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Fidcs & FundosTecnologiaCrédito privado

A corrida por escala leva a IA aos bastidores do crédito privado

Gestoras recorrem à automação para integrar equipes e ampliar a capacidade operacional; na Bless Capital, implementação gradual de tecnologias apoia rotinas de uma carteira de cerca de 90 fundos.

FIDC NEWSFIDC NEWS 5 min de leituraSem comentários

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Foto: Divulgação

O crescimento de uma gestora de crédito privado traz um desafio que vai além da seleção de ativos: ampliar a operação sem fazer com que despesas e necessidades de contratação avancem na mesma proporção. Cada novo fundo acrescenta documentos, prazos e obrigações à rotina das equipes, exigindo uma estrutura capaz de acompanhar a expansão sem perder o controle dos processos.

É nesse espaço, entre a estratégia de investimento e a execução diária, que a inteligência artificial generativa começa a ganhar função nas casas de crédito. Além das aplicações voltadas à análise de informações financeiras, a tecnologia pode apoiar a coordenação do trabalho entre áreas, a organização de documentos e o acompanhamento das atividades necessárias ao funcionamento dos fundos.

Na Bless Capital, gestora independente que informa ter cerca de 90 fundos sob gestão, ferramentas de IA e automação estão em processo de migração e implantação gradual nas rotinas corporativas. A proposta é facilitar a circulação de informações entre análise, jurídico, compliance, relacionamento com clientes e operações, reduzindo o esforço dedicado à organização das tarefas.

“Com mais de 90 fundos, o gargalo não é analisar crédito, é coordenar. Um regulamento que muda passa pelo jurídico, pelo compliance, pela operação e pelo administrador. A IA

entra nesse processo de migração para que ninguém precise onerar tempo buscando em e-mail e WhatsApp o status individual que está cada demanda.”, afirma Rafael Barbieri, CEO e fundador da Bless Capital.

O desafio de coordenação aparece porque a operação de um fundo envolve atividades interdependentes. Uma atualização documental pode exigir avaliação jurídica, análise de compliance e comunicação a outras equipes. Quando as informações ficam dispersas em mensagens, planilhas e reuniões, acompanhar o andamento de cada demanda passa a consumir parte relevante do tempo dos profissionais.

A multiplicação dessas interações torna a capacidade operacional uma variável importante para o crescimento. Não basta ter profissionais disponíveis em cada departamento: é preciso assegurar que as áreas recebam as informações necessárias, conheçam suas responsabilidades e consigam identificar o que impede o avanço de uma atividade.

Na Bless Capital, a síntese de reuniões e a montagem de propostas e memorandos de comitê já contam com suporte de IA em fase de testes e adoção inicial. A organização do histórico de decisões, o mapeamento de pendências e a passagem de tarefas entre equipes seguem em implantação progressiva, sem estarem totalmente consolidadas na operação diária. Nesses fluxos, a automação encaminha as demandas e a IA generativa ajuda a consolidar e consultar as informações produzidas ao longo dos processos.

As duas tecnologias cumprem funções complementares. Fluxos automatizados podem encaminhar uma demanda, emitir um aviso ou registrar uma mudança de etapa a partir de regras previamente definidas. Já a IA generativa pode ajudar a resumir documentos e transformar informações dispersas em materiais mais fáceis de consultar, sujeitos à revisão dos profissionais responsáveis.

O custo da complexidade

A lógica econômica dessa adoção está na busca por reduzir o esforço administrativo necessário para acompanhar cada fundo. Se uma estrutura consegue absorver novas demandas com menor crescimento de tarefas manuais, abre espaço para ampliar sua capacidade de atendimento e distribuir melhor o tempo das equipes.

Isso não significa que fundos diferentes imponham a mesma carga de trabalho. O número de veículos sob gestão, isoladamente, não traduz a complexidade de uma operação. Características das carteiras, exigências documentais e particularidades dos regulamentos também influenciam a necessidade de acompanhamento.

Por isso, avaliar o retorno da tecnologia exige observar processos específicos. O tempo necessário para concluir uma tarefa, a frequência de retrabalho e o volume de pendências são indicadores que ajudam a distinguir uma melhoria efetiva da simples adoção de uma nova ferramenta.

Outra dimensão é a capacidade de resposta. Quando o histórico de uma demanda está organizado e disponível, a equipe pode localizar informações com mais rapidez e reduzir a necessidade de reconstruir discussões anteriores antes de atender a uma solicitação.

O potencial econômico da IA tem atraído a atenção do setor financeiro. Em estudo publicado em 2023, a McKinsey estimou que a IA generativa poderia acrescentar entre US$ 200 bilhões e US$ 340 bilhões por ano em valor ao setor bancário global, sobretudo por ganhos de produtividade. A projeção considera a implementação dos casos de uso analisados e não corresponde a resultados já alcançados pelas instituições.

Embora o levantamento tenha como referência os bancos, a discussão sobre o uso do tempo também atravessa a atividade das gestoras: quanto da capacidade dos profissionais é dedicado à análise e quanto é consumido pela busca de informações, preparação de documentos e coordenação de tarefas?

Conhecimento que permanece na operação

Além do acompanhamento de prazos, a organização do conhecimento é uma das frentes de aplicação da tecnologia. Ao longo da vida de um fundo, as equipes acumulam registros sobre decisões, procedimentos e particularidades da operação. A utilidade desse material depende da facilidade de encontrá-lo e de identificar qual informação permanece válida.

A centralização desse histórico pode facilitar a continuidade do trabalho quando uma atividade muda de responsável ou passa de um departamento para outro. Também pode apoiar a integração de novos profissionais, ao oferecer acesso aos registros necessários para compreender o contexto de cada demanda.

Nesse processo, a qualidade da base de informações é determinante. Documentos desatualizados, versões conflitantes e registros incompletos limitam a utilidade das respostas produzidas pelas ferramentas. A adoção da IA exige, portanto, definições sobre atualização dos conteúdos, permissões de acesso e revisão das informações utilizadas pelas equipes.

Na atividade de gestão, esse cuidado ganha relevância porque agilidade e controle precisam avançar juntos. Resumos e consultas automatizadas podem apoiar o trabalho, mas decisões de investimento e avaliações jurídicas ou de compliance continuam a exigir análise e responsabilidade dos profissionais envolvidos.

“Decisão de crédito e parecer de compliance continuam com gente, com nome e responsabilidade. O que a gente tira do time é o trabalho de organizar o trabalho. ”, diz Barbieri.

A aposta da Bless Capital é usar essa integração gradual para sustentar a expansão da operação. O resultado dependerá da conclusão da migração e da capacidade de transformar ferramentas em rotinas plenamente incorporadas pelas equipes, demonstrando, na prática, onde haverá redução de tempo, retrabalho ou custo.

Para as gestoras, o teste de escala acontece quando o aumento da carteira deixa de exigir a reprodução proporcional de tarefas manuais. É nesse ponto que a tecnologia pode passar de apoio administrativo a um componente da estratégia de crescimento.

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