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Suprema Corte dos EUA livra Bayer de US$ 17 bi em passivos e derruba uma década de incerteza

FIDC NEWSFIDC NEWS 5 min de leituraSem comentários
Suprema Corte dos EUA livra Bayer de US$ 17 bi em passivos e derruba uma década de incerteza

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A vitória por 7 votos a 2 no julgamento sobre o herbicida Roundup representa o maior alívio jurídico para o setor de insumos agrícolas em anos e abre caminho para a recomposição de valor que emissores, gestores de FIDCs e FIAGROs precisavam acompanhar.

O caso que corroeu US$ 10 bilhões e derrubou 50% do valor da Bayer

O glifosato é o princípio ativo do Roundup, herbicida de ampla utilização no agronegócio brasileiro e mundial, desenvolvido originalmente pela Monsanto. Quando a Bayer adquiriu a Monsanto, há dez anos, o negócio foi celebrado como o maior M&A já realizado por uma empresa alemã. O que ninguém estimava com precisão era o custo jurídico embutido naquela aquisição.

A partir de meados dos anos 2010, milhares de processos judiciais começaram a questionar se a Monsanto, ao longo de décadas, havia omitido do rótulo do Roundup o risco de desenvolvimento de câncer associado ao uso do produto. A tese autoral sustentava que a empresa sabia do perigo e optou por não alertar os consumidores.

O resultado foi devastador do ponto de vista financeiro. A Bayer já desembolsou US$ 10 bilhões em acordos e indenizações decorrentes dessas ações judiciais. E ainda assim o fim do litígio parecia distante: a empresa negociava um acordo coletivo adicional de US$ 7,25 bilhões para tentar encerrar os casos ainda em aberto. No mercado financeiro, a conta apareceu no preço das ações: desde a aquisição da Monsanto, os papéis da Bayer recuaram cerca de 50% na bolsa de Frankfurt. O CEO da companhia, Bill Anderson, chegou a avaliar publicamente se não seria mais prudente simplesmente parar de fabricar glifosato.

A virada: 7 a 2 na mais alta corte americana

Em 25 de junho de 2026, a Suprema Corte dos Estados Unidos proferiu uma decisão que pode mudar completamente esse cenário. Por 7 votos a 2, o tribunal concluiu que o rótulo federal aprovado pela agência regulatória americana (EPA) prevalece sobre exigências estaduais de advertência ao consumidor. Na prática, isso blindou a Bayer de dezenas de milhares de processos que tinham como argumento central a ausência de alerta de risco no rótulo do produto.

A reação do mercado foi imediata. As ações da Bayer subiram 20% na bolsa de Frankfurt no mesmo dia, segundo dados da Bloomberg. Segundo o veículo, foi a maior valorização percentual diária dos papéis desde 2003. A companhia, que hoje vale quase 53 bilhões de euros (equivalente a aproximadamente R$ 313 bilhões), viu parte relevante do desconto estrutural embutido em suas ações ser reabsorvida em questão de horas.

A decisão tem potencial para encerrar definitivamente o litígio em andamento. Com a Suprema Corte fixando o entendimento de que as regras federais se sobrepõem às ações estaduais sobre o tema, os acordos coletivos em negociação ganham outra dinâmica: a empresa passa a ter poder de barganha que antes não tinha.

O que isso significa para o mercado de crédito do agronegócio

A vitória da Bayer não é apenas uma notícia corporativa. Para o mercado de crédito estruturado ligado ao agronegócio, especialmente para gestores de FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios) e FIAGROs com exposição à cadeia de insumos agrícolas, o resultado tem implicações diretas sobre o perfil de risco dos ativos em carteira.

O glifosato é o herbicida mais utilizado no Brasil. Nas principais safras de soja, milho e algodão, o produto está presente em larga escala nas operações de produtores rurais financiados por linhas de crédito agrícola, cujos recebíveis eventualmente lastreiam operações de securitização. Qualquer restrição severa ao uso ou à comercialização do glifosato nos Estados Unidos poderia criar precedente regulatório com impacto sobre a aceitação do produto em outros mercados, inclusive no Brasil.

"Uma decisão adversa na Suprema Corte teria criado pressão regulatória global sobre o glifosato. O efeito não seria imediato no Brasil, mas a percepção de risco nas cadeias de crédito agrícola certamente aumentaria", avalia um analista de risco especializado em agronegócio consultado pelo fidcnews. "A manutenção do produto no mercado americano com respaldo jurídico reforça a estabilidade do ciclo de produção nas grandes lavouras, o que é positivo para a qualidade dos recebíveis em fundos com exposição ao setor."

Além disso, a recuperação do valor de mercado da Bayer reduz o risco de contração de oferta de insumos. Empresas com balanço deteriorado tendem a cortar investimentos em P&D e distribuição, o que pode afetar a disponibilidade e o preço dos produtos no campo. Com o alívio no passivo contingente, a Bayer recupera capacidade de investimento.

Perspectivas: o acordo coletivo e o novo ciclo da Bayer

Com a decisão da Suprema Corte, o acordo coletivo de US$ 7,25 bilhões que a Bayer tentava fechar ganha outro status. Antes, o acordo era uma tentativa de limitar perdas futuras diante de uma posição jurídica frágil. Agora, pode se tornar um instrumento de encerramento definitivo de um ciclo que consumiu mais de uma década e bilhões de dólares da companhia.

A Bayer ainda precisará formalizar os termos do acordo e obter aprovações judiciais, mas o cenário mudou estruturalmente. A empresa que chegou a cogitar a saída de um de seus produtos mais rentáveis agora começa a reconstruir a confiança do mercado.

Para o agronegócio brasileiro, que depende fortemente do glifosato e de uma cadeia de insumos estável para manter o ritmo de produção e honrar compromissos financeiros com os fundos de recebíveis do setor, o desfecho americano é uma boa notícia. A incerteza jurídica que pesava sobre o maior herbicida do mundo ficou, ao menos no campo regulatório americano, significativamente menor.

O próximo passo a observar é o impacto da decisão sobre os processos ainda em aberto e a velocidade com que a Bayer conseguirá fechar o acordo coletivo. O mercado financeiro já deu seu veredicto no dia da decisão, com uma alta de 20%. Agora é aguardar o capítulo final de um dos litígios corporativos mais longos e custosos da história do agronegócio mundial.


Fonte: The AgriBiz (25/06/2026) | Bloomberg

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