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Fundos da Apex reduzem participação na CVC de 15% para 7,97% em meio à crise do grupo
A crise que envolve a Apex Partners ganhou mais um capítulo. Fundos ligados à gestora cortaram pela metade sua participação conjunta no capital da CVC (CVCB3), operadora de viagens listada na B3, e três deles zeraram completamente suas posições na companhia.

Contexto: uma gestora sob pressão
A Apex Partners vive, desde o início de agosto de 2026, um dos momentos mais delicados de sua história. O fundador da gestora, Fernando Cinelli, foi afastado da administração do grupo após a identificação do que a própria companhia classificou como "inconsistências financeiras". O episódio expôs fragilidades que já vinham sendo monitoradas pelo mercado, especialmente entre investidores institucionais e qualificados expostos a fundos de investimento em direitos creditórios (FIDCs) estruturados pela casa.
Entre os produtos mais afetados está um FIDC ligado à Apex que chegou a registrar 60% de inadimplência em sua carteira e acabou entrando em processo de liquidação. Some se a isso o fato de que a PwC, auditoria responsável pela análise de parte dos ativos, não conseguiu verificar 86% do patrimônio de um dos FIDCs da gestora, ficando sem base suficiente para emitir opinião sobre as demonstrações financeiras. A dívida total da Apex Partners, segundo apurações anteriores, soma R$ 985,6 milhões, valor que atinge tanto debêntures da Rhino quanto os fundos da família Carbyne.
É nesse cenário de estresse financeiro e questionamento sobre a gestão do grupo que a movimentação acionária na CVC precisa ser lida.
O fato central: venda de ações e saída de três fundos
Segundo comunicado divulgado pela própria CVC nesta sexta feira, 14 de agosto, os fundos ligados à Apex Partners reduziram sua participação conjunta na operadora de viagens de 15% para 7,97% do capital social, após uma sequência de vendas de ações.
Três veículos zeraram integralmente suas posições: Apex Vessel, Propósito Previdência Crédito Privado e BRM Carbyne Jaguar. Os três deixaram de constar como acionistas da CVC. Já o Carbyne Travel e o BRM Carbyne Voyage permaneceram na base acionária, detendo juntos 41,87 milhões de ações ordinárias da companhia.
O comunicado não detalha o volume financeiro movimentado nas operações, tampouco os preços pelos quais os papéis foram negociados. A ausência dessas informações limita a avaliação precisa do impacto financeiro da operação sobre o patrimônio dos fundos envolvidos, um ponto sensível para cotistas que acompanham de perto a exposição das carteiras a ativos ligados à Apex.
Vale destacar que os fundos Carbyne fazem parte do acordo de acionistas da CVC firmado em 2 de abril de 2026, instrumento que estabelece regras específicas sobre exercício de voto e sobre a compra e venda de valores mobiliários da companhia. Isso significa que qualquer movimentação relevante de participação dos veículos remanescentes tende a ter reflexos diretos sobre a governança da operadora de viagens.
Em manifestação enviada à própria CVC, os fundos afirmaram que a alteração na composição acionária tem como objetivo a realização de operações financeiras e que não possuem meta específica de participação na companhia. Os veículos também informaram não deter dados atualizados sobre a posição acionária hoje mantida por Fernando Cinelli, ex-fundador da gestora.
Análise: o mercado lê o movimento como reflexo direto da crise interna
Para o mercado de crédito privado, a redução de participação não pode ser dissociada do momento de turbulência vivido pela Apex Partners. Fundos sob pressão de resgates, litígios e questionamentos de auditoria tendem a buscar liquidez onde ela existe, e ações de uma companhia listada como a CVC oferecem justamente essa saída mais rápida em comparação a ativos de crédito privado menos líquidos, como cotas de FIDC.
A queda de cerca de 40% no valor das ações da CVC nos últimos 12 meses também compõe esse quadro. Vender participação em um ativo que já perdeu quase a metade do valor de mercado no período reforça a leitura de que a decisão pode estar mais associada à necessidade de caixa e reorganização de carteira do que a uma reavaliação estratégica sobre o negócio de viagens em si.
Some se a isso a disputa judicial movida por Fernando Cinelli, que ainda é acionista do grupo e ajuizou ação em Vitória para obrigar a holding e mais onze empresas ligadas à Apex a lhe entregar atas, contratos e e mails relacionados às operações que originaram a crise, incluindo justamente a participação na CVC, as debêntures da Rhino e o fundo Carbyne. Em nota, o grupo rebateu a narrativa de concentração de poder, afirmando que "a administração do Grupo Apex, na prática, sempre envolveu uma estrutura de decisão compartilhada que pode ser refletida nos comitês e grupos de trabalho, e nunca centralizada em uma ou duas pessoas".
Esse embate entre o fundador afastado e a atual administração da gestora é mais um elemento de incerteza para cotistas de FIDCs e demais veículos ligados à Apex, que já lidam com um cenário de inadimplência elevada em parte da carteira e limitações na verificação contábil dos ativos.
Perspectivas: o que monitorar daqui para frente
O desfecho da disputa judicial entre Fernando Cinelli e a atual gestão da Apex Partners deve ser um dos pontos centrais de acompanhamento nas próximas semanas. Caso o ex-fundador obtenha acesso a atas, contratos e comunicações internas, novos detalhes sobre a origem das inconsistências financeiras podem vir à tona, com potencial de afetar ainda mais a confiança de investidores em produtos estruturados pela casa.
No campo societário da CVC, resta observar se o Carbyne Travel e o BRM Carbyne Voyage, únicos veículos remanescentes na base acionária, também reduzirão posição nos próximos meses, e se essa movimentação será interpretada pelo mercado como sinal de necessidade de liquidez adicional por parte da Apex.
Para o universo de FIDCs, o episódio reforça um alerta que já vinha sendo discutido entre gestores e consultores de investimento: a importância de acompanhar de perto não apenas a performance dos créditos que lastreiam as cotas, mas também a saúde financeira e a governança da gestora responsável pela estruturação e administração dos fundos. Casos como o da Apex Partners tendem a intensificar a exigência de due diligence mais rigorosa por parte de investidores institucionais na escolha de administradores e gestores de FIDC.
Fonte: Estadão / E-Investidor, "Fundos ligados à Apex cortam pela metade participação na CVC; três zeram posição", por Marília Almeida, 14/08/2026
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