Dívida corporativa desacelera, mas despesa financeira já come 67% do Ebit
Endividamento perde fôlego, mas o custo do dinheiro já consome dois terços do resultado operacional das companhias abertas.

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Foto: Pixabay
A dívida líquida das companhias abertas brasileiras cresceu 4% entre junho de 2025 e junho de 2026, o menor ritmo desde 2022. O freio, porém, veio tarde: depois de quatro anos de alta acumulada de 62%, a mediana da despesa financeira sobre o Ebit chegou a 67%, segundo levantamento da Strategy& Brasil, consultoria de estratégia da PwC. Para quem aloca em crédito privado, o dado muda a leitura de risco dos emissores.
O estudo analisou 256 companhias abertas. Nesse grupo, a dívida líquida saiu de R$ 1,01 trilhão em junho de 2022 para R$ 1,64 trilhão em junho de 2026. Descontada a inflação medida pelo IPCA, o avanço real foi de 37%. No mesmo período, a Selic acumulada subiu 65%, o que ajuda a explicar por que a conta financeira pesou tanto sobre os balanços.
A composição do movimento também importa. Segundo a consultoria, o aumento da dívida líquida em quatro anos veio principalmente da captação de mais dívida bruta, e não da queda na geração de caixa. A dívida bruta do grupo passou de R$ 1,59 trilhão para R$ 2,28 trilhões. A liquidez das mesmas empresas cresceu R$ 62,7 bilhões, para R$ 638,2 bilhões, e amorteceu parte da alta do endividamento líquido.
O fenômeno não se concentra em poucos nomes. Mesmo sem as cinco empresas que mais contribuíram para o crescimento da dívida, o endividamento subiu 49% entre 2022 e 2026. Sem as dez maiores contribuições, a alta ainda foi de 38%.
No último ano, a parcela de companhias que ampliaram a dívida líquida caiu: foram 56% das 256 empresas, contra 66% no intervalo anterior. É um sinal de que parte do mercado passou a priorizar a desalavancagem.
O problema está do outro lado do balanço. O Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) agregado das companhias analisadas caiu 8% entre 2022 e 2026, e o fluxo de caixa operacional (FCO) cresceu apenas 13%. Na análise individual, a dívida cresceu mais que o Ebitda em 56% das empresas e mais que o FCO em 53% delas. A consultoria observa que as amostras de cada comparação são diferentes, já que a análise exige valores iniciais positivos para a dívida e para cada indicador operacional.
Em um painel de 192 companhias com Ebit (lucro antes de juros e tributos) e despesa financeira positivos nos dois períodos, a mediana da relação entre despesa financeira e Ebit passou de 50% em 2022 para 67% em 2026. A proporção aumentou em 57% das empresas.
A distribuição também piorou. Em 2022, metade das 192 companhias tinha despesa financeira acima de 50% do Ebit; em 2026, essa fatia chegou a 63,5%. As empresas com despesa financeira acima de 75% do Ebit passaram de 32% para 44% do painel. E em 29% delas a despesa financeira superou o próprio Ebit neste ano, ante 24% (46 companhias) quatro anos antes.
O próprio estudo faz uma ressalva importante: despesa financeira acima do Ebit não significa insolvência. O indicador considera a despesa financeira total, e não apenas juros. Também não desconta receitas financeiras e não corresponde necessariamente a desembolsos de caixa no período. Variações cambiais, marcação de derivativos e encargos contábeis podem inflar a linha sem que haja saída efetiva de recursos.
Ainda assim, a leitura para o mercado de crédito é clara. Quando dois terços do resultado operacional mediano ficam comprometidos com a conta financeira, a margem para absorver choques diminui. Uma queda de receita, um atraso de clientes ou uma rolagem mais cara passam a ter efeito direto sobre a capacidade de pagamento.
Para o investidor de FIDC (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios), esse cenário afeta os dois lados da operação. Do lado do cedente, empresas com geração de caixa pressionada tendem a buscar a antecipação de recebíveis como fonte de liquidez, o que amplia a oferta de lastro, mas exige mais atenção à qualidade do originador e à concentração da carteira. Do lado do sacado, companhias com cobertura de juros apertada elevam o risco de atraso nos direitos creditórios cedidos, o que se reflete em PDD (provisão para devedores duvidosos) e no consumo da cota subordinada.
A desaceleração da dívida é o primeiro sinal de ajuste, mas a normalização depende da recuperação do Ebitda e do custo de captação. Enquanto a despesa financeira seguir crescendo mais rápido que o resultado operacional, a desalavancagem será lenta e seletiva.
Para gestores e investidores de crédito estruturado, os pontos de atenção são a evolução do índice de cobertura de juros dos principais sacados e cedentes, a relação entre dívida líquida e Ebitda nos próximos balanços trimestrais, o nível de subordinação exigido nas novas emissões e a diligência sobre a qualidade dos recebíveis de empresas que passarem a recorrer com mais frequência à cessão de crédito. Em um mercado com mais companhias perto do limite, a análise do lastro volta a ser o principal diferencial de retorno ajustado ao risco.
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