FIDCs são os novos banqueiros da Faria Lima

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Estrutura tributária mais leve, menor custo operacional e um cenário regulatório mais claro têm atraído gestores que buscam escala no crédito sem montar um banco do zero. É essa a leitura de Fabrizio Gueratto, ex-sócio do Banco Modal, em coluna publicada em 2 de julho no E-Investidor (Estadão), sob o título "Investimento não é cassino". O mercado de capitais brasileiro movimentou R$ 283 bilhões em ofertas entre janeiro e maio deste ano, alta de 14,1% na comparação anual, enquanto o universo de FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios) avança rumo à marca de R$ 1 trilhão em patrimônio.

Contexto: o prestígio do banco perde espaço

Durante décadas, a ambição natural de quem queria ganhar escala no crédito era construir um banco. Ali estavam o prestígio, a licença regulatória, a capacidade de funding e a imagem de poder dentro do mercado financeiro. Segundo Gueratto, essa lógica vem mudando de forma silenciosa e profunda no Brasil: a indústria de fundos como um todo já supera R$ 11 trilhões em patrimônio, e o segmento de FIDCs caminha em ritmo acelerado para uma marca que, até pouco tempo, parecia distante.

Pesa também a dificuldade prática de abrir um banco novo. Na leitura do colunista, o Banco Central vem restringindo a concessão de novas licenças bancárias justamente para conter o risco sistêmico associado ao aumento do número de instituições financeiras, o que empurra quem quer crescer no crédito para estruturas alternativas como o FIDC.

O que mudou: tributação, regulação e diferimento fiscal

O argumento tributário é central na coluna. Um banco pode pagar até 55% de imposto sobre o resultado, enquanto um FIDC recolhe 15% sobre o ganho da cota subordinada júnior, e apenas no momento do resgate. Esse desenho cria um diferimento fiscal relevante: o capital continua se multiplicando ao longo do tempo sem sofrer a corrosão tributária periódica que atinge outras estruturas financeiras.

Isso não significa que o FIDC opere num vácuo regulatório. Gueratto lembra que a estrutura também exige gestor sério, administrador sólido, custodiante, governança, esteira operacional, tecnologia e controle de risco. No desenho normativo, a Resolução 175 e os ajustes recentes da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) trouxeram mais clareza, padronização e segurança para o setor, sem transformar o FIDC numa miniatura de banco. A diferença central está na lógica econômica: o FIDC é mais leve, mais rápido e mais flexível para transformar recebíveis em negócio escalável, sem o peso de capital regulatório, agências físicas e margem que sustentam uma instituição bancária tradicional.

Análise: "os novos banqueiros da Faria Lima"

Gueratto fala com propriedade sobre os dois lados dessa conta. Como ex-sócio do Banco Modal, ele reconhece que um banco entrega status e, em alguns casos, lucro elevado, mas também consome capital, tempo e margem numa escala que poucos gestores de fora do setor conseguem dimensionar. É por isso, escreve o colunista, que "os donos de FIDCs estão se tornando os novos banqueiros da Faria Lima" e, em alguns casos, já são.

Ele também traz um recorte de mercado a partir da própria atuação. Diz comandar hoje a maior assessoria de imprensa do ecossistema de FIDCs no país e cita ter acompanhado de perto a trajetória de gestoras e estruturadoras que colocaram o fundo no centro da estratégia, entre elas nomes como Multiplike, IOX, Ouro Preto, Audax, Intra, Everblue e Azumi. Para o colunista, essas casas capturaram uma geração de riqueza mais acelerada do que a observada no modelo bancário tradicional.

A coluna faz, ainda, uma distinção importante para quem avalia risco no setor: FIDCs amadores, montados sem musculatura operacional, tendem a desaparecer, ser comprados ou ficar para trás, enquanto o capital relevante migra para fundos profissionalizados, com tecnologia proprietária, backoffice robusto, governança efetiva e capacidade real de análise de crédito e cobrança.

Em conteúdo relacionado publicado junto da coluna, o gestor Daniel Pegorini, da Valora, avalia que os FIDCs vêm atravessando o ciclo recente de juros altos sem piora relevante de risco do ponto de vista sistêmico, ainda que cobrem, segundo ele, um preço alto de quem opera essas estruturas no dia a dia.

Nem todo o mercado compra essa leitura sem ressalva. Nos comentários da publicação original no Instagram do E-Investidor, o perfil cotasubordinada contrapôs o argumento central da coluna ao lembrar que, no FIDC, a perda tem endereço certo, a cota subordinada, e que esse endereço raramente pertence a quem estruturou a operação. O ponto é relevante para o gestor institucional: na cota subordinada, mecanismo que absorve as primeiras perdas de um FIDC antes que cheguem à cota sênior, o risco de crédito fica concentrado em um grupo específico de cotistas, muitas vezes distinto de quem originou a operação. Já no banco, a perda entra direto no capital da própria instituição e aciona mecanismos de supervisão prudencial do Banco Central. São formas diferentes de alocar o mesmo risco, com consequência direta sobre quem paga a conta quando o crédito subjacente não performa.

Perspectivas: o que observar daqui para frente

Para Gueratto, a expansão dos FIDCs não é acaso: reflete uma mudança estrutural na forma como o crédito está sendo originado, distribuído e monetizado no país, e ajuda a explicar por que, em muitos casos, ter um FIDC bem operado passou a ser um negócio melhor do que ter um banco.

O mercado deve acompanhar ao menos quatro frentes daqui para frente: o ritmo de aproximação do patrimônio total de FIDCs à marca de R$ 1 trilhão, a consolidação trazida pela Resolução 175 e por eventuais novos ajustes da CVM, o processo de seleção natural entre FIDCs profissionalizados e estruturas amadoras, e a forma como gestores comunicam a investidores o risco concentrado na cota subordinada, ponto que já gera debate público entre profissionais do setor. A coluna completa, com acesso mediante assinatura, está disponível no E-Investidor, portal do Estadão.


Fontes: Coluna "Investimento não é cassino", de Fabrizio Gueratto, publicada em 02/07/2026 no E-Investidor (Estadão); publicação no Instagram @estadaoinvestidor.

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1 comentário

  1. Danilo J S Kahil

    A restrição do Banco Central a concessão de novas licenças bancárias é pela incapacidade de fiscalização do setor. A falta investimentos em tecnologia e pessoas é que pode resultar em risco sistêmico.

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