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Bless Capital aposta no empresário como dono do próprio FIDC para financiar crescimento
Entrevista exclusiva | Para a Bless Capital, quem melhor conhece o risco de uma empresa é o próprio empresário, e o FIDC deve começar com o capital dele.

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Créditos: Wanezza Soares/Divulgação
Com cerca de 90 fundos sob gestão e posição entre as seis maiores gestoras do país em número de FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios), a Bless Capital defende que o crédito às empresas pode ser originado por quem conhece o negócio de perto. Em entrevista ao FIDCNEWS, Rafael Barbieri, CEO da casa, explica a tese que desenvolve há cerca de dez anos e os planos de expansão até 2027.
Um mercado de crédito em transição
A Bless parte de um diagnóstico sobre o crédito corporativo no Brasil. O sistema ainda é majoritariamente bancário, mas o mercado de capitais já responde por quase um terço do financiamento das empresas, segundo a gestora. Levantamento da ANBIMA com dados do Banco Central mostra que os títulos de renda fixa representavam 31% da dívida das companhias não financeiras em 2024, ante 16% em 2017. Para a casa, o país vive uma transição para um modelo mais descentralizado, em que instrumentos como o FIDC ganham espaço ao conectar diretamente investidores e tomadores de crédito.
É nesse movimento que a Bless se posiciona. Independente e com foco em FIDCs e crédito estruturado, a gestora não atua no varejo nem como plataforma de distribuição de produtos. Seu trabalho é estruturar e gerir fundos para empresas, atuando como parceira do empresário para transformar o ecossistema do cliente, com seus fornecedores e compradores, em uma plataforma de crédito. A especialização, segundo a casa, foi o principal motor de seu crescimento, que se concentrou sobretudo nos últimos três anos.
O problema: o empresário financia o crédito que paga caro
Na avaliação de Rafael Barbieri, o empresário de médio porte hoje ocupa uma posição desconfortável no mercado de crédito. Quando vende, antecipa seus recebíveis com bancos ou com FIDCs de terceiros e paga por isso. Quando compra, muitas vezes quita boletos de fornecedores que já foram cedidos a outros fundos. Ou seja, ele está dos dois lados da cadeia, mas não decide nada sobre ela.
O ponto que chama a atenção do CEO é para onde vai o dinheiro desse mesmo empresário. Normalmente, ele está aplicado em bancos e plataformas de investimento, que direcionam esses recursos para os FIDCs que compram os recebíveis da própria empresa dele. Na prática, o empresário empresta seu dinheiro ao sistema e depois o toma de volta com custo maior.
A resposta da Bless: um FIDC do próprio empresário
Diante desse cenário, a proposta da Bless é que o empresário assuma o controle dessa engrenagem. Em vez de deixar seus recursos com terceiros, ele leva parte deles para um FIDC estruturado para a sua operação. É como se injetasse capital na empresa sem se tornar sócio dela, já que o fundo é um veículo segregado. A antecipação que antes era feita com um banco ou com o fundo de outro gestor passa a ser feita dentro de uma estrutura própria.
“O melhor para dar crédito é o próprio empresário, usando o dinheiro dele para fazer o primeiro dinheiro do FIDC”, resume Rafael Barbieri, ao lembrar a ideia que teve há cerca de dez anos.
Crédito que o balanço não mostra
A vantagem do modelo está na seleção dos créditos. O empresário indica seus melhores clientes e fornecedores para a carteira, com base em relações construídas ao longo de anos. “O crédito não é só análise de balanço. Esse crédito da ponta é uma análise até investigativa”, afirma o CEO. “Um cliente de dez anos pode ter o balanço ruim, mas eu sei que ele me paga.”
Esse conhecimento costuma estar longe dos grandes centros, em cidades do interior, onde o analista de crédito do banco raramente vai. Os clientes da Bless são, em sua maioria, empresários com operação consolidada e profundo conhecimento de seus mercados regionais, muitas vezes com baixa exposição pública. A decisão final segue com o gestor, que analisa a carteira, os clientes e os fornecedores em uma gestão feita em parceria com o empresário. Os bancos continuam na história, já que a conta corrente do FIDC segue nas grandes instituições, mas a análise de crédito passa a ficar com o fundo.
