Reeleição de Lula pressiona juros futuros e muda a conta do crédito privado
Reeleição frustra o cenário-base do mercado e reabre a discussão fiscal. Para o crédito estruturado, o efeito chega pela curva de juros.

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A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno contrariou o que o mercado vinha precificando desde a primeira rodada da eleição. Antes mesmo da abertura da B3, ativos brasileiros negociados no exterior recuaram com força. Gestores esperam alta relevante nos juros futuros. Para FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios) e fundos de crédito privado, o impacto passa pela curva de juros, pelo custo de captação dos originadores e pela qualidade das carteiras.
O rali que precificou outro resultado
Entre o primeiro e o segundo turno, o mercado montou posições apostando na vitória de Flávio Bolsonaro (PL). No primeiro pregão após a primeira rodada, o Ibovespa subiu 7,7%, para 209,6 mil pontos, e o dólar caiu de R$ 5,22 para cerca de R$ 5,00. Na sexta-feira (23), a bolsa fechou em 205.082 pontos e o dólar à vista em R$ 4,9931, abaixo da marca de R$ 5.
Segundo levantamento da Manchester Investimentos, as 13 pesquisas consideradas pela casa mostravam Flávio à frente, com vantagem média de 2,4 pontos percentuais. A Bolsa acumulava alta de 15,3% desde a confirmação das candidaturas, em agosto. O MSCI Brasil, por sua vez, subiu cerca de 13% em dólar só em outubro.
O pano de fundo monetário também importa para quem opera crédito. O Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) reduziu a Selic de 14,00% para 13,75% ao ano em 16 de setembro e não terá reunião em outubro. O ciclo de cortes começou de forma gradual, e o espaço para continuar depende diretamente da percepção de risco fiscal.
O resultado e a primeira reação
Segundo o TSE, Lula foi reeleito com 64.256.232 votos, ou 51,79% dos votos válidos, contra 59.826.041 votos (48,21%) de Flávio Bolsonaro. A abstenção ficou em cerca de 19,2%.
A reação apareceu ainda no domingo à noite. O EWZ, principal ETF de ações brasileiras em Nova York, recuou entre 18% e 27% no pós-mercado, conforme o horário da cotação. Às 21h38, o contrato futuro do real com vencimento em novembro caía 11,29%. Entre os ADRs, Petrobras recuava 12,92%, Itaú Unibanco 12,72% e Bradesco 12,29%.
Pesquisa do Citi com 73 gestores de ações e multimercados, feita antes do segundo turno, mostra a dimensão do ajuste esperado:
80% esperavam queda superior a 5% do Ibovespa em caso de vitória de Lula.
63% projetavam desvalorização do real acima de 5%.
67% apostavam em alta de mais de 100 pontos-base no DI de janeiro de 2029, contrato que estava em 12,645%.
O circuit breaker é acionado quando o Ibovespa cai 10% e interrompe os negócios por 30 minutos. A última vez que ele foi acionado foi em março de 2020.
Análise: por que o crédito estruturado sente pelos juros
Os analistas apontam a trajetória fiscal como o principal vetor. A dívida bruta do governo geral soma R$ 11,1 trilhões, ou 82,9% do PIB. O Bradesco BBI projeta que esse indicador avance de 83,6% para 88,2% do PIB nos próximos anos. O banco também rebaixou taticamente a recomendação para o Brasil, de overweight para neutro.
“A expectativa é de uma semana de maior cautela, com o Ibovespa pressionado, dólar em alta e juros futuros subindo”, afirmou Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos. Luiz Ferreira, diretor do banco suíço EFG para as Américas, avalia que “o primeiro impacto deve ser uma volta das taxas de juros aos patamares anteriores ao resultado do primeiro turno”. Gabriel Pinheiro, sócio da GT Capital, estima alta de 60 a 100 pontos-base nos vencimentos de médio e longo prazo e dólar entre R$ 5,30 e R$ 5,50.
Para o mercado de FIDC, esse movimento tem efeitos diferentes conforme a estrutura de cada fundo:
Cotas pós-fixadas: cotas sênior remuneradas em CDI mais spread tendem a se beneficiar de uma Selic alta por mais tempo.
Cotas prefixadas: a abertura da curva provoca marcação a mercado negativa no curto prazo.
riginadores: o custo de captação sobe, o que pressiona margens e taxas de cessão.
O risco mais relevante está na qualidade do crédito. Em agosto, 81,7% das famílias tinham algum tipo de dívida, segundo a CNC, e o número de empresas inadimplentes chegou a 9,3 milhões, recorde da série. Juros mais altos por mais tempo tendem a elevar a PDD (provisão para devedores duvidosos) das carteiras mais expostas ao varejo e ao consumo.
Gabriel Uarian, analista-chefe da Cultura Capital, aponta varejo, construção, bancos de crédito ao consumo e consumo discricionário como os setores mais expostos. Exportadores e empresas com receita em dólar devem sofrer menos. Para gestores de FIDC, a leitura é imediata: carteiras de recebíveis de consumo e varejo exigem acompanhamento mais próximo de subordinação e inadimplência. Recebíveis do agronegócio e de cadeias exportadoras tendem a atravessar melhor o ajuste.
Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research, avalia que a inflação mais persistente reduz o espaço para novos cortes da Selic. Esse fator pode alongar o período de juros elevados que pressiona tanto originadores quanto sacados.
O que vem a seguir
A intensidade da correção vai depender dos primeiros sinais do novo mandato. Gustavo Trotta, sócio da Valor Investimentos, cita a escolha do ministro da Fazenda e o compromisso com o arcabouço fiscal como os principais pontos de atenção. O plano de governo prevê manter o arcabouço e controlar o crescimento das despesas primárias, mas não traz meta nem prazo para a redução dos juros.
Sung lembra que, depois da eleição de 2022, a Bolsa se recuperou à medida que o governo apresentou medidas fiscais. O Bradesco BBI afirma que voltaria a ficar overweight em Brasil com uma correção significativa de preços, um pacote fiscal crível ou um ciclo de afrouxamento monetário mais forte. “2026 ainda tem fôlego para boa-fé, mas, em 2027, é o concreto ou nada”, resume Paula Zogbi, estrategista-chefe da Nomad.
Para o investidor de crédito estruturado, os pontos de atenção nas próximas semanas são:
comportamento da curva de DI, sobretudo nos vencimentos de 2028 e 2029;
as expectativas de inflação no Boletim Focus;
a comunicação do Banco Central antes da próxima reunião do Copom;
a composição da equipe econômica.
Um prêmio de risco mais alto tende a encarecer novas emissões e a abrir spreads no crédito privado. Para quem já está posicionado em cotas pós-fixadas e com boa subordinação, esse mesmo prêmio pode significar retorno real elevado por mais tempo.
Fontes: TSE (tse.jus.br); InfoMoney (infomoney.com.br); Forbes Brasil (forbes.com.br); Poder360 (poder360.com.br); O Tempo (otempo.com.br); Money Times (moneytimes.com.br); Canal Rural (canalrural.com.br)
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