BTG Pay entra em operação e mira mercado B2B de R$ 50 trilhões
BTG Pactual sai do papel de banco de investimento tradicional e entra na disputa por pagamentos, mirando um mercado que hoje passa quase integralmente por boletos, duplicatas e TEDs entre empresas.

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Contexto e cenário
O mercado de pagamentos entre empresas no Brasil ainda é dominado por instrumentos pouco digitalizados. Segundo dados citados pelo próprio BTG, o país movimenta cerca de R$ 11 trilhões por ano em boletos B2B e R$ 35 trilhões em transferências via TED e Pix entre companhias, somados a R$ 4,5 trilhões em volume tradicional de adquirência. É esse universo de R$ 50,5 trilhões que o banco passa a mirar com o BTG Pay.
A entrada do BTG em adquirência não é isolada. O banco vem construindo, desde 2019, uma frente dedicada a empresas de médio porte (receita de até R$ 300 milhões), que saiu de uma carteira de crédito de R$ 2,2 bilhões naquele ano para R$ 32,1 bilhões em 2025. A aquisição da fintech Justa, concluída em junho de 2025, foi descrita por executivos do banco como a peça que faltava para fechar o ecossistema financeiro corporativo, unindo pagamento, cobrança, conciliação e financiamento em uma única plataforma.
Para o mercado de crédito privado, esse tipo de movimento importa porque o fluxo de recebíveis B2B (duplicatas, boletos e faturas emitidas entre empresas) é justamente a matéria prima que alimenta boa parte dos FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios) hoje existentes no Brasil. Quanto mais esse fluxo migra para dentro de plataformas fechadas de bancos grandes, maior a disputa por originação de crédito entre bancos, fintechs e gestoras independentes.
O BTG Pay reúne três frentes. A primeira é uma maquininha com duas telas, permitindo que o cliente final confira o valor da compra no momento do pagamento, com aceitação de bandeiras, Pix e vale-refeição, além de integração via API com mais de 200 sistemas de gestão contábil e financeira usados por empresas.
A segunda, e mais estratégica do ponto de vista de crédito, é o cartão B2B com bandeira própria do BTG, fora das redes Visa e Mastercard. Nesse desenho de rede fechada, tanto o pagador quanto o recebedor precisam manter conta no BTG Pactual. O fornecedor recebe o valor da venda em D0 (no mesmo dia), enquanto o comprador paga depois, dentro de um limite de crédito pré-aprovado que pode variar de cerca de R$ 10 mil para pequenas empresas a valores na casa dos bilhões para grandes corporações.
A terceira frente é a tecnologia de split de pagamentos, desenhada para se adaptar às regras da reforma tributária, que passa a exigir a segregação de tributos já no momento da transação comercial.
Segundo Rogério Stallone, executivo à frente da iniciativa, o objetivo é que o empresário consiga "receber, pagar, conciliar e financiar em uma única experiência". Gabriel Motomura, outro executivo citado nas reportagens sobre o lançamento, reconheceu que a migração do mercado endereçável não será total: "Claro que esses R$ 50 trilhões não vão migrar integralmente" para a nova plataforma, mas a aposta do banco é capturar uma fatia relevante ao oferecer um produto de crédito e pagamento que hoje não existe de forma unificada no mercado.
Analistas do mercado de crédito privado avaliam que a movimentação do BTG expõe uma tendência de verticalização que já vinha sendo observada em outras frentes do banco, como asset management e securitização. Ao criar uma bandeira própria e fechada, o BTG retém dentro de casa o dado transacional e o histórico de pagamento das empresas clientes, informação que hoje é disputada por fintechs de antecipação de recebíveis e por estruturadores de FIDCs que dependem de acesso a esses fluxos para originar direitos creditórios.
Na prática, quanto mais volume de duplicatas e faturas circular dentro do ecossistema fechado do BTG Pay, menor tende a ser a oferta de recebíveis disponíveis para cessão a fundos de terceiros, o que pressiona originadores independentes a buscar outras fontes de lastro. Ao mesmo tempo, o próprio banco já opera uma robusta plataforma de estruturação de FIDCs e outros veículos de securitização, o que abre a possibilidade, ainda não confirmada publicamente, de que parte desses recebíveis do cartão B2B venha a ser securitizada internamente no futuro.
O avanço do BTG Pay depende, por ora, de um fator regulatório relevante: o modelo de rede fechada, em que comprador e vendedor precisam ter conta no mesmo banco, só pode crescer até um determinado limite de participação de mercado antes de esbarrar em regras do Banco Central sobre abertura de arranjos de pagamento. Esse teto regulatório é um dos pontos que o mercado deve monitorar nos próximos meses, assim como a reação de concorrentes estabelecidos em adquirência, caso de Stone, Cielo e Getnet, que hoje dominam boa parte do mercado de maquininhas no país.
Para o setor de FIDCs e crédito estruturado, vale acompanhar se o movimento do BTG vai se traduzir em menos recebíveis disponíveis no mercado aberto para cessão a fundos geridos por terceiros, ou se, inversamente, o banco passa a usar sua própria estrutura de securitização para transformar o fluxo do cartão B2B em um novo tipo de lastro para FIDCs. Qualquer um dos dois caminhos altera a dinâmica competitiva de originação de crédito privado no Brasil nos próximos trimestres.
Fontes: Exame
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