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Durigan nega preconceito fiscal do mercado, mas crédito privado já precifica o risco
Enquanto o governo rebate a leitura do mercado sobre as contas públicas, o crédito privado segue exigindo prêmios cada vez maiores para financiar o risco Brasil.

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O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou em entrevista ao Neofeed que o governo Lula sofre "preconceito fiscal" por parte do mercado financeiro. Para gestores de FIDCs e fundos de crédito estruturado, porém, o que está em jogo não é percepção: é precificação. Com a dívida bruta projetada em 82% do PIB para 2026 e o déficit nominal acumulado em 9,41% do PIB, o custo de capital para operações estruturadas segue em trajetória de alta, com efeito direto sobre cotas seniores, taxas de cessão e apetite por risco de crédito.
Contexto: o que Durigan disse
Em entrevista publicada pelo Neofeed nesta segunda quinzena de setembro, Durigan defendeu o histórico fiscal da atual gestão e classificou como injusta parte da leitura de mercado sobre as contas públicas. Segundo ele, "não existe hipótese de a gente não ter responsabilidade fiscal", e o governo teria revertido um rombo herdado de R$ 189 bilhões para uma posição superavitária nas contas primárias em determinados períodos do mandato.
O ministro citou ainda a ampliação das operações de crédito com aval da União, que passaram de R$ 94 bilhões na gestão anterior para R$ 280 bilhões na atual, e defendeu revisões futuras de benefícios tributários, na casa de 5%, como continuidade de um movimento já iniciado com um corte de 10% em incentivos fiscais. Para Durigan, a instabilidade institucional, incluindo decisões recentes do STF, tem efeito mais deletério sobre a economia do que a política fiscal em si.
O pano de fundo da entrevista é a disputa em torno do selo de investment grade. Durigan afirmou não haver alternativa que não seja a recuperação da nota soberana junto às agências de risco, um objetivo que depende diretamente da trajetória da dívida pública e da credibilidade do arcabouço fiscal aprovado em 2023.
O que mudou: a dívida pública pressiona o crédito privado
Enquanto o discurso oficial mira reverter a narrativa de descontrole fiscal, os números do mercado de crédito privado contam uma história de ajuste silencioso. Segundo projeção da Instituição Fiscal Independente (IFI), a dívida bruta do governo geral deve fechar 2026 em torno de 82% do PIB, ante 80,07% registrados no primeiro semestre. A dívida líquida também avançou, de 65,17% para 66,83% do PIB, enquanto os juros nominais consumiram 8,35% do PIB, o equivalente a R$ 1,08 trilhão em doze meses.
Esse cenário já se refletiu na estrutura de spreads de CRIs, CRAs e debêntures, que voltaram a abrir de forma seletiva ao longo de 2026, segundo casas como Safra e XP Investimentos. A abertura não é uniforme: setores mais sensíveis a risco regulatório e de caixa, como saneamento, saúde e distribuição de energia, concentraram os maiores prêmios exigidos por investidores, com o spread mediano do setor de saneamento chegando a se abrir 66 pontos-base em um único mês, impulsionado por eventos de crédito pontuais no setor.
Para as estruturas de FIDC, o efeito prático aparece na precificação das cotas subordinadas e na exigência de reforço de garantias e de PDD (provisão para devedores duvidosos) em cessões de recebíveis mais expostas a ciclos de crédito ao consumo e a pequenas e médias empresas, justamente os segmentos em que a inadimplência do Sistema Financeiro Nacional mais avançou, de 4,05% em novembro de 2025 para 4,44% em fevereiro de 2026.
Análise: o mercado não vê preconceito, vê dados
Analistas de crédito estruturado ouvidos pelo mercado nas últimas semanas convergem em um ponto: o prêmio de risco cobrado hoje sobre ativos brasileiros, sejam títulos públicos ou operações estruturadas, tem lastro em métricas concretas de trajetória de endividamento e de custo da dívida, não em um viés ideológico contra o governo. A leitura predominante entre gestores é que a compressão generalizada de spreads observada em ciclos anteriores deu lugar a uma seletividade mais fina, na qual cada emissor e cada lastro são avaliados individualmente, com prêmio adicional para setores mais expostos a choques regulatórios ou de caixa.
Essa dinâmica é relevante para o originador e para o gestor de FIDC porque desloca o centro da negociação: já não basta oferecer um yield atrativo em cotas seniores, é preciso demonstrar robustez de garantias, histórico de performance da carteira cedida e capacidade de absorção de perdas nas cotas subordinadas. Na prática, o mercado está fazendo o que Durigan chama de "preconceito": precificando risco fiscal por meio de instrumentos técnicos, como spread de crédito e exigência de rating, e não por meio de discurso político.
Perspectivas: o que monitorar daqui para frente
O desfecho da disputa em torno do investment grade segue como o principal catalisador para o custo de capital no mercado de crédito privado brasileiro. Uma sinalização mais clara de estabilização da trajetória da dívida bruta, hoje colaria com esse limiar de 82% do PIB, tende a favorecer nova compressão de spreads e, por consequência, redução do custo de estruturação de FIDCs e de outros veículos de securitização.
No curto prazo, gestores devem seguir monitorando três frentes: o comportamento da inadimplência em carteiras de varejo e PMEs, a evolução das discussões sobre revisão de benefícios tributários no Congresso, e o desenrolar de eventuais decisões do STF com potencial de gerar novos gastos obrigatórios fora do arcabouço fiscal. Qualquer sinal de deterioração adicional nessas frentes tende a reforçar, e não reduzir, a seletividade que hoje caracteriza o mercado de crédito privado brasileiro, independentemente de como o governo classifique a leitura do mercado.
Fontes: Neofeed
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