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Consignado lidera e fundo antigo encolhe: o que os FIDCs captaram em 2026
Recorde de registros esconde um mercado em renovação: o dinheiro novo foi para fundos novos, e o consignado puxou a fila

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Levantamento do Clube FIDC com dados públicos da CVM mostra que o crescimento do ano veio dos fundos novos, enquanto a carteira antiga devolveu mais dinheiro do que recebeu.
Por Alexi Vasconcellos, CEO do Clube FIDC
Recorde de registros não é recorde de captação
O mercado de FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios) nunca registrou tantos fundos. De janeiro a setembro de 2026, a CVM (Comissão de Valores Mobiliários) concedeu registro a 1.039 novos FIDCs, média de 115 por mês, e as ofertas de cotas registradas somaram cerca de R$ 120 bilhões. Mas registro não é dinheiro entrando.
Para medir quanto ficou de fato nos fundos, o Clube FIDC cruzou o informe mensal da CVM, que traz captações, resgates e amortizações (devoluções de capital aos cotistas) de cada FIDC, com a carteira dos fundos de investimento que compram cotas. O resultado: os FIDCs captaram cerca de R$ 252 bilhões no período e devolveram R$ 156 bilhões em resgates e amortizações. Sobraram R$ 96 bilhões líquidos.
Dois terços desse saldo, porém, vêm de duas operações de grandes bancos com veículos próprios, tratadas no levantamento como operações de balanço, que captaram sem registrar nenhuma saída. Sem elas, o mercado ficou com cerca de R$ 32 bilhões líquidos em nove meses.
Fundo novo cresce, fundo antigo encolhe
O dado que mais chama atenção é a divisão entre gerações. Sem as duas operações de balanço, os FIDCs registrados em 2026 tiveram captação líquida perto de R$ 48 bilhões. Os fundos que já existiam captaram mais, cerca de R$ 138 bilhões, mas pagaram R$ 155 bilhões em resgates e amortizações e terminaram o período no negativo, com saída líquida próxima de R$ 17 bilhões.
Na prática, o mercado está se renovando: estruturas novas, com teses novas, ocupam o espaço de carteiras que amortizam. Para quem acompanha o setor, isso significa que o perfil do estoque de FIDCs muda mais rápido do que o volume total sugere.
O ritmo, no entanto, perdeu fôlego no terceiro trimestre. A captação bruta continuou subindo, mas as saídas subiram mais, e o saldo líquido do trimestre caiu para cerca de um terço do registrado no segundo.
Consignado é a tese do ano; cartão e duplicatas perdem espaço
Somando os recortes (INSS, servidores públicos, privado CLT e consignado sem recorte definido), o consignado reúne mais de 110 FIDCs novos no ano, cerca de R$ 27 bilhões em ofertas e mais de R$ 21 bilhões de captação líquida. É o maior saldo entre as teses, isto é, entre os tipos de crédito que lastreiam os fundos, quando se excluem as operações de balanço.
O destaque é o consignado privado. Na esteira do programa Crédito do Trabalhador, a tese praticamente não existia na carteira dos fundos de investimento em janeiro e se multiplicou cerca de dez vezes no primeiro semestre. Entre os fundos que compram cotas de FIDC, o consignado respondeu por quase metade do dinheiro novo líquido do período, ainda com uma base compradora concentrada.
No sentido oposto, cartão e meios de pagamento concentrou as grandes ofertas do primeiro trimestre e perdeu espaço depois. Duplicatas e recebíveis comerciais seguem como a tese mais comum entre os fundos novos, mas o saldo do ano é negativo: grandes carteiras antigas resgataram e amortizaram mais do que a tese captou. Multissetoriais e setor público seguiram o mesmo caminho.
Veículos aparece no topo da captação, puxado por uma das operações de balanço. Sem ela, a tese continua relevante, mas longe de liderar. Precatórios mantêm ritmo constante de registros, com captação mais modesta.
Nem toda oferta chega ao mercado
Os rankings de oferta escondem quem fica com as cotas. Nas ofertas já encerradas em 2026, fundos de investimento levaram cerca de 70% do volume colocado, e perto de 20% ficou com a própria instituição financeira ligada à emissão. Em energia e infraestrutura, imobiliário e crédito pessoal, essa fatia passa da metade: a oferta aparece no registro da CVM, mas o risco segue no balanço do banco.
Na ponta compradora, quase metade do que os fundos carregam em cotas de FIDC está em FIDC da mesma casa. Boa parte da demanda por FIDC é distribuição de produto próprio, não alocação em fundos de terceiros. Para estruturadores que buscam investidores independentes, o dado indica que a base compradora efetiva é menor do que os volumes de oferta fazem parecer.
O que observar
Três sinais merecem acompanhamento nos próximos meses: se o consignado privado amplia a base de compradores, se a desaceleração do saldo líquido no terceiro trimestre se confirma no fim do ano e se as novas teses de infraestrutura passam a atrair investidores de fora do grupo estruturador.
O Clube FIDC passa a acompanhar esses números mês a mês em um novo módulo da plataforma, com captação líquida por tese, gestoras emissoras e casas compradoras.
Metodologia: dados públicos da CVM (cadastro de fundos, ofertas registradas sob a Resolução CVM 160, informe mensal de FIDC e composição de carteira dos fundos), de janeiro a setembro de 2026. Captação líquida = captações menos resgates e amortizações. Tese classificada pelo Clube FIDC a partir de regulamento, oferta e nome do fundo. Carteira dos fundos completa até junho de 2026.
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