BTG Pactual compra fatia da Andrade Gutierrez e fica com 100% da operação do Beira-Rio
Depois de assumir a arena do Palmeiras via recuperação de crédito, o BTG fecha o cerco sobre os estádios brasileiros.

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O BTG Pactual fechou acordo para comprar os 50% que a Andrade Gutierrez ainda detinha na Brio, empresa que explora comercialmente o estádio do Internacional, em Porto Alegre. É o segundo grande movimento do banco em arenas de futebol em menos de um mês. Os dois casos mostram como estádios com receita contratada recorrente passaram a ser disputados como ativos de crédito e de infraestrutura.
Um ativo nascido de financiamento
A Brio foi criada em 2012 para financiar a reforma do Beira-Rio para a Copa do Mundo de 2014, uma obra estimada em R$ 331 milhões. Em troca do aporte, a empresa recebeu um contrato de exploração comercial de 20 anos. Ele cobre cadeiras, camarotes, espaços de eventos, estacionamento, alimentos e bebidas e os direitos de nome (naming rights) do estádio.
Até agora, o BTG dividia o controle da Brio com a Andrade Gutierrez. Com a nova operação, feita pelo fundo BTG Pactual Alternative Assets I, o banco passa a deter 100% da companhia. Os valores não foram divulgados, e o negócio ainda depende de aprovação do Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica).
A relação com o clube tem pontos em aberto. Segundo reportagem da Crusoé de 31 de agosto, o Internacional cobra cerca de R$ 16 milhões em despesas de manutenção que a Brio não pagou. Pelo contrato, o clube responde por 66% dos custos das áreas comuns e da operação, e a Brio, por 34%.
Do crédito ao controle: o precedente do Palmeiras
O movimento em Porto Alegre vem logo depois da operação em São Paulo. Em 18 de setembro, o BTG anunciou que passou a ser acionista majoritário da Real Arenas, que administra o estádio do Palmeiras, rebatizado de Nubank Parque em 2026.
O caminho até lá foi típico de special situations, ou seja, de investimento em ativos de empresas em dificuldade. Em 2024, a Enforce, braço de recuperação de crédito do grupo BTG, comprou do Banco do Brasil uma dívida de cerca de R$ 650 milhões ligada ao financiamento da arena. A Travessa Securitizadora, também do grupo, chegou a buscar o vencimento antecipado desse crédito. O impasse terminou com a conversão de parte da dívida da WTorre em participação acionária. A construtora segue como sócia relevante, e o direito de superfície concedido pelo Palmeiras vale até 2044. Essa operação também aguarda o aval do Cade.
Os números explicam o interesse. A receita bruta da arena paulista passou de R$ 124 milhões em 2022 para R$ 199 milhões em 2023, R$ 241 milhões em 2024 e cerca de R$ 300 milhões em 2025, segundo dados da Bloomberg Línea. Mais de 90% dos 178 camarotes estavam ocupados em 2025, e essa é a principal fonte de receita, à frente do aluguel para shows e dos patrocínios. Só o contrato de naming rights com o Nubank soma R$ 900 milhões em 18 anos, cerca de R$ 50 milhões por ano.
Análise: por que estádios interessam ao crédito estruturado
Para quem acompanha o mercado de FIDC (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios) e de securitização, os dois negócios mostram um tipo de ativo que interessa cada vez mais aos gestores. Uma arena moderna gera fluxos de caixa contratados, longos e com boa previsibilidade: locação de camarotes por vários anos, naming rights com pagamentos anuais fixos, cessão de espaço para eventos e receitas de estacionamento. São justamente as características que tornam um recebível elegível para lastrear operações estruturadas.
O caso do Palmeiras também reforça um padrão dos grandes grupos financeiros: comprar crédito estressado com desconto, usar a estrutura de garantias para negociar e, se for o caso, converter a dívida em controle do ativo operacional. Em vez de esperar o fim da recuperação, o credor passa a capturar o crescimento da receita.
O mercado que sustenta esses fluxos está crescendo. O setor de eventos ao vivo movimentou R$ 8,46 bilhões no Brasil em 2025, segundo a Abeoc (Associação Brasileira de Empresas de Eventos). "Não há algo parecido no mundo. O ativo é excelente. Isso explica a disputa por espaço, no mercado financeiro, na cabeça do consumidor", avaliou o especialista em branding Eduardo Tomiya ao NeoFeed, sobre a disputa entre BTG Pactual, Nubank e Itaú em torno da arena palmeirense.
Perspectivas: o que monitorar
O primeiro marco são as duas decisões do Cade, que vão confirmar o BTG como controlador das duas arenas. Depois, o mercado deve observar como o banco vai rentabilizar os ativos. Entre as possibilidades estão a renegociação de contratos comerciais, a ampliação do calendário de shows e, eventualmente, o uso dos recebíveis das arenas como lastro para captação no mercado de capitais.
No Beira-Rio, há dois pontos de atenção. Um é a pendência de manutenção com o Internacional. O outro é o prazo do contrato de exploração de 20 anos, que limita o tempo de retorno do investimento. Para gestores de crédito estruturado, a estratégia do BTG no esporte deve servir de referência sobre como ativos ligados ao futebol podem deixar de ser apenas patrocínio e passar a fazer parte do portfólio de crédito e infraestrutura.
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