Pix e autocustódia se aproximam e abrem nova frente para o mercado de fintechs no Brasil
Lançamento de carteira não custodial integrada a pagamentos instantâneos coloca em discussão o controle dos ativos digitais e o papel das instituições financeiras.

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São Paulo, outubro de 2026 - Depois de simplificar pagamentos e transferências, as fintechs brasileiras começam a explorar uma nova etapa da digitalização financeira: permitir que o próprio usuário mantenha a custódia de seus ativos digitais. A mudança aproxima dois modelos que, até então, operavam em estruturas distintas: o Pix, que depende da infraestrutura do sistema financeiro regulado, e as carteiras de autocustódia, nas quais o titular controla diretamente as credenciais necessárias para movimentar criptoativos. Um exemplo desse movimento é a DominiPay, empresa brasileira de tecnologia financeira, que lançou em 20 de outubro uma carteira não custodial integrada ao seu aplicativo. A ferramenta permite enviar e receber ativos digitais pelas redes Bitcoin, Solana, Tron e Polygon, consultar o histórico de transações e acessar uma funcionalidade de saída para Pix por meio da rede Polygon.
A principal diferença em relação às carteiras digitais convencionais está na responsabilidade pela guarda dos recursos. Em modelos custodiais, uma instituição ou plataforma mantém o controle das credenciais utilizadas para movimentar os ativos. Já na autocustódia, essas chaves permanecem com o próprio usuário, que passa a assumir diretamente sua proteção.
A integração chama atenção porque parte das fintechs construiu seus modelos de negócio a partir da centralização de serviços em uma mesma plataforma. A autocustódia introduz outra possibilidade: separar a guarda dos ativos da infraestrutura utilizada para realizar operações.
“Os bancos digitais mudaram a forma como as pessoas acessam serviços financeiros, mas não necessariamente a maneira como os recursos são custodiados. Com a blockchain, determinadas operações podem ocorrer sem que uma instituição mantenha o controle direto dos ativos. O desafio agora é entender como essa estrutura pode coexistir com os serviços financeiros tradicionais”, afirma Leonardo Maximiliano, CEO da DominiPay.
Quem controla os recursos passa a ser uma nova questão
A expansão dos bancos digitais e das fintechs reduziu a necessidade de agências físicas e ampliou o acesso a pagamentos e outros serviços por aplicativos. Apesar das mudanças na experiência do usuário, a custódia e a movimentação dos recursos continuaram, em grande parte, vinculadas à intermediação de instituições financeiras.
A autocustódia modifica uma parte dessa relação. Por meio de carteiras baseadas em blockchain, o titular pode controlar as chaves privadas utilizadas para autorizar transferências de seus ativos digitais, sem depender de uma instituição para custodiar esses recursos.
A mudança não significa que bancos ou fintechs deixem de desempenhar suas funções. Serviços como pagamentos em reais, crédito e liquidação continuam vinculados às estruturas e às regras aplicáveis ao sistema financeiro.
Na prática, os dois modelos podem coexistir. Um usuário pode manter recursos em uma instituição financeira e, ao mesmo tempo, administrar determinados ativos digitais em uma carteira sob sua própria custódia.
“O ponto central não é substituir um modelo pelo outro. O que muda é a possibilidade de separar funções que tradicionalmente estavam concentradas em uma instituição. O usuário pode recorrer a serviços financeiros para determinadas operações e manter o controle direto sobre outros ativos”, explica Maximiliano.
Integração com Pix não elimina intermediários
A conexão entre carteiras não custodiais e pagamentos instantâneos também traz uma distinção importante: manter criptoativos sob custódia própria não significa realizar todas as operações sem intermediários.
No caso da carteira lançada pela DominiPay, os usuários podem movimentar ativos digitais nas redes suportadas e utilizar a funcionalidade de saída para Pix pela Polygon. Essa operação conecta o ambiente blockchain à infraestrutura de pagamentos em reais, que continua sujeita às exigências regulatórias e à atuação das instituições responsáveis pelos serviços envolvidos.
Assim, embora o controle dos ativos digitais permaneça com o titular, a conversão e a movimentação de recursos pelo sistema financeiro tradicional podem depender de prestadores de serviços e de procedimentos específicos.
A combinação evidencia uma das características da atual transformação financeira: o desenvolvimento de estruturas híbridas, nas quais tecnologias descentralizadas passam a operar em conjunto com serviços regulados.
“Existe uma diferença importante entre controlar um ativo digital e acessar a infraestrutura necessária para convertê-lo ou movimentá-lo em reais. A autocustódia resolve a questão de quem mantém as chaves privadas, mas não elimina as etapas que dependem do sistema financeiro. São estruturas distintas que podem funcionar de maneira integrada”, afirma o executivo.
Autocustódia transfere responsabilidades ao usuário
A possibilidade de controlar diretamente os ativos digitais também traz riscos que não aparecem da mesma maneira nos serviços financeiros tradicionais.
Em uma carteira não custodial, o acesso aos recursos depende das credenciais criptográficas mantidas pelo titular. Na solução da DominiPay, a recuperação da carteira é feita por meio de uma frase secreta, cuja proteção fica sob responsabilidade do próprio usuário.
Diferentemente de senhas bancárias convencionais, essas credenciais não podem necessariamente ser redefinidas por uma instituição. Caso sejam perdidas ou comprometidas, o acesso aos ativos pode se tornar irrecuperável.
Para empresas que utilizam ativos digitais, a adoção de estruturas de autocustódia também exige controles internos para definir responsáveis pelas movimentações, proteger credenciais e manter registros das transações.
Na avaliação de Maximiliano, o avanço dessas soluções deve ser acompanhado de maior compreensão sobre os riscos envolvidos na administração direta de recursos digitais.
“A autocustódia transfere ao titular uma responsabilidade que antes poderia estar concentrada em uma instituição. Isso exige cuidados com segurança, armazenamento das credenciais e autorização das transações. Ter controle direto sobre os ativos não elimina riscos; muda a forma como eles precisam ser administrados”, explica.
Modelos de custódia devem coexistir
A chegada de carteiras não custodiais a plataformas que também oferecem serviços financeiros tradicionais coloca em evidência uma transformação mais ampla na infraestrutura de pagamentos e ativos digitais.
Em vez de depender exclusivamente de uma instituição para a guarda e a movimentação de todos os recursos, usuários e empresas passam a ter diferentes possibilidades de custódia, conforme as características dos ativos e das operações realizadas.
A tendência, segundo a DominiPay, é de coexistência entre bancos, fintechs, prestadores de serviços de ativos virtuais e ferramentas de autocustódia, cada um desempenhando funções específicas dentro do sistema financeiro.
“Durante muito tempo, a discussão esteve concentrada em qual banco ou fintech oferecia o melhor serviço. Com os ativos digitais, surge uma questão adicional: quem deve manter a custódia dos recursos? Essa escolha passa a fazer parte da relação entre usuários e serviços financeiros, e deve ganhar importância à medida que essas tecnologias se desenvolvem”, conclui Maximiliano.
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