FIDCs captam R$ 53,1 bi no semestre e assumem a liderança do crédito privado
Com R$ 53,1 bilhões captados em seis meses, os fundos de recebíveis ultrapassam CRIs e CRAs e se consolidam como o principal canal de crédito estruturado do país.

*Banco de Imagens Unsplash
Os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs, veículos que compram carteiras de recebíveis de empresas para transformá-las em cotas negociadas por investidores) fecharam o primeiro semestre de 2026 como o produto de maior captação líquida entre os instrumentos de securitização brasileiros. Segundo dados consolidados por Anbima e Uqbar, os fundos somaram R$ 53,1 bilhões em captações no período, alta de 29,4% na comparação com o mesmo intervalo de 2025, e passaram a responder por 73,4% do total captado entre os principais produtos do setor, superando Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs) e Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs).
O tamanho do mercado que virou um "novo banco"
O patrimônio líquido da indústria de FIDCs encerrou 2025 acima de R$ 833 bilhões, expansão de 30% em 12 meses, com emissões novas somando cerca de R$ 290 bilhões, 31% acima do registrado em 2024. O número de fundos em operação já soma quase 3,9 mil, praticamente o dobro do observado há poucos anos. Levantamento da Uqbar publicado em dezembro de 2025 mostrava o segmento em R$ 820,7 bilhões distribuídos por 3.729 fundos, o que confirma a trajetória de aceleração captada pelos números mais recentes.
Esse crescimento reforça um movimento que analistas do setor já chamam de mudança estrutural no financiamento corporativo brasileiro. Diferentemente de CRIs e CRAs, restritos a operações lastreadas em ativos imobiliários ou do agronegócio, o FIDC aceita direitos creditórios de praticamente qualquer setor econômico, o que lhe dá flexibilidade para financiar desde varejo e serviços até fintechs e empresas em recuperação judicial. Essa versatilidade, somada ao uso crescente de dados e inteligência artificial no monitoramento de carteiras, é apontada como o principal fator por trás da migração de capital para o produto.
O que mudou: mais captação e caminho livre na regulação
Dados da Anbima sobre o mercado de capitais em 2026 confirmam a tendência observada no consolidado semestral. Entre janeiro e maio, o total de ofertas no mercado de capitais brasileiro somou R$ 283 bilhões em 1.156 operações, alta de 14,1% em volume na comparação anual. Nesse total, os FIDCs captaram R$ 41,7 bilhões, crescimento de 36,5% frente ao mesmo período de 2025, ritmo superior ao de debêntures (que recuaram 5,9%) e atrás apenas de instrumentos ainda menores, como Fiagros (alta de 226,9%) e FIIs (alta de 136,9%).
O avanço também recebeu reforço regulatório. Em março de 2026, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) editou a Resolução 240, com ajustes pontuais no Anexo II da Resolução CVM 175 que rege os FIDCs. A norma dispensou a exigência de homologação judicial do plano de recuperação para que direitos creditórios de empresas em recuperação judicial ou extrajudicial possam ser enquadrados como padronizados, e revisou o tratamento dado à coobrigação assumida nessas cessões, deixando de classificá-la automaticamente como característica de crédito não padronizado. Na prática, a mudança reduz entraves para que empresas em reestruturação usem FIDCs como fonte de funding, ampliando o público originador do produto.
Análise: mercado entra em fase de maturidade, mas com atenção a riscos
"Estamos entrando em uma fase de maturidade do mercado financeiro brasileiro", avalia Richard Ionescu, CEO do Grupo IOX, ao comentar a consolidação dos FIDCs como alternativa relevante de crédito. Para Alfredo Marrucho, diretor de conteúdo da Uqbar, o ritmo de expansão deve seguir em 2026, ainda que com ajuste de velocidade: "o mercado de FIDC deve continuar se expandindo em 2026, talvez em um ritmo menor em vista de incertezas políticas".
Já Leonardo Andreoli, da Hike Capital, pondera que o cenário exige calibragem de expectativas por parte de gestores e cotistas: "o segmento tende a manter fôlego em crescimento de estoque e relevância, mas o novo ambiente pede calibragem de expectativa". A ponderação ganha peso diante de reportagem da Forbes Brasil que, ao noticiar nova rodada de captação do setor, alertou para o aumento de casos de fraude e inadimplência associado à expansão acelerada, tema que deve permanecer no radar de gestores de risco e da própria CVM ao longo do ano.
Perspectivas: rumo ao R$ 1 trilhão
Projeções compiladas pela Uqbar indicam que o patrimônio líquido dos FIDCs pode superar R$ 1 trilhão ainda em 2026 e chegar a R$ 2,584 trilhões até 2030, com o número de fundos saltando dos atuais milhares para cerca de 10,7 mil. Nesse cenário, a participação do produto na alocação total de renda fixa passaria de 2,5% em 2016 para 17,4% em 2030, enquanto a fatia da renda fixa tradicional recuaria de 48% para cerca de 23% no mesmo intervalo.
Para o investidor institucional e qualificado, o desafio passa a ser diferenciar operações bem estruturadas, com governança e transparência de carteira, daquelas que buscam apenas surfar o momento favorável do produto. Governança na formação do lastro, qualidade do originador e disciplina na gestão de cotas subordinada seguem como os pontos de atenção citados por gestores para navegar um mercado que, pela primeira vez, disputa protagonismo direto com o crédito bancário tradicional.
Fontes: Portal do Fomento, BRA1
FIDC NEWS
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