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MercadoMacroeconomia

CNI projeta déficit de R$ 55,3 bilhões e reduz ritmo de corte da Selic em 2026

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) revisou nesta semana suas projeções para a economia brasileira em 2026. A entidade elevou a estimativa de inflação, reduziu a expectativa de queda da Selic e manteve o déficit fiscal federal em patamar semelhante ao de 2025. Para o mercado de crédito privado, o cenário reforça a lógica de juros altos por mais tempo, com efeitos diretos sobre o retorno das cotas indexadas ao CDI e sobre o custo de capital dos originadores.

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Contexto: revisão trimestral em meio a pressão fiscal e inflacionária

A CNI divulgou nesta quarta-feira, 22 de julho, o Informe Conjuntural do segundo trimestre, documento que reúne as projeções macroeconômicas da entidade para o ano corrente e para o seguinte. O relatório chega em um momento no qual o mercado financeiro monitora de perto a trajetória da dívida pública e a capacidade do governo federal de equilibrar as contas sem comprometer o crescimento.

Segundo a CNI, a dívida pública deve encerrar 2026 equivalente a 82% do Produto Interno Bruto (PIB), alta de 10,3 pontos percentuais em relação ao patamar observado há dez anos. A trajetória ascendente do endividamento é um dos fatores que os gestores de fundos de crédito acompanham para avaliar o risco soberano embutido nos ativos referenciados à taxa básica de juros e à curva de juros futuros.

O que mudou: déficit estável, inflação em alta e Selic com corte mais lento

O núcleo do relatório traz três atualizações relevantes. Primeiro, a CNI projeta que o déficit do governo federal alcance R$ 55,3 bilhões em 2026, patamar semelhante ao de 2025, mesmo com expectativa de crescimento da arrecadação. Segundo, a entidade elevou a projeção do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 4,4% para 5% em 2026, revisão atribuída principalmente à alta dos preços de alimentos e combustíveis, além da persistência da inflação de serviços. Terceiro, e talvez o dado de maior impacto para o mercado, a CNI reduziu a expectativa de queda da Selic.

Antes, a entidade projetava que a taxa básica encerraria 2026 em 12,75%. Agora, a estimativa é de apenas dois cortes de 0,25 ponto percentual ao longo do ano, levando a Selic de 14,25% para 13,75% no fim do período. A diferença de um ponto percentual entre as duas projeções não é trivial para quem opera com ativos de crédito indexados ao CDI, já que altera diretamente a taxa de desconto aplicada aos fluxos de recebíveis e o custo de captação de originadores que dependem de linhas bancárias ou de mercado de capitais.

No setor externo, a CNI também projeta melhora expressiva na balança comercial. As exportações brasileiras devem somar US$ 383,9 bilhões em 2026, alta de 9,5% em relação a 2025, enquanto as importações devem alcançar US$ 306 bilhões, crescimento de 5,2%. O resultado é um superávit comercial estimado em US$ 77,9 bilhões, avanço de 30,4% sobre o saldo esperado para 2025, impulsionado principalmente pelos preços mais elevados de commodities minerais e agrícolas.

Análise: juros altos por mais tempo pressionam o custo de capital, mas sustentam o carrego das cotas

Para o mercado de FIDC (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios, veículo que adquire recebíveis de empresas e os transforma em cotas seniores e subordinadas oferecidas a investidores), a combinação de inflação mais alta e Selic mais lenta para cair tem leitura dupla. De um lado, o cenário sustenta o retorno nominal das cotas seniores atreladas ao CDI, que seguem entregando prêmio elevado em termos absolutos. De outro, encarece o custo de funding de originadores e cedentes, o que pode pressionar as taxas de desconto praticadas na cessão de crédito e, em setores mais alavancados, elevar o risco de inadimplência monitorado via provisão para devedores duvidosos (PDD).

"O cenário fiscal e inflacionário limita o espaço para uma flexibilização mais intensa da política monetária", afirmou o diretor de Economia da CNI, Mario Sergio Telles, ao comentar a revisão das projeções. A declaração resume o ambiente que gestores de crédito privado devem monitorar nos próximos meses, marcado por juros estruturalmente altos e por um quadro fiscal que segue limitando a margem de manobra do Banco Central.

Perspectivas: o que monitorar até o fim de 2026

Para os próximos meses, o mercado deve acompanhar de perto as decisões do Comitê de Política Monetária (Copom) para confirmar, ou não, o ritmo de dois cortes de 0,25 ponto percentual projetado pela CNI. Qualquer sinal de piora adicional no quadro fiscal, especialmente relacionado à trajetória da relação dívida/PIB, tende a reforçar ainda mais a cautela do Banco Central e pode adiar novos cortes.

Do lado positivo, o superávit comercial crescente favorece setores exportadores que costumam ser originadores relevantes de recebíveis para FIDCs do agronegócio e de commodities minerais, ampliando o volume potencial de cessão de crédito nesses segmentos. Gestores devem seguir monitorando a divulgação do próximo Informe Conjuntural da CNI e os comunicados do Copom para calibrar a duration e a exposição a ativos indexados à Selic e ao CDI nas carteiras de crédito privado.


Fontes: Estadão Conteúdo (republicado por UOL Economia e Canal Rural)

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