Globo cancela debate a três dias do 1º turno e eleva a incerteza no mercado de crédito
TV Globo cancela debate presidencial; os efeitos chegam ao crédito privado.

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A emissora cancelou o último
grande debate antes da votação depois de decisões judiciais de última hora
sobre as regras do encontro. O episódio tira dos investidores uma das últimas
chances de comparar os candidatos de perto e chega num momento em que o mercado
já negocia com cautela por causa da eleição.
Contexto: eleição apertada e mercado à espera
O primeiro turno da eleição
presidencial acontece no domingo (4), e a disputa segue apertada. Na pesquisa
Real Time Big Data repercutida pelo mercado na quarta-feira (1º), Lula (PT)
aparecia com 43% das intenções de voto no primeiro turno, contra 39% de Flávio
Bolsonaro (PL). Na simulação de segundo turno, os dois estavam tecnicamente
empatados, com 46% para Flávio e 45% para Lula.
A bolsa reflete essa indefinição. Na manhã de quarta, o Ibovespa oscilava perto da estabilidade, em torno de 186 mil pontos, e o dólar operava próximo de R$ 5,19. "O cenário de eleição se aproximando traz volatilidade imensa", afirmou Gabriel Macarini, da Blue3 Investimentos.
No lado dos juros, o Copom
reduziu a Selic para 13,75% ao ano em setembro, por unanimidade. No comunicado,
o comitê disse que acompanha "os efeitos da política fiscal doméstica
sobre a política monetária e os ativos financeiros". Esse ponto pesa
justamente agora, quando o mercado tenta antecipar a política econômica do
próximo governo.
O fato central: três decisões judiciais em poucos dias
O debate da TV Globo estava
marcado para a noite de quinta-feira (1º). A emissora decidiu cancelá-lo depois
de uma série de decisões judiciais que mudaram regras já combinadas:
- 29 de setembro: o presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), ministro Kassio Nunes Marques, mudou o critério de contagem da representação parlamentar dos partidos, o que garantiu a presença de Romeu Zema (Novo).
No dia do debate: a ministra Estela Aranha, do TSE, atendeu a um pedido da coligação do PT. Ela proibiu a exibição de um púlpito vazio com o nome de Lula, que não iria ao debate, e vetou perguntas dirigidas ao candidato ausente.
Também no dia do debate: o ministro Gilmar Mendes, do STF (Supremo Tribunal Federal), atendeu a um pedido do Solidariedade e mandou incluir Renan Santos (Missão), embora o partido tenha só um representante no Congresso.
Em nota, a Globo disse que
"as sucessivas decisões judiciais tomadas momentos antes da realização do
debate causam insegurança jurídica" e falou em interferência indevida na
liberdade de imprensa. Os convidados originais eram Augusto Cury (Avante),
Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD) e Lula (PT). Segundo o noticiário
do dia, Lula havia trocado o debate por uma entrevista em podcast.
Análise: por que isso importa
para quem investe em crédito
A princípio, cancelar um debate é
um assunto político. Para o mercado de crédito privado, porém, o episódio tem
dois efeitos práticos.
1. Menos informação. O debate era uma das últimas vitrines antes da votação para comparar as propostas econômicas e o tom de cada candidato sobre o fiscal. Sem ele, os investidores chegam ao domingo com menos dados para precificar o risco. Na prática, isso tende a manter mais alto o prêmio cobrado nos juros futuros (DI) e no câmbio.
2. O peso das pesquisas. O
mercado já mostra que reage a cada ponto percentual. "Flávio abriu um
ponto porcentual. O mercado acaba ficando mais otimista com isso",
observou Ian Lopes, da Valor Investimentos. Sem o debate, cada nova pesquisa
até domingo deve mexer ainda mais com os preços.
Para os FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios), o reflexo aparece em três frentes:
Captação: em semanas de incerteza, investidores qualificados e institucionais costumam adiar aportes. Isso afeta principalmente as ofertas de cotas sênior que estão em andamento.- Spread: a volatilidade do DI pressiona o prêmio pedido sobre o CDI (taxa de referência do mercado) nas novas emissões, sobretudo nos fundos com prazos mais longos.
Originação: empresas que vendem seus recebíveis aos fundos, a chamada cessão de crédito, tendem a segurar decisões de investimento até o cenário ficar mais claro. Isso reduz o volume de crédito disponível para os fundos comprarem.
O episódio também tem um lado
institucional. A própria Globo descreveu decisões judiciais de última hora, que
mudaram regras já combinadas, como "insegurança jurídica". Esse mesmo
conceito entra na análise de risco de qualquer estrutura de crédito, já que
contratos e garantias dependem de regras estáveis. Sozinho, o caso não muda
nenhum fundamento. Mas ele alimenta uma percepção que os investidores
estrangeiros observam de perto.
Perspectivas: o que acompanhar
até domingo e depois
Até a votação, os pontos a
monitorar são:
- - as últimas pesquisas, incluindo o Datafolha;
- - a curva de juros futuros (DI);
- - o comportamento do dólar, que já vinha pressionado pela alta dos juros nos Estados Unidos e pelo petróleo acima de US$ 100.
Um resultado que defina o cenário
já no primeiro turno tende a reduzir o prêmio de risco mais depressa. Já um
segundo turno disputado prolonga a volatilidade por mais quatro semanas.
Para gestores de FIDC, o período pede prudência na alocação, atenção à liquidez das carteiras e uma comunicação ativa com os cotistas. Passada a eleição, a retomada das emissões vai depender menos de quem vencer e mais da clareza com que o novo governo apresentar seu plano fiscal. Esse plano é o que vai orientar os próximos passos do Banco Central.
Fontes: CNN Brasil
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