FIDC Versatile, ligado à Apex, chega a 60% de inadimplência e entra em liquidação
O Fundo de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC) Versatile, fundo de crédito consignado privado gerido pela Contea (adquirida pela Apex Partners em maio), entrou em liquidação depois de uma forte deterioração de sua carteira.

As provisões para perdas e atrasos já equivalem a 60% do patrimônio do fundo, segundo dados da Uqbar, e o colchão que protegia os investidores de menor risco contra calotes foi totalmente consumido. As aplicações no fundo somam R$ 100 milhões.
Origem do fundo e a chegada da Apex
Criado em 2021 para investir em crédito consignado privado, o Versatile crescia junto com a deterioração de sua carteira. O patrimônio líquido saiu de cerca de R$ 16,4 milhões em março de 2022 para R$ 123,4 milhões em setembro de 2023 e chegou a R$ 190,8 milhões em outubro de 2024.
O crescimento acelerado, no entanto, veio acompanhado do aumento da inadimplência. Em setembro de 2023, os créditos vencidos somavam R$ 4,3 milhões e a Provisão para Devedores Dudosos (PDD), o valor que o fundo reserva para cobrir prováveis perdas com calotes, já alcançava R$ 10,2 milhões (8,3% do patrimônio líquido). Em relatório de março deste ano, a Liberum Ratings apontou aumento constante e acelerado da PDD, que levou à desvalorização das cotas: os créditos vencidos chegaram a R$ 113,5 milhões e a PDD, a R$ 159,3 milhões.
Na estrutura do Versatile, as cotas subordinadas e mezanino (que absorvem as primeiras perdas da carteira e funcionam como proteção para as cotas seniores) foram praticamente zeradas. Ambas têm hoje valor residual de R$ 0,01, sinal de que a blindagem que protegia os cotistas de maior senioridade se esgotou.
O fato central: liquidação e apuração interna
Com o colchão de proteção consumido, o Versatile entrou em liquidação. A Apex Partners conduz, paralelamente, uma diligência para apurar inconsistências financeiras identificadas após o afastamento do presidente da companhia. Segundo a gestora, foi ela própria que abriu a apuração interna, identificou os problemas e afastou o executivo do cargo.
Em nota, a Apex informou que todos os impactos das inconsistências serão submetidos a uma auditoria, hoje em fase final de contratação, com o objetivo de aprofundar a apuração dos fatos e dar segurança à condução dos compromissos da companhia com clientes, investidores e parceiros. "Operações pontuais, por segurança e pelo cuidado que o caso requer, não serão comentadas até que todos os fatos sejam esclarecidos", diz a gestora.
Quase a totalidade dos créditos do fundo (R$ 215 milhões) foi originada pela ViPe, antiga FFA Sociedade de Crédito ao Microempreendedor e à Empresa de Pequeno Porte. A estrutura de cessão era baseada em Cédulas de Crédito Bancário (CCBs) originadas pela instituição e depois adquiridas pelo FIDC. O Banco Central cita a ViPe em processo administrativo sancionador por suposta realização de operações vedadas ou não autorizadas, além de possível descumprimento de normas do Sistema Financeiro Nacional sobre limites operacionais. A citação foi publicada por edital em 6 de julho, após a empresa ser considerada em local ignorado, e a ViPe tem 30 dias para apresentar defesa.
Análise: o que explica a virada do fundo
Fontes de mercado apontam que, em condições normais, um fundo de crédito consignado costuma acender um alerta muito antes de chegar a um patamar de inadimplência como o do Versatile: quando o porcentual de calotes ainda é bem menor, já se aciona a execução de garantias reais para diluir esse valor e revisar a estratégia e a composição da carteira.
No caso do Versatile, o mecanismo de proteção mais relevante da carteira (o desconto automático em folha de pagamento) perdeu eficácia à medida que aumentaram as demissões entre os devedores. No primeiro trimestre de 2026, 50% dos devedores da carteira já haviam sido demitidos, segundo a Liberum Ratings. Em setembro de 2023, o maior grupo devedor respondia por 18,6% do patrimônio líquido do fundo, enquanto os 20 maiores tomadores somavam apenas 1,1%, o que indica baixa concentração individual, mas alta exposição ao risco de desemprego em massa.
O regulamento do fundo prevê que ao menos 85% das operações contem com seguro prestamista, cobertura que pode alcançar até seis parcelas em determinadas situações, e que o trabalhador demitido pode usar parte da verba rescisória para amortizar a dívida. Ainda assim, o desempenho da carteira passou a depender fortemente da capacidade de pagamento dos tomadores já sem vínculo empregatício, do repasse dos descontos pelas empresas conveniadas e das condições econômicas gerais, fatores que, combinados, aceleraram a deterioração.
Perspectivas: exposição cruzada e o que monitorar
A crise do Versatile não fica restrita a ele. Outros cinco fundos da própria Contea tinham posições relevantes no fundo: na última carteira divulgada de cada um, as cotas do Versatile representavam 45% do patrimônio do fundo Etna, 22,74% do Firenze, 19,47% do Genova D45, 16,78% do Potenza e 1,44% do Verona, segundo dados da Economatica. Juntos, esses cinco fundos somam R$ 100 milhões de exposição ao Versatile. Há ainda outros 12 fundos no mercado com posições no Versatile, mas com porcentuais de até 3%, exposição bem menor do que a observada nos fundos da própria gestora.
Para gestores e investidores institucionais que acompanham o segmento de crédito consignado privado, o caso Versatile reforça a importância de monitorar de perto três frentes: o resultado da auditoria contratada pela Apex sobre as inconsistências financeiras identificadas, o desfecho do processo administrativo sancionador aberto pelo Banco Central contra a ViPe e o eventual efeito de contágio sobre os outros cinco fundos da Contea que mantêm exposição direta ao Versatile. O desenrolar desses três pontos deve definir o tamanho final da perda para os cotistas e a extensão do impacto sobre o restante da estrutura de fundos ligada à Apex Partners.
Fontes: reportagem "FIDC ligado à Apex chega a 60% de inadimplência e entra em liquidação", publicada pelo E-Investidor/Estadão em 12/08/2026 (autoria de Marília Almeida), com dados de Uqbar, Liberum Ratings e Economatica citados na matéria original.
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