Havanna pede recuperação extrajudicial no Brasil com dívida de R$ 127 milhões
A rede de cafeterias argentina Havanna, controlada pelo empresário Marcos Rothenberg, entrou com pedido de recuperação extrajudicial no Brasil ao final de 2025. O processo tramita na 1ª Vara Regional de Competência Empresarial de São Paulo e envolve seis empresas do grupo, entre elas a DGA Doces Del Plata, que administra as franquias, e a Café Del Plata, responsável pela operação das lojas com a marca Havanna. A dívida total em negociação soma R$ 127 milhões.

Contexto: do balcão em shopping ao modelo de franquias
A Havanna nasceu em 1939 em Mar del Plata, na Argentina, e chegou ao Brasil em 2006, inicialmente em formato de quiosques dentro de shoppings. Com o tempo, a marca migrou para o modelo de cafeteria com atendimento à mesa e, a partir de 2014, passou a operar por franquias. O cardápio somou itens locais, como pão de queijo e coxinha, aos produtos tradicionais argentinos, e em 2025 a empresa lançou a Heladeria Havanna, unidade de sorveteria, além de produtos para varejo.
Hoje a operação brasileira soma mais de 250 unidades entre cafeterias, quiosques e sorveterias, concentradas nas regiões Sudeste e Sul, e representa a segunda maior operação da marca no mundo, atrás apenas da própria Argentina. O faturamento estimado para 2025 é de aproximadamente R$ 420 milhões. Mesmo em recuperação, a empresa mantém a meta de chegar a 700 pontos de venda até 2030, com mais de 30 novas unidades previstas para o primeiro semestre de 2026.
O que mudou: dívida da pandemia encontra juros de dois dígitos
Segundo a petição do grupo, a origem do problema está nos juros altos sobre dívidas contraídas durante a pandemia, quando a taxa Selic estava abaixo de 3% ao ano. Com a alta da taxa para 12% em 2023 e 2024, o custo dessas obrigações cresceu de forma significativa. O quadro foi agravado pela situação da Fragrance, marca de perfumes do mesmo grupo, que tem mais de 90% das lojas em shopping centers, segmento que perdeu movimento durante o período de quarentena e não recuperou o fluxo anterior na mesma velocidade.
Entre os principais credores estão o Explorer Fundo de Investimento, com R$ 45,8 milhões a receber, a EDEC Comércio de Perfumes e Cosméticos, com R$ 16 milhões, e a Multiplica Long Term, com R$ 12,1 milhões. A Top Cau, indústria de chocolates, cobra R$ 4.183.987,26 em notas fiscais não pagas e move uma ação de falência contra a Havanna Brasil, ainda pendente de julgamento.
O plano apresentado pelo grupo prevê deságio de 95% para os credores concursais, ou seja, esses credores receberiam apenas 5% do valor original de suas dívidas. A quitação seria feita em doze meses de carência seguidos por dez parcelas anuais, corrigidas pela TR mais 1% ao ano. Para atrair recursos novos durante o processo, a empresa oferece um financiamento DIP (debtor in possession, mecanismo que dá prioridade de pagamento a quem injeta capital durante a recuperação) de até R$ 2,5 milhões, com remuneração de CDI mais 9% ao ano e pagamento integral para quem aportar.
Análise: o risco de concentração setorial em crédito privado
Para gestores de fundos expostos a crédito corporativo de varejo e franquias, o caso Havanna ilustra um risco já conhecido, mas que voltou a ganhar peso com o ciclo de juros mais alto. "Empresas que se financiaram na janela de Selic baixa e têm parte relevante da receita em shopping centers carregam hoje um descasamento de custo e de fluxo de caixa que pode se tornar insustentável", avalia um gestor de recuperação de crédito que acompanha o setor de franquias.
O deságio de 95% proposto aos credores concursais também chama atenção pelo tamanho. Operações desse porte tendem a pressionar carteiras que tenham exposição direta a esse tipo de recebível, especialmente veículos que compraram direitos creditórios ou papéis ligados às empresas do grupo. A mecânica de consolidação substancial, que trata as seis empresas do grupo como uma unidade única para fins de negociação com credores, tende a ser o ponto mais discutido entre os credores no processo, já que redistribui o peso da dívida entre companhias com situações operacionais distintas.
Perspectivas: operação segue, mas processo ainda começa
Em comunicado enviado à imprensa, a Havanna afirmou que o pedido foi motivado por obrigações contratadas por outras empresas do grupo acionista e que não afeta as questões operacionais ou financeiras da Havanna Brasil, que figura no processo como solidária nas obrigações do grupo. A empresa manteve o plano de expansão para 2026 e a meta de 700 lojas até 2030.
O plano de recuperação deve ser apresentado formalmente no primeiro semestre de 2026. A partir daí, os credores concursais, com destaque para o Explorer Fundo de Investimento e a Multiplica Long Term, terão que decidir entre aceitar o deságio proposto ou buscar alternativas judiciais, como já fez a Top Cau com o pedido de falência ainda em curso. O desfecho da negociação deve ser um termômetro relevante para quem monitora crédito ligado a redes de franquia e varejo físico dependente de shopping centers no país.
Fontes: Exame, "Exclusivo: Havanna está em recuperação extrajudicial no Brasil" (3 de agosto de 2026)
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