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MercadoCrédito privado

Crise no varejo amplia espaço para consolidação e operações de M&A

Com empresas pressionadas por liquidez e dívidas, ativos chegam ao mercado com desconto; volume financeiro de fusões e aquisições no Brasil subiu 22% no primeiro semestre.

FIDC NEWSFIDC NEWS 4 min de leituraSem comentários

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O atual ambiente de estresse financeiro no Brasil pode abrir uma janela de oportunidade para empresas capitalizadas acelerarem movimentos de M&A (fusões e aquisições) e consolidação de mercado. Enquanto companhias alavancadas buscam liquidez em meio aos juros elevados e ao crédito caro, empresas com caixa preservado ganham poder de compra para adquirir ativos e unidades de negócio a valores mais atrativos. O movimento reflete a dinâmica de um mercado de fusões e aquisições mais seletivo. Dados da consultoria KPMG apontam que as transações no Brasil movimentaram R$ 195 bilhões no primeiro semestre, alta de 22% em relação ao mesmo período do ano anterior. Paralelamente, o volume total de operações recuou 35%, passando de 938 para 610 transações.

Para Gustavo Budziak, CFO da Quartzo Capital, a disparidade de liquidez dita a velocidade dos movimentos corporativos atuais. “O cenário estabelece uma assimetria clara entre quem precisa monetizar ativos com urgência e quem tem capacidade de alocação. Companhias capitalizadas utilizam essa conjuntura, para por exemplo, ganhar escala, absorver infraestrutura logística ou entrar em novas geografias a múltiplos descontados”, avalia Budziak. A tese apoia-se na dissociação entre estresse de balanço e viabilidade operacional. Empresas pressionadas pelo custo da dívida ou com vencimentos de curto prazo frequentemente preservam marcas consolidadas, carteira de clientes, capilaridade logística, tecnologias e/ou pontos comerciais rentáveis. Esse descolamento impulsiona operações de distressed M&A, compra de negócios ou ativos isolados de empresas em reestruturação financeira ou recuperação judicial.

“A crise de caixa não anula o valor intrínseco de todas as verticais de uma empresa. Em muitos casos, a ineficiência é exclusivamente da estrutura de capital, e não da operação. Para investidores com liquidez e capacidade de due diligence técnica, o momento permite adquirir ativos resilientes por frações de seu custo de reposição”, complementa Budziak.  Liquidez dita ritmo das transações e reestruturações A urgência por liquidez atua como o principal catalisador desse reposicionamento. Enquanto grupos alavancados se desfazem de frentes de negócio fora do core principal para reorganizar o passivo, corporações desalavancadas avaliam oportunidades sem a mesma pressão. Para Fernando Balotin, diretor de Corporate Finance da Quartzo Capital e especialista em reestruturação de empresas, o maior entrave corporativo atual reside na recomposição da geração de caixa. “É justamente em ambientes de estresse que surgem oportunidades no mercado. Empresas alavancadas recorrem a desinvestimentos para reequilibrar o caixa, trazendo ao mercado operações espremidas, porém em outras mãos se tornam ativos saudáveis”, avalia Balotin. Segundo Balotin, a tese central não exige a compra integral de companhias em recuperação judicial, mas a extração de unidades de negócio específicas (ou nos dentro da recuperação judicial Unidades Produtivas Isoladas - UPI) rentáveis. “Em situações de estresse, o valor do ativo descola do valor da holding. A companhia pode estar insolvente, mas reter unidades com excelente geração de caixa futuro.

A oportunidade do comprador reside justamente em segregar o passivo financeiro da capacidade produtiva do ativo”, detalha. Exemplo prático dessa dinâmica ocorreu na transferência de dez unidades deficitárias da rede Hortifruti Natural da Terra (pertencente à Americanas) para o Grupo Fartura por R$ 69 milhões, durante o processo de recuperação judicial da varejista. Frente a esse ambiente, Budziak reitera a necessidade de disciplina na alocação. “O objetivo nunca deve ser comprar um negócio apenas pelo desconto aparente. O valor está em identificar ativos cirúrgicos que tragam sinergia imediata, escala e eficiência operacional”, diz o CFO. Menos operações, cheques maiores Entre os principais negócios do período figuram a compra de ativos de mineração e refino da South32 pela Alcoa (R$ 28,5 bilhões), a aquisição da Serra Verde pela USA Rare Earth (R$ 13,9 bilhões) e a compra da Raízen Argentina pela Mercuria (cerca de R$ 7,2 bilhões). Segundo Balotin, o mercado brasileiro opera em velocidades distintas. Setores que vivem em maior estresse financeiro por conta das margens mais estreitas e custo da dívida que corroe o caixa, como consumo interno e varejo realizam por consequência e necessidade realizam negociações mais focados em desalavancagem e/ou condicionados a fatores exógenos como a política monetária.

Enquanto por outro lado setores como tecnologia, infraestrutura e commodities concentram altos volumes de transações, por vezes com tickets mais altos que a média.  “A velha máxima de que a economia é cíclica onde em ciclos de juros baixos empresas mais arrojadas e agressivas podem ter maior ganho e ter vantagem sobre empresas conservadoras. Todavia, em ciclos de estresse, a liquidez ganha poder desproporcional de barganha. Quem preservou caixa tem vantagem clara diante de concorrentes forçados a desinvestir. A janela atual irá recompensar a capacidade de transformar liquidez em consolidação estratégica”, conclui Balotin.

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