Consignado privado dobra em 12 meses e mira R$ 300 bilhões em dois anos
Carteira do consignado privado passou de R$ 49,9 bilhões para R$ 117,7 bilhões em 12 meses, e penetração de apenas 20% sustenta apostas de bancos e fintechs em novo salto até 2028.

O crédito consignado para trabalhadores da iniciativa privada mais que dobrou de tamanho em um ano e já é tratado por bancos e fintechs como uma das frentes mais promissoras de expansão do crédito para pessoa física no Brasil. Dados do Banco Central mostram que a carteira saltou de R$ 49,9 bilhões em julho de 2025 para R$ 117,7 bilhões em julho de 2026, e o setor projeta que o volume pode chegar a R$ 300 bilhões nos próximos dois anos.
Contexto: a reformulação que destravou o produto
O consignado privado (modalidade em que a parcela do empréstimo é descontada diretamente da folha de pagamento de trabalhadores com carteira assinada, incluindo domésticos, rurais e contratados por microempreendedores individuais) ganhou escala depois de uma reformulação promovida pelo governo federal em março de 2025. Desde então, a contratação passou a dispensar convênio prévio entre empresa e banco, com a operação viabilizada via eSocial. O modelo permite que qualquer instituição habilitada dispute o cliente em um sistema de leilão de taxas, sem que o empregador precise negociar diretamente com o banco.
O público-alvo potencial é de mais de 47 milhões de trabalhadores brasileiros com carteira assinada. Desse total, a penetração ainda é baixa: executivos do setor estimam que cerca de 20% já contrataram o produto, o equivalente a uma base próxima de 10 milhões de tomadores atuais. O governo federal projeta que, em até quatro anos, cerca de 25 milhões de pessoas passem a integrar o consignado privado, mais que o dobro da base de hoje.
O que mudou: carteira dobra e concessões voltam a acelerar
Segundo o Banco Central, o saldo da carteira de consignado privado atingiu R$ 117,7 bilhões em julho de 2026, alta de 3,8% sobre os R$ 113 bilhões de junho. Na mesma base de junho, o consignado público (que engloba INSS e servidores) somava R$ 390 bilhões, mais de três vezes o volume da modalidade privada, mas com crescimento bem mais lento.
As concessões mensais também voltaram a acelerar: R$ 8,8 bilhões em julho, ante R$ 7,7 bilhões em junho. O Ministério do Trabalho estima a carteira atual em torno de R$ 140 bilhões, patamar que o setor acredita poder chegar a R$ 300 bilhões em até dois anos, o que equivaleria, na prática, a dobrar o tamanho do mercado frente aos R$ 140 bilhões atuais em pouco mais de dois anos, conforme a perspectiva destacada pela reportagem.
Análise: o atrativo do desconto em folha e o apetite das fintechs
Para Leonardo Kogut, ex-executivo do Santander e do Itaú BBA e fundador da fintech Youcred, a penetração do consignado nesse público é de no máximo 20%, e o principal atrativo do produto é permitir a substituição de dívidas caras, como cartão de crédito e cheque especial, por uma linha com juros menores, viabilizada pelo desconto automático em folha.
A YouCred ilustra a aposta no tamanho ainda inexplorado do mercado: a fintech levantou R$ 5 milhões em capital semente e diz ter como meta originar R$ 1 bilhão em crédito do trabalhador no próximo ano, com uma operação enxuta baseada em inteligência artificial. "A Inteligência Artificial mudou para sempre a física dos negócios", afirma Kogut, filho do empreendedor Marcio Kogut, fundador da fintech de consórcios Mycon. Vale o registro de que esses números e metas foram declarados pela própria fintech, ainda sem verificação independente de execução.
O desafio para bancos e fintechs, segundo a reportagem, é reduzir o risco cadastral e de crédito sem perder a simplicidade operacional e o baixo custo de aquisição que tornaram o produto atrativo até aqui.
Perspectivas: inadimplência em alta e resposta regulatória
A tarefa ficou mais urgente em julho, quando a inadimplência do consignado privado atingiu 10%, maior nível da série histórica do Banco Central, iniciada em 2011, alta de 1,3 ponto percentual em um único mês. Parte do problema é estrutural: o desconto em folha do trabalhador CLT depende do vínculo empregatício, e pode ser interrompido quando o cliente muda de emprego ou é demitido.
A resposta regulatória tem sido apertar as regras. A Resolução CGCONSIG/MTE nº 2, de abril de 2026, criou um teto de juros para operações com garantia do FGTS, e as concessões mensais caíram entre 22,8% e 29% logo depois da medida, um movimento que o mercado deve monitorar de perto nos próximos meses para entender se a desaceleração é pontual ou sinaliza um ajuste mais duradouro no ritmo de crescimento do produto.
Para o mercado de fundos de crédito estruturado, incluindo gestores de FIDC, o comportamento dessa carteira interessa como termômetro do volume de recebíveis de consignado privado que pode, no futuro, alimentar operações de securitização. A reportagem da Forbes, no entanto, não detalha operações de FIDC específicas nem cita gestoras desse mercado, de modo que essa leitura permanece uma inferência sobre o potencial do produto, não um dado confirmado na fonte.
FIDC NEWS
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