BTG vê risco de crédito além dos bancos e alerta para 2027
Um relatório do BTG Pactual aponta que os sinais de deterioração do crédito no Brasil estão se tornando mais amplos e podem ganhar força com uma desaceleração da economia em 2027.

Para o banco, o risco já não está concentrado nos balanços das instituições financeiras: o crescimento dos Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs), das fintechs e do crédito oferecido por plataformas digitais criou novos canais pelos quais eventuais perdas podem se espalhar.
O mercado de FIDCs em expansão acelerada
Com base em dados da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais), o BTG aponta que o mercado brasileiro de FIDCs atingiu R$ 765 bilhões em patrimônio, avanço de 42% desde outubro de 2024. O crescimento consolidou esses veículos como fonte cada vez mais importante de financiamento para empresas e para ecossistemas de crédito ao consumidor.
Os analistas Eduardo Rosman, Ricardo Buchpiguel e Antonio Pascale, responsáveis pelo relatório, afirmam não ver os FIDCs como "inerentemente problemáticos". Eles dizem, no entanto, ter dúvidas sobre liquidez, concentração e descoberta de preços em partes desse mercado. Um ponto central da análise é regulatório: embora os FIDCs sejam supervisionados pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), esses fundos não estão sujeitos ao mesmo quadro prudencial de capital e liquidez exigido dos bancos. Por isso, segundo o banco, as perdas de crédito podem demorar mais para se tornar visíveis, e um eventual evento de crédito tende a ficar distribuído por um conjunto mais amplo de veículos e investidores do que apenas os balanços bancários sugeririam.
Casas Bahia e Shopee expõem o novo mapa de exposição
O pedido de recuperação judicial da Casas Bahia (BHIA3), que cobre R$ 17,3 bilhões em passivos, ajudou a colocar os FIDCs no centro da discussão sobre risco de crédito. O relatório do BTG destaca que, embora a situação da varejista fosse considerada "desafiadora por anos", chamou atenção a presença de vários FIDCs entre os credores da companhia, evidenciando como esses fundos hoje concentram exposição a devedores corporativos relevantes.
Outro ponto de atenção é o avanço do crédito originado por plataformas digitais. A equipe de varejo do BTG observou que dois FIDCs registrados na CVM e ligados à Shopee (S2EA34) chegaram a aproximadamente R$ 7,5 bilhões em julho, alta de 201% na comparação anual. O volume já equivale a cerca de 92% do portfólio comparável de FIDCs brasileiros do Mercado Livre (MELI34). Para os analistas, a lógica estratégica é clara: o crédito apoia capital de giro de vendedores, aumenta a conversão e reforça o engajamento de consumidores, usando dados do próprio marketplace para subscrição. Ainda assim, o BTG pondera que o portfólio é relativamente imaturo e que o crescimento acelerado da originação pode mascarar temporariamente a inadimplência, já que as safras mais novas ainda não amadureceram para as faixas mais tardias de créditos não performados (NPL, na sigla em inglês).
O relatório também identifica sinais de deterioração dentro do próprio sistema bancário. Na avaliação do BTG, o segundo trimestre de 2026 pode ter marcado uma mudança no tom do crédito, possivelmente o primeiro do ciclo atual em que apareceram sinais mais amplos de piora nos bancos. O banco reforça que o ponto não é que todas as instituições estejam vendo deterioração, mas que a pressão de crédito está mais visível em diferentes instituições e produtos, citando o Banco do Brasil (BBAS3) como exemplo, ao mencionar deterioração significativa na carteira de cartões de crédito.
Análise: dispersão entre vencedores e perdedores
Ao tratar do Nubank (ROXO34), o BTG identifica vantagens estruturais que estariam se tornando mais visíveis no ciclo atual. Segundo o banco, clientes para os quais o Nubank é a principal relação bancária apresentam NPLs em aproximadamente metade da média do portfólio, já que o maior engajamento melhora a seniority de pagamento e o desempenho de crédito. O fundador e CEO do Nubank, David Vélez, reforçou essa leitura em postagem nas redes sociais, usando uma analogia de Ayrton Senna sobre "ganhar terreno quando chove" para descrever o momento da companhia.
"Mudanças no ambiente macroeconômico e competitivo teriam criado dispersão significativa entre vencedores e perdedores", avalia o BTG, ao traçar um paralelo com o sistema bancário brasileiro na década de 1990. O banco faz questão de esclarecer que não se trata de prever uma repetição daquela crise, mas de sinalizar que o ambiente competitivo atual deve separar com mais clareza quem ganha e quem perde no crédito.
Perspectivas: risco disperso exige monitoramento mais amplo
Para o BTG, o recado final do relatório é que o risco de crédito não é mais um tema restrito aos bancos. Com a originação migrando de forma acelerada para FIDCs, fintechs e plataformas digitais, entender onde esse risco está se concentrando passa a ser cada vez mais relevante para gestores, investidores e reguladores.
Para o mercado de FIDC, o alerta reforça um debate que já vinha ganhando corpo: o crescimento de 42% em menos de dois anos trouxe volume e relevância, mas também elevou a necessidade de diligência sobre concentração de cotistas, qualidade dos originadores e transparência na precificação das cotas. O caso Casas Bahia deve seguir como referência de estudo para gestores que avaliam a exposição de suas carteiras a devedores corporativos em dificuldade, enquanto o crescimento acelerado de FIDCs ligados a plataformas digitais, como os da Shopee, tende a ser acompanhado de perto até que essas carteiras amadureçam o suficiente para revelar sua real qualidade de crédito.
Fontes: Estadão E-Investidor (Crisley Santana, 25/08/2026); relatório do BTG Pactual; dados da Anbima
FIDC NEWS
O .fidcnews é um veículo digital focado em notícias e análises sobre Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs), com o propósito de tornar acessíveis os dados e tendências do mercado de crédito estruturado.
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