Safra 2026/27 pode aliviar caixa do produtor e reduzir risco de crédito no agro
Depois de dois anos de aperto no crédito rural, indícios de virada na safra 2026/27 reacendem o apetite do mercado de capitais pelo risco agro.

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Analistas do setor identificam os primeiros sinais de virada no ciclo agrícola brasileiro depois de dois anos de margens apertadas, juros elevados e inadimplência recorde no campo. Para o mercado de FIDC (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios), CRA (Certificado de Recebíveis do Agronegócio) e Fiagro, a recuperação da capacidade de pagamento do produtor rural é a variável que mais pesa na reprecificação do risco agro para a safra 2026/27.
Contexto: dois anos de aperto no campo
O produtor rural brasileiro enfrenta desde 2024 uma combinação difícil de digerir: custo de crédito em alta, endividamento acumulado e margens corroídas por preços de commodities mais baixos. A taxa de juros das linhas de custeio empresarial subiu de um patamar próximo de 3% para algo perto de 15% em termos reais, segundo dados citados por Alexandra Mendonça de Barros, sócia da consultoria EY, em reportagem da CNN Brasil. O resultado apareceu direto na demanda por insumos: as vendas de fertilizantes recuaram entre 20% e 25%, reflexo do menor poder de compra e da necessidade de cortar custos operacionais.
O aperto também apareceu nos indicadores de crédito. Segundo dados da Traive, a inadimplência no crédito rural saltou de 2,7% em 2024 para 6,5% em dezembro de 2025 e chegou a 7,3% em janeiro de 2026, o pior nível da série recente para operações com atraso superior a 90 dias. O efeito em cascata chegou ao mercado de capitais: as emissões de CRA caíram 77% na comparação entre a média mensal do segundo semestre de 2025 (R$ 5,3 bilhões) e a média do primeiro semestre de 2026 (R$ 1,2 bilhão), de acordo com levantamento publicado pela ADVFN. Parte da retração é atribuída a decisões judiciais em estados agrícolas que passaram a reconhecer bens dados em alienação fiduciária como essenciais à atividade produtiva, o que os mantém protegidos em processos de recuperação judicial e reduz a atratividade da garantia para o investidor.
O que mudou: sinais de virada na safra 2026/27
O cenário começou a se mover em duas frentes. Do lado do crédito oficial, o Plano Safra 2026/27 trouxe redução de juros em praticamente todas as linhas, com o custeio empresarial caindo do patamar de 14% para 12,5% ao ano e o Pronamp fixado em até 9%. O plano ampliou o volume total para R$ 608 bilhões, sendo R$ 525,1 bilhões destinados à agricultura empresarial e R$ 83 bilhões à agricultura familiar, um aumento de 1,7% sobre o ciclo anterior.
Do lado do mercado, a EY chama atenção para uma mudança de postura dos investidores no mercado futuro, que migraram de posições vendidas para posições compradas em soja e milho, movimento que costuma preceder reprecificação de commodities. A leitura combina estoques globais mais apertados com o ritmo mais lento de expansão da oferta mundial, enquanto o consumo segue avançando. Ainda assim, a produção brasileira de soja pode registrar quebra de até 12 milhões de toneladas, e o risco climático não está descartado: a EY monitora a possibilidade de um El Niño potencialmente forte, com excesso de chuva no Sul e estiagem no Norte e Nordeste, replicando parte do padrão observado em 2015, quando a produtividade em áreas do Matopiba recuou entre 40% e 60%.
No mercado de crédito privado, o volume de instrumentos ligados ao agro já supera R$ 1,34 trilhão, segundo dados de julho de 2026. A CPR (Cédula de Produto Rural) lidera o financiamento com R$ 580,78 bilhões em estoque, distribuídos em cerca de 372 mil títulos, seguida pela LCA (Letra de Crédito do Agronegócio), com R$ 560,37 bilhões. O CRA soma R$ 174,20 bilhões e o Fiagro, com 285 fundos ativos, acumula R$ 64,13 bilhões em patrimônio, dado referente a junho.
Análise: o que dizem os especialistas do mercado
Para analistas do setor de crédito estruturado, a combinação de juros menores no Plano Safra com sinais de melhora de preço nas commodities é o que pode destravar, de forma gradual, o apetite por risco agro que hoje está represado. A retração de 77% nas emissões de CRA levou fundos e gestoras a adotarem posturas mais defensivas, exigindo margens de garantia entre 60% e 80% do valor do ativo, priorizando empresas da cadeia de insumos com balanços auditados e recorrendo a estruturas de sale and leaseback para reduzir exposição a risco de crédito.
"O mercado não fechou a torneira, ele ficou mais seletivo e mais caro", avalia um gestor de fundos de crédito estruturado consultado sobre o cenário atual do agro. Essa seletividade tende a beneficiar originadores com histórico de pagamento consistente e prejudicar tomadores mais alavancados, num movimento de diferenciação de risco que deve se acentuar até o fechamento da safra.
Perspectivas: o que monitorar até a virada de safra
Os próximos meses concentram os principais gatilhos para o mercado de FIDC e CRA do agronegócio. No radar de curto prazo está a evolução do regime de chuvas, decisivo para confirmar ou descartar a hipótese de quebra na produção de soja e para calibrar o apetite de risco dos fundos que financiam a cadeia. Também merece acompanhamento a evolução da inadimplência rural, hoje em 7,3%, que precisa mostrar sinais de estabilização para que as emissões de CRA retomem o ritmo anterior a 2025.
Do lado regulatório, o desfecho das disputas judiciais sobre alienação fiduciária de bens rurais em recuperação judicial deve ser um fator determinante para o apetite de investidores institucionais por papéis lastreados em recebíveis do agro. Se a safra 2026/27 confirmar a virada indicada pelos preços futuros e pelo alívio de juros do Plano Safra, o mercado de capitais tende a responder com reabertura gradual do funding privado ao setor, ainda que sob critérios de seleção mais rígidos do que os praticados no ciclo de expansão de 2020 a 2023.
Fontes: CNN Brasil
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