FIDCs batem recorde de patrimônio e blindam retorno mesmo com a Selic em queda
Enquanto a Selic recua ao longo de 2026, o mercado de recebíveis mostra que seu apelo vai muito além do CDI alto

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Os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) encerraram o primeiro semestre de 2026 na condição de principal motor do mercado de capitais brasileiro. Com patrimônio recorde, base de investidores multiplicada e emissões em ritmo acelerado, o setor consolidou uma tese que parecia frágil há poucos anos: a de que crédito privado estruturado pode entregar retorno consistente mesmo em um ciclo de queda de juros.
Contexto: de nicho institucional a protagonista do mercado
O FIDC é um condomínio de investimento que aloca mais de 50% do patrimônio líquido em direitos creditórios, ou seja, títulos que representam contas a receber: duplicatas, cheques, parcelas de cartão de crédito, aluguéis e outros recebíveis. Na prática, uma empresa vende produtos ou serviços a prazo e, em vez de esperar o recebimento, cede esses títulos ao fundo com deságio. O FIDC lucra na diferença entre o valor pago pelo título e o valor efetivamente recebido, e repassa parte desse ganho ao cotista.
Até poucos anos atrás, esse desenho era dominado por investidores institucionais, como bancos e fundos de pensão, e por profissionais qualificados. A virada de chave veio com a Resolução CVM 175, que ampliou o acesso de investidores de varejo ao produto e abriu caminho para a distribuição em massa via plataformas e fundos que investem em outros FIDCs (os FIC-FIDC).
O resultado apareceu nos números. Em dezembro de 2024, o patrimônio líquido dos FIDCs (R$ 589,3 bilhões) superou pela primeira vez o dos fundos de ações (R$ 584,9 bilhões), segundo dados da ANBIMA (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais). Enquanto a indústria de ações via seu patrimônio recuar 6,9% no ano, os FIDCs cresciam 32,6%.
O que mudou: recorde de patrimônio e explosão da base de investidores
Os dados mais recentes da ANBIMA, referentes aos doze meses encerrados em novembro de 2025, mostram a magnitude da expansão: o patrimônio líquido do setor saltou 22,5% no período, atingindo R$ 741,1 bilhões. O número de contas de investidores mais que dobrou, de 147,3 mil para 333,7 mil (alta de 126%).
O destaque fica por conta do varejo. As contas de investidores de varejo saltaram de 2,4 mil para 34,3 mil, um crescimento de 1.329% no período, puxado justamente pela flexibilização regulatória da CVM. Investidores qualificados também avançaram (145,1%, para 239,7 mil contas), assim como os profissionais (55,2%, para 31,5 mil contas).
O apetite dos gestores acompanhou o movimento: o número de administradoras oferecendo FIDCs subiu de 372 para 426 (14,5%), e as classes de fundos passaram de 3 mil para 3,8 mil (26,7%), a maioria delas (2.697 classes) estruturada como fundos fechados.
No mercado de capitais como um todo, as ofertas públicas somaram R$ 838,8 bilhões em 2025, alta de 6,4% sobre os R$ 788,1 bilhões de 2024. Só os FIDCs captaram R$ 90,8 bilhões em 2025 (alta de 9,5% sobre 2024) e mantiveram o fôlego em 2026: em fevereiro, a captação líquida foi de R$ 221 milhões.
Análise: por que o setor não teme a queda da Selic
A Selic vem em trajetória de queda desde o início de 2026: partiu de 15% em janeiro, recuou para 14,75% em março, 14,50% em abril, 14,25% em junho e chegou a 14% em agosto, segundo decisões do Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central). Em um cenário histórico, juros mais baixos tendem a reduzir o apelo de produtos "CDI+". Especialistas do setor, no entanto, veem o movimento como favorável aos FIDCs.
"O crescimento da desbancarização e a própria legislação, que amadureceu com normativas regulatórias" explicam boa parte da expansão do setor, avalia Volnei Eyng, CEO da Multiplike, que também destaca a busca do investidor brasileiro por rentabilidade "CDI+".
Para Richard Ionescu, CEO da IOX Capital, a engenharia de acesso do varejo passa por fundos que investem em outros FIDCs. "O investidor PF geralmente entra via fundos que investem em outros FIDCs para facilitar a governança, evitando a necessidade de assembleias constantes com milhares de CPFs", explica. Ionescu também rebate a percepção de risco concentrado associada ao produto: "Diferente de uma debênture de uma grande varejista, onde você tem um risco concentrado, o FIDC bem gerido é pulverizado. Se um devedor tem problema, ele representa 2% ou 3% do fundo, o que é facilmente contornável".
Pedro Paulo Da Matta, CEO da Audax Capital, reforça que a maturidade do setor é o que sustenta o apetite mesmo com juros em queda: "O setor agora oferece operações de longo prazo, estruturadas e com garantias reais, mantendo-se competitivo mesmo com juros menores".
As faixas de rentabilidade buscadas por institucionais variam de CDI + 2% a CDI + 5%, a depender do apetite de risco e do lastro da carteira. Para a pessoa física, o FIDC funciona como um turbo de renda fixa que costuma ocupar até 30% da carteira, segundo Eyng.
Do lado da qualidade de crédito, um levantamento da Austin Rating com 103 FIDCs, entre 2025 e o início de 2026, mostra atrasos de até 15 dias entre 7,5% e 9% do patrimônio líquido dos fundos analisados, e inadimplência acima de 90 dias entre 3,5% e 5%. "O crescimento do patrimônio líquido não veio acompanhado de aumento proporcional do risco", aponta o relatório da agência de classificação de risco.
Perspectivas: crescimento sob monitoramento
A expectativa do mercado é que a trajetória de queda da Selic continue favorecendo o apetite por FIDCs, à medida que empresas buscam alternativas de crédito mais baratas que os bancos tradicionais e investidores seguem migrando parte da alocação de renda fixa tradicional para produtos de crédito estruturado.
Ao mesmo tempo, o ritmo acelerado de captação já chamou atenção de reguladores e agências de rating para dois pontos de vigilância: a qualidade da originação de crédito em um mercado que cresce rápido, e o risco de fraude em estruturas menos maduras, especialmente diante da entrada de investidores de varejo com menor experiência em due diligence de crédito privado. Para o gestor institucional, o desafio segue sendo o de diferenciar fundos com lastro sólido e governança madura daqueles que buscam apenas capturar o momento favorável do setor.
Fontes: Forbes (Mariana Félicio, "A Era de Ouro dos FIDCs", 09/04/2026)
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