Fraude do Banco Master expõe falha de R$ 7,15 bilhões em consignados
Empresa de R$ 100 de capital social virou peça central para simular bilhões em créditos consignados e movimentar recursos entre Banco Master e BRB.

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A Polícia Federal detalhou o esquema que permitiu ao Banco Master simular R$ 7,155 bilhões em operações de crédito consignado usando uma empresa de fachada com capital social inicial de apenas R$ 100. O caso, que já resultou na liquidação da instituição pelo Banco Central e na prisão do controlador Daniel Vorcaro, acende um alerta sobre due diligence de lastro em operações de cessão de crédito, tema sensível para qualquer gestor ou estruturador que trabalhe com FIDC (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios).
O Banco Master saiu de R$ 3,7 bilhões em ativos em 2019 para R$ 82 bilhões em 2024, crescimento sustentado principalmente pela emissão de CDBs com rentabilidade de até 140% do CDI, muito acima da média de mercado, próxima de 100%. A captação era viabilizada pela cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), o que permitia à instituição atrair investidores de varejo mesmo operando com um modelo de negócio de alto risco.
Entre 2023 e 2024, segundo a Polícia Federal, o banco passou a usar uma triangulação envolvendo fundos de investimento para inflar artificialmente seus ativos. Seis fundos ligados ao esquema somavam R$ 102,4 bilhões em patrimônio declarado, valor que incluía ativos fictícios. Um exemplo citado nas investigações é o fundo High Tower, que declarava R$ 850 milhões em letras do extinto Besc (Banco do Estado de Santa Catarina) como se valessem R$ 10 bilhões. Esse histórico de inflação patrimonial é o pano de fundo que explica por que a operação com a empresa Tirreno, revelada agora, não é um caso isolado, mas parte de um padrão.
O fato central é a atuação da Tirreno Consultoria Promotora de Crédito e Participações S.A., criada em outubro de 2024 como SX 016 Empreendimentos e renomeada em dezembro do mesmo ano. A empresa tinha capital social de R$ 100, dos quais apenas R$ 10 foram efetivamente integralizados. Um aumento de capital alegado de R$ 30 milhões nunca foi comprovado pelos investigadores.
Segundo a Polícia Federal, a Tirreno não possuía funcionários, estrutura operacional ou movimentação bancária compatível com o volume de negócios que aparecia em seu nome. Ainda assim, ela figurou como intermediária em 28 cessões de crédito assinadas entre 24 de dezembro de 2024 e 14 de maio de 2025, incluindo um único contrato de R$ 6,34 bilhões. Ao todo, mais de 1 milhão de contratos de consignado foram lançados internamente pelo Banco Master sem que o dinheiro correspondente fosse de fato transferido, numa espécie de "fábrica de documentos" para simular lastro.
Essas carteiras, com valor total simulado de R$ 7,155 bilhões, foram posteriormente revendidas ao Banco de Brasília (BRB). Os investigadores identificaram transferências do Master ao BRB somando R$ 12,2 bilhões entre janeiro e maio de 2025, cobrando um prêmio de R$ 5,5 bilhões sobre o valor de face das carteiras, o equivalente a 30% dos bens do banco público na operação. A checagem de CPFs de supostos devedores não encontrou correspondência real em parte da amostra analisada pelo Banco Central, e a formalização cartorial dos contratos ocorreu de forma concentrada em apenas dois dias, um padrão que os investigadores classificam como anomalia relevante.
O Banco Master foi liquidado extrajudicialmente pelo Banco Central em novembro de 2025. À época da intervenção, uma instituição com R$ 80 bilhões em ativos totais, que deveria manter de R$ 3 bilhões a R$ 4 bilhões em liquidez, tinha apenas R$ 4 milhões em caixa, segundo o diretor de Fiscalização do BC, Ailton de Aquino. O caso integra a Operação Compliance Zero, e o ministro Edson Fachin, do STF, autorizou a quebra de sigilo dos envolvidos em 11 de setembro de 2026.
Para o mercado de FIDC, o episódio reforça um ponto sensível da estruturação de fundos que compram direitos creditórios: a qualidade e a verificação do lastro dos ativos cedidos. "Um banco de R$ 80 bilhões de ativos totais tem liquidez de R$ 3 bilhões a R$ 4 bilhões em títulos livres. O Master, antes da liquidação, tinha só R$ 4 milhões em caixa", resumiu Ailton de Aquino, do Banco Central, ilustrando a distância entre o balanço declarado e a realidade operacional da instituição.
Analistas do mercado avaliam que o caso deve intensificar a pressão por processos de due diligence mais rigorosos em cessões de crédito consignado, especialmente em operações de grande volume concentradas em prazo curto, como ocorreu nos contratos assinados pela Tirreno. A ausência de estrutura operacional compatível com o volume de negócios, somada à concentração cartorial em dois dias, são justamente os tipos de sinal de alerta que comitês de crédito e estruturadores de FIDC costumam usar como filtro na avaliação de originadores e cedentes.
Paulo Henrique Costa, diretor afastado do BRB, estimou em R$ 5 bilhões o prejuízo do banco público na operação, número que dá dimensão ao risco de contraparte quando a verificação de lastro é insuficiente antes da aquisição de uma carteira de recebíveis.
O caso ainda tem desdobramentos em andamento. A CPI do INSS deve apurar a situação de 251 mil pensionistas sem comprovação de créditos consignados descontados, o que amplia o escopo da fraude para além da relação Master-BRB. O Banco Central abriu investigação interna sobre eventuais falhas de fiscalização que permitiram o crescimento acelerado do Master sem intervenção anterior, enquanto a Polícia Federal e o BC seguem apurando outras camadas do esquema.
Daniel Vorcaro nega irregularidades, afirmando que o banco não chegou a pagar "um real" à Tirreno e que a operação foi "interrompida e desfeita antes de ser concluída". Para o mercado de crédito privado, o episódio deve funcionar como referência negativa nos próximos processos de estruturação, reforçando a tendência já em curso de maior rigor na análise de originadores e na verificação de lastro por parte de gestores de FIDC e agências que atribuem rating a essas operações.
Fontes: Not Journal
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