Crédito próprio do varejo cresce 113% e amplia oferta de recebíveis para FIDCs
Com a Selic em patamar restritivo e o orçamento das famílias brasileiras cada vez mais apertado, o varejo encontrou no crédito próprio uma forma de blindar o caixa e manter o consumo girando.

Levantamento recente mostra que o tíquete médio das compras feitas com cartão de loja cresceu 113% mais que o dos cartões bancários tradicionais, um movimento que já reconfigura a esteira de recebíveis oferecida a bancos e fundos estruturados, entre eles os FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios).
Contexto: juros altos empurram o varejo para o próprio balcão de crédito
O endividamento das famílias brasileiras chegou a 82% em julho de 2026, um patamar que reduz o espaço para consumo financiado por bancos tradicionais e pressiona o varejo a buscar alternativas para sustentar as vendas. Nesse cenário, cartões de loja e crediários próprios deixaram de ser apenas um meio de pagamento e passaram a funcionar como ferramenta central de fidelização e geração de recorrência.
Historicamente, o crédito bancário oferece limites populares entre R$ 100 e R$ 200 para grande parte da base de consumidores de menor renda. O varejo, ao usar dados exclusivos de consumo de cada cliente, consegue oferecer limites bem maiores, entre R$ 400 e R$ 500, o que amplia o poder de compra sem depender do sistema bancário tradicional. Essa engenharia de concessão, batizada por executivos do setor de "crédito de precisão", é o que sustenta o crescimento do tíquete médio nas lojas.
O que mudou: tíquete médio dispara e crédito próprio ganha participação
Os números mostram a dimensão do movimento. O tíquete médio do cartão de loja chegou a R$ 305,82, contra R$ 143,52 dos cartões bancários, uma diferença de 113%. O crescimento não é pontual: em dois anos, o volume de crédito próprio no varejo avançou cerca de 70%, segundo levantamento feito a partir de 15,9 bilhões de registros de transações, que hoje representam 15,52% de todo o volume de vendas varejistas no país.
Três setores concentram a maior parte desse avanço. O segmento de moda lidera com 58,77% de participação em crédito próprio, seguido por alimentar, com 26,75%, e por eletromóveis e materiais de construção, com 14,80%. São setores em que a recorrência de compra é alta e o relacionamento direto com o cliente permite ao varejista construir um histórico de consumo mais rico do que aquele disponível a um banco tradicional.
Lucas Dornellas, Chief Revenue Officer (CRO) da RPE (Retail Payment Ecosystem), explica que o cartão próprio vai além do parcelamento: "O cliente com o cartão consegue ter acesso a descontos que ele não teria sem o cartão próprio da marca". A prática, conhecida no setor como "Preço 2", concede descontos exclusivos para titulares do cartão da própria rede, o que reforça a fidelização e aumenta a frequência de compra.
Análise: o que o crédito de precisão significa para o mercado de FIDC
Para o mercado de FIDC, o dado mais relevante talvez não seja o crescimento do tíquete médio, mas a qualidade da carteira gerada por esse tipo de crédito. A perda líquida do varejo se manteve estável em 2,28%, mesmo com a expansão da concessão, o que indica um processo de originação mais criterioso, apoiado em dados proprietários de consumo em vez de apenas em modelos de score genéricos.
Outro indicador chama atenção de qualquer gestor de FIDC que analise cessão de crédito e PDD (Provisão para Devedores Duvidosos): a taxa de adimplência entre clientes com mais de dez anos de relacionamento chega a 83,06%. Esse cliente antigo, segundo o levantamento, tende a priorizar o pagamento da fatura da loja antes mesmo da fatura do banco, um comportamento que reduz o risco de inadimplência da carteira originada pelo varejo.
A recorrência também salta aos olhos. Em supermercados que oferecem cartão próprio, o cliente titular visita a loja em média 29,08 vezes por ano, contra 15,66 visitas de quem não tem o cartão, quase o dobro de frequência. Esse comportamento é o que, na prática, transforma o crédito próprio em um ativo interessante para securitização: carteiras pulverizadas, com originador que conhece profundamente o perfil de consumo do cedente, tendem a apresentar volatilidade menor de inadimplência ao longo do tempo. Não é à toa que parte relevante desses recebíveis já é vendida a bancos por meio de estruturas de FIDC, movimento que deve se intensificar à medida que o varejo profissionaliza sua área de crédito e busca liberar caixa para financiar novas concessões.
Perspectivas: atenção à ressaca do crédito pós-desenrola
O cenário, no entanto, não é isento de riscos. Analistas do setor apontam a possibilidade de uma "ressaca no crédito" após os programas de renegociação de dívidas em massa, como o desenrola, que devolveram ao mercado consumidor um contingente de clientes recém-saídos da inadimplência. A cautela recomendada é redobrada justamente com esse público, que voltou a ter acesso a limite, mas ainda carrega histórico recente de default.
Para quem acompanha o mercado de FIDC, os próximos meses devem trazer pelo menos três pontos de atenção. O primeiro é a evolução da taxa de perda líquida do varejo, hoje em 2,28%, como termômetro de qualidade da carteira. O segundo é o ritmo de novas estruturas de securitização lastreadas em recebíveis de crédito próprio, à medida que mais varejistas percebem no FIDC uma alternativa eficiente de funding. O terceiro é o comportamento do endividamento das famílias, atualmente em 82%, que segue sendo a variável macro que mais pressiona tanto bancos quanto varejistas na hora de conceder crédito.
Com juros ainda em patamar elevado, o crédito de precisão tende a seguir como estratégia central do varejo brasileiro, e o mercado de capitais deve continuar de olho em como essa nova geração de recebíveis chega às prateleiras dos fundos estruturados.
Fontes: InfoMoney, "Crédito próprio do varejo sobe 113% e é saída para fidelizar cliente e manter consumo", por Élida Oliveira, 13/08/2026 (https://www.infomoney.com.br/economia/credito-proprio-varejo-cresce-113-porcento/)
FIDC NEWS
O .fidcnews é um veículo digital focado em notícias e análises sobre Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs), com o propósito de tornar acessíveis os dados e tendências do mercado de crédito estruturado.
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