Mantiqueira, que tem a JBS como sócia, emite R$ 500 milhões em CPR-F a 94% do CDI
Agronegócio no mercado de capitais.

As notícias de FIDCs e crédito estruturado, direto no seu e-mail.
A maior produtora de ovos do país vai ao mercado de capitais semanas depois de anunciar um plano de R$ 565 milhões para ampliar sua capacidade. A operação reforça o papel da Cédula de Produto Rural como instrumento de funding de longo prazo para o agronegócio e como fonte de ativos para o crédito privado.
A CPR (Cédula de Produto Rural) é um título de crédito que o produtor rural ou a agroindústria emite para captar recursos, com o compromisso de entregar o produto ou liquidar o valor em dinheiro no vencimento. Na versão com liquidação financeira, a CPR-F, não há entrega física da mercadoria: o credor recebe o pagamento em reais, com remuneração pactuada na emissão.
Essa característica aproxima o instrumento de uma debênture, mas com a vantagem de estar vinculado à atividade rural. Nos últimos anos, as CPRs deixaram de ser um papel restrito a operações bancárias bilaterais e passaram a circular com mais força no mercado de capitais. Elas servem de lastro para CRAs (Certificados de Recebíveis do Agronegócio) e compõem a carteira de FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios) com foco no agro, o que amplia a base de investidores com acesso a esse tipo de risco.
É nesse ambiente que a Mantiqueira Alimentos decidiu buscar recursos para sustentar sua expansão.
A Mantiqueira emitiu na sexta-feira (25 de setembro) CPR-Fs no valor de R$ 500 milhões. Os títulos vencem em outubro de 2033, e a amortização do principal ocorre em quatro parcelas a partir de 2030. A remuneração foi fixada em 94% do CDI ao ano, e o Bradesco BBI atua na operação com garantia firme de colocação, ou seja, o banco se compromete a adquirir os papéis que eventualmente não forem absorvidos pelos investidores.
A captação chega três semanas depois de a companhia anunciar um plano de investimentos de R$ 565 milhões no Brasil. O objetivo é elevar a capacidade anual de produção de 4 bilhões para 6 bilhões de ovos até 2028, um aumento de 50%. O projeto inclui uma nova unidade em Minas Gerais e a ampliação das operações em outros quatro estados. Na prática, o volume da emissão equivale a quase 90% do plano anunciado.
A JBS entrou no negócio de ovos em 2025, ao adquirir 48,5% do capital da Mantiqueira e metade das ações com direito a voto, por cerca de R$ 920 milhões. Desde então, a empresa tem combinado a expansão da produção doméstica com o crescimento nos Estados Unidos e com o foco em produtos de maior valor agregado, como ovos livres de gaiola, jumbo e caipira. Essa linha já representa 32% das vendas da companhia no Brasil.
O dado que mais chama a atenção na operação é a remuneração. Uma taxa de 94% do CDI, abaixo do próprio CDI, indica que o mercado enxerga o risco de crédito da Mantiqueira com conforto. Em emissões corporativas, taxas inferiores a 100% do CDI costumam ficar restritas a companhias de perfil de crédito elevado, e a presença de um sócio do porte da JBS pesa nessa percepção.
Há ainda o componente tributário. Títulos do agronegócio que servem de lastro para CRAs e outros veículos incentivados ganham atratividade para investidores pessoa física, o que permite ao emissor captar a um custo menor. Para o gestor de crédito privado, isso significa um prêmio mais comprimido: o papel oferece previsibilidade e emissor sólido, mas com retorno que exige atenção à comparação com outras alternativas indexadas ao CDI.
A estrutura de prazo também merece leitura. Com carência de principal até 2030, a companhia ganha fôlego para concluir as obras e colocar a nova capacidade em operação antes de começar a amortizar a dívida. O fluxo de pagamento, portanto, está desenhado para coincidir com a maturação dos investimentos, uma lógica típica de financiamento de projetos.
A garantia firme do Bradesco BBI reduz o risco de execução da oferta e sinaliza confiança do coordenador na demanda pelo papel.
A operação da Mantiqueira se soma a um movimento mais amplo de agroindústrias que recorrem ao mercado de capitais para financiar expansão, em vez de depender exclusivamente do crédito rural tradicional. Para o mercado de FIDC e securitização, isso amplia a oferta de ativos lastreados no agro com emissores de maior porte, algo relevante para carteiras que buscam diversificação setorial.
Nos próximos meses, os pontos de atenção são a execução do plano de expansão até 2028, a evolução da participação dos produtos de maior valor agregado nas vendas e o desempenho da operação nos Estados Unidos. Do lado do mercado, vale acompanhar se a taxa obtida pela Mantiqueira se torna referência para outras emissões de agroindústrias com sócios estratégicos relevantes, e como a comparação com o CDI se comporta caso o ciclo de juros mude ao longo da vida do papel.
Newsletter FIDC News
Não perca a próxima edição
As movimentações do mercado de FIDCs, securitização e recebíveis, com a análise do FIDC News, no seu e-mail.
Gratuita. Você cancela quando quiser. Veja a Política de Privacidade.

O .fidcnews é um veículo digital focado em notícias e análises sobre Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC), com o propósito de tornar acessíveis os dados e tendências do mercado de crédito estruturado. Nossas matérias devem ser entendidas como boletins informativos e divulgadores de insights setoriais, não configurando recomendação de investimento.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro a comentar.
Deixe um comentário
Seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *








