Bank of America eleva rating do Brasil e projeta Selic a 11,25% até fim de 2027
Banco americano revisa projeção de Selic para baixo e reacende o debate sobre o custo do capital no crédito privado brasileiro.

O Bank of America mudou sua recomendação para ações brasileiras de "marketweight" para "overweight" nesta semana, citando espaço para um ciclo de cortes de juros mais intenso do que o previsto anteriormente. A revisão chega em um momento sensível para o mercado de crédito privado, que acompanha de perto qualquer sinalização sobre o ritmo de queda da Selic.
Contexto e cenárioA taxa Selic está atualmente em 14,00% ao ano, após o Comitê de Política Monetária (Copom) reduzir a taxa básica em 25 pontos base em sua reunião de agosto. O mercado já precifica um novo corte de mesma magnitude na reunião de setembro, o que levaria a taxa a 13,75% ao ano, segundo analistas consultados pelo Money Report.
Para o investidor institucional e o gestor de fundos de crédito, o nível da Selic funciona como referência direta de precificação. Quanto mais alta a taxa básica, maior o benchmark de retorno exigido por cotistas e maior a pressão sobre o custo de captação de originadores que estruturam operações de Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs), veículos que compram recebíveis de empresas e os transformam em cotas sênior e subordinada oferecidas a investidores.
O que mudouSegundo relatório assinado pelo analista David Beker, o BofA revisou sua projeção para a Selic ao final de 2027 de 12,75% para 11,25% ao ano, um corte de 150 pontos base na expectativa terminal. O banco argumenta que "taxas de juros mais baixas provavelmente devem impulsionar o valuation das ações para níveis menos deprimidos", justificando o upgrade da bolsa brasileira.
O relatório também aponta desaceleração da atividade econômica e riscos inflacionários menores como fatores que abrem espaço para uma política monetária mais frouxa sem pausas relevantes até o fim de 2027. Entre as ações cobertas, Vale e Petrobras seguem com classificação neutra ("marketweight"), enquanto o foco da revisão recai sobre companhias mais sensíveis a juros.
Análise: o que isso significa para o crédito privadoA trajetória de queda da Selic tende a reconfigurar a dinâmica de spreads no mercado de FIDCs. Levantamento da Exame mostra que os spreads de crédito privado já vinham em compressão relevante, saindo de 269 pontos base em junho de 2023 para 163 pontos base em janeiro de 2026, movimento atribuído por Rodrigo Mendonça, da Valora Investimentos, mais a fluxos técnicos do que a uma melhora efetiva de qualidade de crédito.
Adriano Casarotto, da Franklin Templeton, destaca que juros acima de 14% ao ano tornam mais custoso para as empresas carregarem suas despesas financeiras, pressionando a capacidade de pagamento de cedentes em operações estruturadas. Se a curva de juros de fato recuar como projeta o BofA, o efeito esperado é duplo: por um lado, alívio no custo de rolagem para originadores e melhora na qualidade de crédito subjacente às carteiras de recebíveis; por outro, redução do carrego nominal oferecido aos cotistas de FIDCs, hoje na faixa de 0,8% a 1% de spread, ante 0,5% a 0,6% em debêntures comparáveis, segundo dados da Franklin Templeton citados pela reportagem.
Em maio de 2026, as emissões de FIDC somaram R$ 5,3 bilhões, volume ainda distante dos R$ 26,6 bilhões emitidos em debêntures no mesmo período, reforçando que o produto segue em fase de expansão de base de investidores mesmo em um cenário de juros elevados.
Perspectivas: o que monitorarO próximo encontro do Copom será decisivo para confirmar se o ciclo de flexibilização segue sem pausas, como espera o mercado, ou se a autoridade monetária opta por um intervalo diante da incerteza sobre expectativas de inflação ainda desancoradas. Para o gestor de FIDC, os pontos de atenção nas próximas semanas são o ritmo dos cortes definidos pelo Copom, a evolução dos spreads de crédito privado diante da maior liquidez esperada no mercado, e a qualidade das carteiras de recebíveis à medida que o custo de capital das empresas cedentes recua.
Se a projeção do BofA se confirmar, o mercado de crédito estruturado brasileiro pode viver nos próximos dois anos uma transição de um ambiente de juros altos, que hoje favorece o carrego de FIDCs frente a outras classes de renda fixa, para um cenário de spreads mais apertados e maior apetite por risco, o que tende a intensificar a concorrência entre gestoras por ativos de qualidade.
Fontes: Bloomberg Línea
FIDC NEWS
O .fidcnews é um veículo digital focado em notícias e análises sobre Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs), com o propósito de tornar acessíveis os dados e tendências do mercado de crédito estruturado.
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