Cristina Junqueira: a executiva que trocou o banco tradicional pela fundação do Nubank
Em 2013, cinco grandes bancos controlavam mais de 80% do sistema financeiro brasileiro. Foi nesse cenário de concentração que Cristina Junqueira, então executiva de cartões de crédito em uma dessas instituições, decidiu abandonar uma carreira previsível para cofundar o Nubank, hoje a maior instituição financeira do Brasil em número de clientes.

Contexto: um mercado fechado para novos entrantes
O setor bancário brasileiro sempre foi um dos mais regulados e concentrados da economia. Abrir um banco exige autorização do Banco Central, cumprimento de exigências regulatórias e de capital, além da disputa direta por clientes num oligopólio consolidado há décadas. Para qualquer novo entrante, o caminho natural seria desistir diante dessas barreiras.
Cristina Junqueira, engenheira de produção formada pela USP, com passagem pelo Boston Consulting Group (BCG) e MBA na Kellogg School of Management, nos Estados Unidos, vinha de uma trajetória de sucesso dentro do modelo tradicional. Após cinco anos numa das maiores carteiras de cartões de crédito do país, ela via de perto os problemas que o setor normalizava: tarifas altas, burocracia excessiva e um atendimento ao cliente tratado como consequência, não como premissa da operação.
O fato central: da conversa com David Vélez à fundação do Nubank
O ponto de virada aconteceu em 2013, quando Cristina conheceu o colombiano David Vélez, que buscava criar um banco capaz de enfrentar as instituições brasileiras estabelecidas. A conversa, iniciada no fim de tarde, se estendeu por horas em torno de uma ideia comum: construir uma instituição financeira centrada no cliente, o aspecto que ambos consideravam mais negligenciado pelo setor.
"Eu não dormi mais", relembrou Cristina. "Falei para o meu marido: 'Vou ter que fazer isso aqui. Se tem uma pessoa nesse país que sabe como fazer esse negócio dar certo, sou eu'."
Poucos meses depois, ao lado de Vélez e do engenheiro americano Edward Wible, ela fundou o Nubank. O produto que inaugurou a operação, um cartão de crédito sem anuidade e gerenciado integralmente pelo aplicativo, era incomum para o setor bancário da época. A partir dele vieram contas, investimentos, empréstimos, seguros e outros serviços financeiros, numa expansão que levou a fintech a superar, muito antes do previsto, a meta inicial de 100 milhões de clientes, projetada para cerca de dez anos.
Treze anos depois da fundação, o Nubank reúne mais de 135 milhões de clientes, opera em três países (Brasil, México e Colômbia) e integra o grupo das empresas financeiras mais valiosas da América Latina. Cristina, hoje aos 43 anos, mora nos Estados Unidos, onde se dedica a estruturar a operação americana do banco.
Análise: obsessão por detalhes como método de gestão
Durante mais de um ano após o lançamento, Cristina atendeu pessoalmente consumidores pelos canais de suporte da empresa, muitas vezes respondendo mensagens de madrugada para acompanhar de perto onde o serviço ainda falhava. A experiência reforçou uma convicção que se tornou pilar da cultura do Nubank: tecnologia sozinha não resolveria o problema do setor financeiro, seria preciso reduzir a distância entre banco e cliente.
Esse princípio segue orientando a operação até hoje. Cristina revisa pessoalmente apresentações estratégicas, rodapés de e-mails e parte das publicações em redes sociais da empresa. Em entrevista recente, contou que acompanhou por quatro dias, à distância, um ensaio fotográfico em Los Angeles para discutir figurino, cabelo e identidade visual de uma campanha. Para analistas de gestão, esse nível de envolvimento direto costuma ser incomum em companhias do porte do Nubank, hoje avaliada em dezenas de bilhões de dólares após o IPO em Nova York. "Gestão, estratégia e técnica podem ser aprendidos, mas disposição genuína para correr riscos e inovar, não", afirma a executiva sobre os critérios que adota nas contratações.
A rotina pessoal segue o mesmo padrão de disciplina: Cristina acorda antes das seis da manhã, pratica exercícios físicos e leva os quatro filhos à escola antes de iniciar a agenda de reuniões. Ela costuma comparar a própria cabeça a um "navegador de internet com dezenas de abas abertas ao mesmo tempo". Recentemente, converteu-se ao catolicismo, e conta que a fé passou a orientar decisões profissionais: participa de missa aos domingos, reza o terço e busca "compreender o que Deus espera" dela antes de decisões importantes.
Perspectivas: reconhecimento internacional e novos desafios
O percurso rendeu reconhecimento além do mercado brasileiro. Em 2024, Cristina entrou para a lista das 25 mulheres mais influentes do mundo, do Financial Times. Com a valorização das ações do Nubank após o IPO, também passou a integrar o grupo de bilionários brasileiros, segundo a Forbes.
Agora à frente da estruturação da operação americana da fintech, o próximo teste de Cristina Junqueira será repetir, num mercado maduro e altamente competitivo como o dos Estados Unidos, o mesmo movimento que rompeu o oligopólio bancário brasileiro treze anos atrás. Para o mercado de crédito e fintechs, o caso segue como referência de que modelos centrados no cliente, mesmo em setores fortemente regulados, podem crescer mais rápido do que os incumbentes preveem.
Fonte: Rose Amantéa, "Como uma executiva decidiu criar o próprio banco e rompeu o domínio dos gigantes do setor", Gazeta do Povo, série Apesar do Estado, 26/07/2026.
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