Itaú compra até 49,9% da holding da Vivix sem levar o controle da fabricante
Estrutura societária preservada, capital novo no caixa: o modelo que combina participação econômica relevante com controle familiar intacto.

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O banco entra no capital da fabricante de vidros planos da família Brennand apenas com ações preferenciais. O desenho da operação ajuda a entender uma tendência do mercado de capitais brasileiro: soluções estruturadas que ficam entre a dívida tradicional e a venda do controle.
O Grupo Cornélio Brennand é um dos conglomerados mais tradicionais de Pernambuco. Sua origem remonta a 1917, com a Cerâmica São João, e ao longo de mais de um século a família diversificou os negócios para cerâmica, cimento, açúcar, álcool, energia e desenvolvimento imobiliário. Hoje o grupo concentra suas operações em três frentes: a Vivix, a Atiaia Renováveis, voltada à geração de energia, e a Iron House, do segmento imobiliário.
A Vivix fabrica chapas de vidro plano usadas em janelas, fachadas, espelhos, móveis e divisórias, com atendimento aos setores de construção civil, decoração e moveleiro. A estrutura industrial inclui uma fábrica em Goiana (PE) e uma unidade de beneficiamento de matérias-primas em Pedras de Fogo (PB). É uma cadeia de capital intensivo, em que a expansão da capacidade e a manutenção dos ativos exigem aportes elevados e horizontes longos de retorno.
Os números mostram que a empresa chega à transação em trajetória de crescimento. A fabricante registrou lucro líquido de R$ 138,4 milhões em 2025, contra R$ 112,3 milhões em 2024. São R$ 26,1 milhões a mais em um ano, alta de aproximadamente 23,2%.
Pelo acordo, o Itaú Unibanco poderá deter até 49,9% da Investvivix, a holding que controla a Vivix. O valor da operação não foi divulgado, e a conclusão ainda depende de aprovação do Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica).
O ponto central está na composição das ações. A Ical Vidros, empresa do Grupo Cornélio Brennand, manterá a totalidade das ações ordinárias da Investvivix, que dão direito a voto, e 50,1% do capital total. O banco receberá apenas ações preferenciais. Na prática, o Itaú terá uma participação econômica relevante, com direito ao resultado gerado pela companhia, mas sem controle operacional. A gestão e as decisões estratégicas continuam nas mãos da família.
É uma separação clara entre direitos econômicos e direitos políticos. O investidor financeiro participa do fluxo de caixa e da valorização do ativo, enquanto o controlador preserva a governança e o comando do negócio.
Para o leitor acostumado ao universo do crédito privado, o desenho da operação tem pontos de contato com a lógica dos instrumentos estruturados. Em um FIDC (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios), por exemplo, a separação entre cotas sênior e subordinada distribui riscos e retornos de forma diferente entre os investidores, sem que isso altere quem origina e administra os recebíveis. Guardadas as diferenças entre equity e crédito, a Vivix segue a mesma lógica: cada parte fica com o papel que lhe cabe, e o capital entra sem que o controle mude de mãos.
Para empresas familiares de grande porte, esse formato funciona como uma alternativa intermediária. De um lado, evita o aumento da alavancagem que viria com uma nova emissão de dívida. De outro, dispensa a venda do controle ou uma abertura de capital em bolsa, que exige outro nível de exposição e custos regulatórios. Para o banco, a entrada via preferenciais em uma companhia lucrativa e em expansão representa exposição ao desempenho de uma indústria consolidada, com a gestão mantida pelo grupo que construiu o negócio.
O movimento também chama atenção pelo perfil do investidor. Quando um dos maiores bancos do país aloca capital próprio em participação minoritária relevante de uma indústria regional, a leitura de mercado tende a ser de confiança na qualidade do ativo e na capacidade de geração de caixa da companhia. O crescimento de cerca de 23% no lucro entre 2024 e 2025 dá sustentação a essa leitura.
O primeiro passo é a análise do Cade, condição para a conclusão do negócio. Depois disso, o mercado deve acompanhar como será usado o capital que entrar na holding e se haverá sinalização de novos investimentos na estrutura industrial da Vivix em Pernambuco e na Paraíba. Outro ponto de atenção é a expressão "até 49,9%". Ela indica que a participação do banco pode ser construída em etapas, o que mantém em aberto o tamanho final da posição do Itaú.
Para gestores e investidores de crédito privado, o caso é um bom termômetro de como grupos empresariais tradicionais estão buscando financiamento em 2026. Estruturas que preservam o controle e trazem capital de longo prazo tendem a disputar espaço com a dívida bancária convencional e com emissões no mercado de capitais. Acompanhar essas operações ajuda a mapear quais empresas do middle market industrial estão se capitalizando, com que perfil de sócio e em que momento do ciclo de crescimento.
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