Anbima leva à CVM proposta de reclassificação dos FIDCs
A Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) deve apresentar nas próximas semanas à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) uma proposta de revisão da classificação dos Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs).

Como a taxonomia é definida pela própria Anbima, a mudança não depende de aprovação da autarquia, mas marca uma tentativa de atualizar as categorias diante da transformação vivida pelo setor nos últimos anos.
Contexto: um modelo que ficou pequeno para o mercado
O sistema de classificação hoje em vigor divide os FIDCs em cinco grandes grupos: Fomento Mercantil, Financeiro, Agro, Indústria e Comércio, Multissetorial e Outros. Essas categorias foram pensadas em um momento em que os fundos concentravam-se, majoritariamente, em operações tradicionais de antecipação de recebíveis.
O cenário atual é bem diferente. Existem hoje estruturas voltadas a finalidades tão variadas quanto perfuração de poços artesianos, aquisição de precatórios, antecipação de receitas de bilheteria de shows e cessão de direitos de transmissão de televisão. Segundo dados do mercado, o país tem aproximadamente 4 mil FIDCs em funcionamento. Um levantamento do Crédito Privado 360, com base em informações da CVM, mostra que cerca de 200 desses veículos já são classificados como não padronizados, justamente por não se encaixarem nas categorias tradicionais.
Na prática, boa parte das novas estruturas tem sido enquadrada na categoria "Outros", criada originalmente para operações residuais. "Hoje essa categoria já é maior do que todas as outras", afirma Delano Macêdo, sócio-diretor da Solis, gestora especializada em crédito estruturado e uma das pioneiras da indústria de FIDCs. Macêdo integra o comitê da Anbima que discute o tema.
O que muda: mais granularidade para avaliar risco
Para gestores, reunir estratégias muito distintas sob o mesmo rótulo dificulta a leitura do mercado e reduz a capacidade de comparação entre produtos. A classificação vigente pouco informa sobre a natureza econômica dos créditos que compõem cada carteira. Dois fundos enquadrados na mesma categoria podem ter riscos completamente diferentes, dependendo da qualidade dos devedores, das garantias oferecidas, da pulverização dos créditos e da forma como cada operação foi estruturada.
Esse problema cresce conforme surgem estruturas lastreadas em ativos mais complexos. "Hoje há tipos de FIDCs, como os de precatórios, que têm uma forte dose de subjetividade em seus contratos e que mesmo parte dos profissionais que os distribuem não conhecem bem", diz Lucas Fleury, fundador da CPV Asset. Para o gestor, uma classificação mais aderente às características dos ativos ajudaria distribuidores e investidores a entender melhor as diferenças entre estratégias e os riscos de cada operação.
Análise: governança em foco com a chegada do varejo
A discussão ganha peso porque os FIDCs deixaram de ser produto restrito a investidores institucionais e qualificados. Mudanças regulatórias recentes e o crescente interesse da pessoa física em crédito privado ampliaram o público desses fundos, e essa expansão coincide com um aumento nas preocupações com governança no setor.
Nos últimos anos, cresceram os casos de atraso em pagamentos, falhas na prestação de informações a cotistas e suspeitas de fraude em algumas estruturas. Esses episódios ainda representam uma parcela pequena da indústria, mas, segundo gestores ouvidos pelo Crédito Privado 360, a repercussão tende a afetar a percepção do investidor sobre toda a classe de ativos, justamente no momento em que a indústria mais cresce.
Com mais investidores de varejo tendo acesso aos FIDCs, especialistas avaliam que uma classificação confusa favorece comparações inadequadas entre fundos de naturezas completamente distintas, o que pode agravar o impacto de eventuais perdas sobre a credibilidade do segmento.
Perspectivas: o que se espera daqui para frente
A expectativa do mercado é que a proposta da Anbima funcione como ponto de partida para uma nomenclatura mais próxima da realidade atual da indústria, com ganhos de transparência para investidores, distribuidores e órgãos supervisores. A revisão das categorias, isoladamente, não resolve os problemas de governança já registrados no setor, mas participantes do mercado acreditam que uma segmentação mais precisa vai facilitar a análise de risco e melhorar a comparação entre produtos.
O tema deve continuar em debate no comitê da Anbima nas próximas semanas, à medida que a entidade prepara a apresentação formal da proposta à CVM. Gestores e distribuidores devem acompanhar de perto os contornos finais da nova taxonomia, que pode redefinir como o mercado enxerga e precifica risco dentro do universo de FIDCs.
Fontes: Crédito Privado 360, "Anbima leva à CVM proposta de reclassificação dos FIDCs", 24.07.2026 (https://creditoprivado360.com.br/2026/07/24/anbima-leva-a-cvm-proposta-de-reclassificacao-dos-fidcs/)
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