A estrutura de capital completa o desenho. O empresário entra com a cota subordinada, a primeira a absorver perdas, e a Bless aproxima investidores das cotas sênior e mezanino, que têm uma remuneração-alvo definida em regulamento, protegida pela subordinação. “Em vez de pegar dinheiro emprestado para expandir, ele expande pelo FIDC”, diz. O capital precisa ser do empresário ou da própria empresa. “A gente gosta do skin in the game. O mais importante é o originador correr risco junto, e ele é o primeiro risco.”
Previsibilidade no lugar de limites voláteis
Na prática, a principal mudança é deixar de depender de limites de terceiros. Rafael descreve um cenário comum: em qualquer aperto da economia, um limite de R$ 2 milhões vira R$ 1 milhão de uma hora para outra, comprometendo o planejamento. A busca por novas fontes em meio ao estresse encarece o dinheiro. “O banco gosta de emprestar para quem não precisa. Quem precisa vai pagar mais”, afirma.
Os FIDCs da Bless costumam ter prazo de permanência do investidor, em geral de alguns anos, o que permite à empresa contar com o limite do fundo, dentro das regras do regulamento, desde que mantenha a cota subordinada. O perfil buscado é indústria, de qualquer segmento, e comércio, com uma condição clara: o FIDC deve servir para crescer, não para substituir dívida.
O público principal da gestora são empresas com faturamento a partir de R$ 300 milhões. A régua mínima, segundo Rafael, é um faturamento acima de R$ 150 milhões, que sustenta um fundo com patrimônio acima de R$ 10 milhões, patamar em que os custos da estrutura se pagam. Quando a empresa não tem horizonte de chegar a esse volume em seis meses, a recomendação é operar via securitizadora parceira. Outro filtro é o prazo dos recebíveis: carteiras de 30 a 60 dias permitem casar ativo e passivo, o que não ocorre com vendas de prazos muito longos.
Um caso na economia real
Para ilustrar a tese, Rafael Barbieri cita, sem identificar o cliente, um executivo do setor de telecomunicações que vendeu sua empresa e identificou uma lacuna entre os cerca de 24 mil pequenos provedores de internet do país, com boas carteiras de clientes, mas balanços que não convencem os bancos. Com parte dos recursos da venda, ele montou um FIDC de R$ 20 milhões entre 2023 e 2024. No fim do ano passado, o fundo já somava R$ 500 milhões. A Bless assumiu a gestão no meio do caminho e, nessa fase, o fundo passou a atrair grandes bancos e assets para a estrutura.
Perspectivas: mais fundos e expansão estado a estado
A Bless concentra-se em FIDCs criados do zero e raramente disputa a gestão de fundos já existentes. Por isso, a casa deve crescer mais em número de fundos do que em patrimônio. Se mantida a tendência recente, Rafael Barbieri projeta dobrar a quantidade de FIDCs até o fim de 2027 e elevar o patrimônio em cerca de 50%, podendo chegar a algo entre R$ 7 bilhões e R$ 8 bilhões sob gestão. Os novos fundos nascem com R$ 10 milhões a R$ 15 milhões e ganham escala com o tempo.
Para crescer sem inflar a equipe, a gestora aposta em processos já testados, na escala na contratação de sistemas e no controle diário de carteiras, cotas e provisões de todos os fundos, ao lado da proximidade com os empresários. Hoje, a originação passa principalmente por bancos, advogados e consultores, e um dos objetivos é fortalecer o reconhecimento direto da marca junto aos empresários.
A Bless pode estruturar fundos em qualquer região do país, mas concentra esforços no Centro-Oeste, impulsionado pelo agro, e no Sul, puxado pela indústria. A expansão será feita estado a estado, com originadores locais: Goiânia funcionará como polo de originação para todo o Centro-Oeste, o Sul terá um parceiro dedicado por estado, começando por Santa Catarina e Paraná, e Minas Gerais contará com um originador próprio de peso.
Fontes: Entrevista exclusiva de Rafael Barbieri, CEO da Bless Capital, ao FIDCNEWS; material institucional da Bless Capital; ANBIMA, com dados do Banco Central
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