Pesquisa eleitoral mais acirrada reacende debate sobre prêmio de risco no crédito privado
Pesquisa PoderData/Aya mostra corrida presidencial mais acirrada a pouco mais de um ano da eleição, movimento que já aparece na precificação de risco soberano e pode elevar o custo de captação de fundos de crédito estruturado em 2027.

A pesquisa PoderData/Aya divulgada em 10 de setembro de 2026 mostrou o senador Flávio Bolsonaro (PL) à frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no cenário de segundo turno, com 47% contra 45%, diferença dentro da margem de erro de 1,8 ponto percentual. O resultado, somado à trajetória de pesquisas recentes que mostram o páreo cada vez mais apertado, tem sido lido por gestores de renda fixa como mais um sinal de que 2026 caminha para ser um ano eleitoral de alta volatilidade, com reflexos diretos sobre a curva de juros e o custo de funding de fundos que operam com direitos creditórios.
Para o mercado de FIDC (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios), veículo que compra recebíveis de empresas e os transforma em cotas seniores e subordinadas oferecidas a investidores institucionais e qualificados, o ciclo eleitoral importa porque boa parte das operações estruturadas usa como referência o CDI e a curva de juros futura. Quando o mercado precifica mais incerteza fiscal ou política, essa curva se inclina, o custo de captação sobe e o apetite por risco de crédito privado tende a recuar, especialmente entre originadores de menor rating.
Contexto: um ano eleitoral já sob observação
Desde o início de 2026, casas de análise vêm chamando atenção para o padrão histórico de anos eleitorais no Brasil. Episódios como a disparada do dólar acima de R$ 4,00 em 2002, o rebaixamento do rating soberano do país em meio à deterioração fiscal de 2014 e 2015, e a depreciação cambial superior a 15% entre janeiro e outubro de 2022 são citados como referência de como a percepção de risco político se transmite rapidamente para ativos financeiros, incluindo o crédito privado.
Um levantamento do Instituto Millenium sobre o ciclo eleitoral de 2026 aponta que o CDS soberano do Brasil, contrato que mede o custo de proteção contra um calote da dívida, tende a se ampliar em períodos eleitorais, e que a curva de juros futura embute prêmios maiores para contratos mais longos, elevando o custo de financiamento tanto público quanto privado. Segundo a publicação, o cerne da questão não é necessariamente qual candidato vence, mas qual compromisso fiscal será mantido a partir de 2027.
O que mudou: corrida mais apertada em poucos dias
A pesquisa PoderData/Aya de 3 de setembro já havia mostrado Flávio Bolsonaro à frente pela primeira vez desde maio, com 45% contra 44% de Lula, também dentro da margem de erro. Na rodada seguinte, divulgada em 10 de setembro, com entrevistas realizadas entre 6 e 9 de setembro junto a 3.000 eleitores em 623 municípios de todos os estados, a distância abriu ligeiramente para 47% a 45%. No primeiro turno, Lula aparece com 38% e Flávio com 36%, seguidos por Augusto Cury (Avante), com 10%. Os índices de rejeição também chamam atenção: 50% para Lula e 45% para Flávio.
O quadro não é unânime entre os institutos. A Quaest, em pesquisa com 2.004 entrevistados entre 30 de agosto e 1º de setembro, mostrou Lula à frente por margem ainda mais estreita, 42% a 41%, classificando o resultado como uma corrida mais acirrada em relação ao levantamento anterior. A divergência de poucos pontos entre institutos, comum na fase pré-eleitoral, tende a ampliar o ruído nos mercados, que reagem tanto ao nível dos números quanto à tendência de movimento entre uma pesquisa e outra.
Análise: o que isso significa para o crédito estruturado
O comportamento típico de ano eleitoral já está em curso: aumento da volatilidade do Ibovespa, oscilação do câmbio e reprecificação de prêmios de risco em ativos de renda fixa, conforme reportagens recentes de mercado. Para o setor de FIDC, esse ambiente se traduz em pelo menos três efeitos práticos. Primeiro, o custo de emissão de cotas seniores tende a subir, acompanhando a alta na curva de juros futura, o que pressiona o retorno exigido pelos investidores. Segundo, a PDD (Provisão para Devedores Duvidosos), métrica que mede a expectativa de perdas com inadimplência de uma carteira de recebíveis, tende a ganhar peso na análise de risco de novas operações, à medida que gestores se tornam mais conservadores diante da incerteza macroeconômica. Terceiro, originadores de menor porte, mais dependentes de securitização para capital de giro, podem enfrentar spreads mais altos ou maior seletividade por parte dos estruturadores.
Vale reforçar que, até aqui, o movimento é de precificação antecipada, não de crise. A distância entre os candidatos segue dentro da margem de erro estatística em praticamente todas as pesquisas, o que reduz o risco de um choque abrupto no curto prazo. Mas gestores de crédito privado costumam antecipar cenários, e a tendência observada nas últimas semanas, corrida mais apertada e maior variação entre institutos, já é suficiente para elevar prêmios em novas emissões.
Perspectivas: o que monitorar até 2027
O calendário eleitoral segue com novas rodadas de pesquisa a cada poucas semanas até outubro de 2026, o que deve manter o tema no radar de gestores de FIDC e de renda fixa em geral. Investidores institucionais tendem a acompanhar de perto três indicadores adicionais: a trajetória do CDS soberano, a inclinação da curva de juros futura na B3 e o comportamento do câmbio, todos sensíveis a mudanças na percepção de risco político.
Para o setor de crédito estruturado, o cenário reforça a importância de due diligence mais rigorosa na escolha de originadores e de estruturas de cotas com maior subordinação como proteção adicional em um ambiente de juros mais voláteis. Até a definição do quadro eleitoral, a expectativa entre gestores é de manter posições mais conservadoras em crédito privado, priorizando operações com garantias robustas e prazos mais curtos.
FIDC NEWS
O .fidcnews é um veículo digital focado em notícias e análises sobre Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs), com o propósito de tornar acessíveis os dados e tendências do mercado de crédito estruturado.
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