Robinhood prepara trading 24/7 e agentes de IA para 28 milhões de clientes
A fintech americana vai liberar negociação de ações e ETFs nos fins de semana e quer colocar agentes de inteligência artificial dentro do próprio aplicativo.

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Para o mercado de capitais, inclusive o de crédito estruturado, a aposta antecipa uma discussão que deve chegar cedo ou tarde ao Brasil: o que acontece com liquidez, risco e governança quando o mercado não fecha e quem opera pode ser um algoritmo.
Da corretagem zero à
plataforma financeira diversificada
Em 13 anos de existência, a
Robinhood Markets derrubou barreiras e custos de acesso à bolsa americana para
o pequeno investidor e forçou as casas tradicionais de Wall Street a reagir. O
aplicativo, que já foi visto como um cassino de criptoativos e meme stocks da
Geração Z, se tornou uma plataforma financeira diversificada.
Hoje a empresa tem 13 negócios distintos, cada um com receita anual acima de US$ 100 milhões. No último trimestre, o faturamento bateu recorde de US$ 1,3 bilhão, alta de 32% na comparação anual. A corretagem de ações, que já foi o core business, rendeu US$ 129 milhões no período, e as opções, US$ 342 milhões. Juntas, as duas linhas ainda respondem por mais de um terço da receita trimestral.
O maior salto veio dos mercados preditivos, os chamados event contracts. Lançada há pouco mais de um ano, a divisão gerou US$ 156 milhões no trimestre e virou um dos focos da companhia. A ação acumula alta de 65% em seis meses, recuperando a queda do primeiro trimestre, e a empresa vale US$ 102 bilhões na Nasdaq.
O que muda: mercado aberto
sete dias por semana
Os clientes poderão, em breve,
negociar algumas ações e ETFs nos fins de semana. As operações vão passar pela
Bruce ATS, plataforma da Bruce Markets que permite negociação fora do horário
regular. A Robinhood acaba de investir na Bruce Markets ao lado da Peak6
Investments, em aporte de valor não divulgado. A data de início ainda não foi
confirmada.
A estrutura operacional usa a infraestrutura de negociação da Nasdaq, enquanto compensação, liquidação e custódia ficam com a Apex Clearing Corp., que já era investidora da Bruce. A lista de financiadores inclui ainda Fidelity Investments, Nasdaq Ventures, NH Investment & Securities, Tastytrade e Webull.
"Notícias que impactam o mercado podem acontecer a qualquer momento. Com o trading 24/7, os clientes poderão administrar o portfólio em tempo real", afirmou Steve Quirk, chief brokerage officer da corretora.
Agentes de IA com permissão
para operar
A segunda frente é o chamado
agentic trading, tema central das apresentações da empresa em Houston, segundo
o Wall Street Journal. A Robinhood já permite que ferramentas de terceiros,
como o Claude, da Anthropic, sejam conectadas às contas dos usuários. Foi
criado um tipo de conta específico para esse uso, que já atraiu mais de 150 mil
clientes.
O fundador e CEO, Vlad Tenev, afirmou à CNBC que o objetivo é levar a ferramenta para dentro do aplicativo, com acesso para todos os 28 milhões de clientes. Para Tenev, os agentes vão dar ao investidor de varejo recursos que hoje estão restritos a grandes gestoras e fundos quantitativos.
Sobre o risco de "alucinações" dos modelos causarem prejuízo, o executivo descreveu o modelo de controle: "Por default, o agente faz o trabalho, mas o usuário autoriza a operação. Alguns clientes preferem desativar essa opção para permitir que o agente opere de forma totalmente autônoma e contínua, e isso é possível. Mas a configuração padrão mantém ativada a necessidade de aprovação das operações."
Segundo Tenev, os agentes operam em ambiente isolado (sandbox) e em conta separada. "Eles não podem acessar diretamente o seu saldo principal ou sua conta de aposentadoria para fazer negócios."
Leitura para o mercado de
crédito e de FIDC
O movimento importa para quem
acompanha FIDC (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios) e crédito
privado por três razões. A primeira é a liquidez contínua: um mercado que
negocia no fim de semana muda a dinâmica de formação de preço e expõe a uma pergunta
que a indústria de fundos ainda não respondeu, a de como conciliar ativos
negociados a qualquer hora com cotas que têm janelas fixas de cálculo, resgate
e liquidação.
A segunda é a estrutura. Note que a inovação da Robinhood depende de uma cadeia regulada de infraestrutura, com plataforma de negociação, clearing e custódia contratadas separadamente. É a mesma lógica de segregação de funções que sustenta os FIDCs, em que originação, administração, gestão e custódia são papéis distintos.
A terceira é a governança da
automação. O desenho de "aprovação por padrão" e conta isolada é, na
prática, um sistema de limites e mandatos, semelhante ao que gestores já
aplicam em políticas de investimento e critérios de elegibilidade. À medida que
agentes de IA passem a analisar carteiras, precificar recebíveis ou sugerir
alocações, a pergunta para o gestor deixa de ser se a tecnologia será usada e
passa a ser quais travas ela terá.
O que monitorar
Nos Estados Unidos, os próximos
marcos são a data de estreia do trading 24/7, a chegada dos agentes ao
aplicativo e o aval da SEC aos contratos vinculados a resultados corporativos,
nova modalidade de opções da CBOE Global Markets que a Robinhood pretende
oferecer, segundo a Bloomberg. A empresa também vai lançar futuros perpétuos de
criptomoedas, derivativos sem data de vencimento, por meio da Bitstamp,
adquirida no ano passado.
Para o mercado brasileiro, o caso serve de referência para a discussão sobre tokenização, horários estendidos de negociação e uso de IA na gestão. Reguladores e participantes vão precisar definir até onde a autonomia de um algoritmo pode ir e quem responde quando ele erra.
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