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Duplicata escritural pode levar mercado de recebíveis de R$ 3 tri a R$ 13 tri
Sistema lançado pelo Banco Central promete destravar trilhões em ativos que hoje ficam fora do radar do crédito.

O mercado brasileiro de recebíveis, hoje avaliado em cerca de R$ 3 trilhões, pode multiplicar seu tamanho com a entrada em operação da duplicata escritural, sistema lançado pelo Banco Central em junho deste ano. A projeção é de Anderson Guerra, diretor da Partner One7, empresa que monta redes de parceiros regionais para originar crédito lastreado em recebíveis fora dos grandes centros.
Contexto e cenário
Recebíveis são valores que uma empresa tem a receber de clientes, como duplicatas emitidas na venda de produtos ou serviços a prazo. Historicamente, boa parte desses ativos circula fora do sistema financeiro formal: empresas emitem a duplicata, mas não a registram nem a utilizam como garantia de crédito, o que deixa um volume relevante de lastro efetivo sem giro no mercado de capitais.
A duplicata escritural muda essa lógica. Trata-se de um sistema de registro eletrônico que atribui a cada duplicata um código único e rastreável desde a emissão, eliminando a possibilidade de o mesmo recebível ser negociado duas vezes junto a credores diferentes, prática que hoje é uma das principais fontes de fraude em operações de crédito privado. O próprio Banco Central estima o mercado potencial da duplicata escritural em até R$ 10 trilhões.
Nesse ambiente regulatório novo, empresas de originação e securitização passam a enxergar um estoque de ativos muito maior do que o hoje efetivamente utilizado como lastro. Para gestores de fundos de crédito, o dado importa porque amplia a base de ativos elegíveis para cessão e estruturação, potencialmente inclusive para carteiras de Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC, veículo que compra recebíveis de empresas e os transforma em cotas negociadas por investidores institucionais e qualificados).
O que muda com a duplicata escritural
Segundo Guerra, o salto de R$ 3 trilhões para R$ 13 trilhões ocorre porque, a partir de agora, "tudo aquilo já nasce como um ativo passível de giro no mercado". Na prática, cada nova duplicata emitida já entra no sistema com registro formal, pronta para ser cedida, descontada ou utilizada como garantia, sem depender de processos manuais de checagem que hoje encarecem e atrasam a análise de crédito.
A Partner One7 já opera dentro dessa lógica com uma rede de mais de 50 parceiros regionais, presentes em 11 estados, do interior do Paraná a pequenas cidades do Nordeste. O modelo nasceu pequeno: a ideia original era recrutar 7 parceiros, número que chegou a 22 ao fim do primeiro ano de operação. "A gente trouxe um combo, capital, tecnologia e governança", resume Guerra sobre a proposta da rede.
O racional por trás da expansão é a dificuldade do sistema bancário tradicional em atender tomadores pequenos e distantes dos grandes centros. "É difícil, é caro, falta capilaridade para isso", afirma Guerra. Um dos exemplos citados é uma operação de crédito para seringueiros em São José do Rio Preto, fechada com contrato assinado pelo celular, cumprindo exigências de PIX, assinatura digital e validação de nota fiscal em tempo real. No Paraná, um parceiro da rede voltado à pecuária de corte multiplicou por quatro o tamanho da carteira em um ano e meio.
Análise
Para Guerra, o crescimento do crédito via mercado de capitais já ocorre em ritmo mais acelerado que o do sistema bancário tradicional, ainda que em volume total esse crédito permaneça bem menor. Na avaliação dele, os dois canais não competem entre si. "Eu acho que são complementares", pondera, referindo-se à relação entre bancos e estruturas alternativas de financiamento baseadas em recebíveis.
A leitura de mercado é que a rastreabilidade da duplicata escritural tende a reduzir um dos riscos mais sensíveis para quem estrutura ou investe em operações lastreadas em recebíveis: a fraude por dupla negociação do mesmo ativo. Menos fraude significa, em tese, menor perda esperada e maior previsibilidade de fluxo de caixa para as estruturas que compram esses direitos creditórios, um fator que pesa diretamente na precificação de risco de cotas seniores e subordinadas de veículos de securitização.
Perspectivas
Guerra descreve o momento como o início de um ciclo de expansão ainda difícil de dimensionar. "É um crescimento exponencial que a gente não tem nem noção do que vai representar", projeta. Para os próximos anos, a expectativa dele é de continuidade do movimento: "A gente tem uma perspectiva gigante de crescimento" para 2027 e 2028.
Para o mercado de crédito privado, o ponto de atenção nos próximos meses é a velocidade com que empresas de todos os portes passam a migrar suas duplicatas para o novo sistema de registro, e como originadores e securitizadoras se organizam para captar esse volume adicional de ativos. Quanto mais rápida a adesão, maior a base potencial de lastro para operações estruturadas, incluindo fundos que hoje já buscam diversificar suas carteiras para além dos recebíveis tradicionais de grandes centros urbanos.
Fontes: Capital Aberto, "Mercado de recebíveis pode saltar de R$ 3 tri para R$ 13 tri" (02/09/2026) Categoria sugerida: Mercado Tags sugeridas: FIDC, recebíveis, duplicata escritural, crédito privado, Banco Central, securitização
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