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MercadoInflação

IGP-DI (+1,50%): Inflação pode ganhar até 0,25 p.p. em 2027 e limitar cortes da Selic

"Isso significaria algo próximo de 0,15 a 0,20 ponto percentual de pressão adicional sobre o IPCA de 2027, levando uma projeção hoje ao redor de 3,9% para a região de 4,05% a 4,10%, caso a pressão persista e não seja compensada por atividade mais fraca", Gustavo Assis, CEO da Asset.

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   “A principal mensagem do IGP-DI está no reaparecimento de pressões de custos no início da cadeia produtiva. Isso recoloca as empresas diante de uma escolha importante: absorver parte desses aumentos nas margens ou tentar repassá-los aos preços. Como a demanda doméstica já mostra sinais de desaceleração, esse repasse tende a ser mais difícil e desigual entre os setores. O câmbio será decisivo nesse processo. A reação positiva dos ativos após o primeiro turno ajudou a aliviar parte da pressão sobre custos dolarizados, mas a continuidade desse movimento dependerá principalmente da percepção sobre a política fiscal. Um ambiente de maior previsibilidade pode ajudar a conter custos de equipamentos, tecnologia, combustíveis e insumos importados. O contrário também é verdadeiro. Para o venture capital, isso importa porque o custo de capital não depende apenas da Selic. Com juros elevados também no exterior, os investidores ficam mais seletivos e exigem negócios mais eficientes. Empresas com receita, margens mais claras e menor necessidade de caixa tendem a ganhar espaço. Se o Brasil conseguir combinar melhora fiscal, câmbio mais estável e inflação em desaceleração, a redução do prêmio de risco pode ser tão relevante para as startups quanto a própria queda dos juros”, Antônio Patrus, CEO da Bossa Invest.

     “O IGP-DI de setembro adiciona um novo ponto de atenção para o mercado em 2027. Mais importante do que a alta isolada do índice é entender se essa pressão ficará concentrada no atacado ou começará a aparecer de forma mais persistente também no consumidor. Se esse movimento ganhar força, a discussão deixa de ser apenas sobre inflação corrente e passa a envolver a velocidade de convergência para a meta. Nesse cenário, câmbio e eleições passam a ter peso maior. A reação positiva do mercado após o primeiro turno reduziu parte do prêmio de risco, mas agora o foco se desloca para a política econômica e, principalmente, para o fiscal. Uma piora nas expectativas pode pressionar o real e dificultar o processo de desinflação. Isso também muda a leitura sobre a Selic. A questão deixa de ser apenas quanto os juros podem cair e passa a ser com que velocidade esse movimento poderá acontecer, especialmente com o ambiente externo ainda restritivo. Para os fundos, isso tende a exigir mais seletividade, mas continua abrindo espaço para oportunidades em crédito, renda fixa e estruturas indexadas”, Edgar Araújo, CEO da Azumi Investimentos.

     “O efeito mais relevante da alta do IGP-DI para a economia real passa pelo crédito. A inflação de atacado pode demorar meses para aparecer no IPCA, mas a curva de juros reage praticamente em tempo real quando há risco de repasse. Considerando a desaceleração atual do consumo, seria exagerado projetar transmissão integral do salto observado em setembro. Um cenário central seria algo entre 10% e 16% da aceleração de 1,44 ponto, o equivalente a aproximadamente 0,14 a 0,23 ponto percentual sobre o IPCA de 2027. É suficiente para deslocar uma inflação projetada em 3,9% para perto ou acima de 4,0%, caso a pressão se prolongue. A consequência é que a queda da Selic pode continuar, mas provavelmente terá de conviver com juros reais elevados por mais tempo. A própria Fazenda reduziu a projeção de crescimento de 2027 para 2,3%, citando uma flexibilização monetária mais gradual, enquanto economistas consultados pelo Banco Central projetavam expansão pouco superior a 1,4%. Reuters Isso mostra o tamanho do canal financeiro: quando o custo do dinheiro demora a cair, consumo financiado, construção, capital de giro e investimentos respondem com atraso. O segundo turno pode mudar essa dinâmica pelo câmbio. Um programa fiscal percebido como sustentável reduz prêmio de risco, fortalece a moeda e diminui parte da inflação importada. Já uma deterioração das expectativas faz o caminho inverso e aumenta o custo de produtos, fertilizantes, máquinas e matérias-primas dolarizadas. Nesse ambiente, ganha importância a estrutura da dívida, e não apenas sua taxa nominal. Operações com garantia, prazos compatíveis com a geração de caixa e planejamento de amortização podem permitir que empresas e famílias atravessem um período de juros ainda altos sem precisar esperar a Selic chegar ao piso do ciclo para retomar projetos”, Alberto Friggi, CEO da Friggi & Secco.

     “O IGP-DI acelerou bastante, de 0,06% para 1,50%, mas o principal movimento veio do atacado. O IPA subiu 1,95%, puxado principalmente por commodities e combustíveis, enquanto o núcleo do IPC ficou mais comportado. Por isso, eu não transferiria automaticamente esse resultado para o consumidor. Se essa pressão no atacado persistir por alguns meses, vejo um risco adicional de aproximadamente 0,1 a 0,2 ponto percentual para o IPCA de 2027. Entre os turnos, o fiscal pode influenciar principalmente câmbio e juros longos. Se houver melhora na percepção sobre a trajetória da dívida, o real pode continuar ajudando a conter a inflação. Se ocorrer o contrário, uma desvalorização cambial tende a aumentar o repasse de custos e dificultar o trabalho do Banco Central. Eu ainda não mudaria a expectativa para os próximos cortes apenas pelo IGP-DI de setembro. Mas o espaço ficou mais sensível aos próximos dados. Se alimentos, serviços, expectativas e câmbio piorarem ao mesmo tempo, o Copom pode reduzir o ritmo dos cortes ou manter os juros elevados por mais tempo. Isso atrasaria a recuperação do crédito, do consumo e, principalmente, dos investimentos em 2027. Depois da eleição, o mercado deve rever as apostas menos pelo resultado político em si e mais pelo que aparecer de concreto sobre fiscal, inflação e trajetória da dívida”, Valdir Piran Jr., CEO do Intra.

     “O salto do IGP-DI de 0,06% para 1,50% muda a leitura porque ocorre justamente quando o Banco Central começava a encontrar espaço para reduzir gradualmente a Selic. Não é razoável assumir que os 1,44 ponto percentual de aceleração serão transferidos integralmente ao consumidor. Considerando a origem predominantemente atacadista do índice e o enfraquecimento da atividade, uma estimativa razoável é que entre 10% e 15% desse choque adicional encontre caminho até os preços ao consumidor ao longo dos próximos trimestres. Isso significaria algo próximo de 0,15 a 0,20 ponto percentual de pressão adicional sobre o IPCA de 2027, levando uma projeção hoje ao redor de 3,9% para a região de 4,05% a 4,10%, caso a pressão persista e não seja compensada por atividade mais fraca. O ponto decisivo entre os turnos será o fiscal. O mercado reagiu fortemente ao primeiro turno, com a Bolsa subindo 7,7% em um único pregão, para recorde acima de 206 mil pontos, e valorização expressiva do real, porque passou a atribuir maior probabilidade a um cenário de disciplina fiscal e reformas. Mas essa melhora só reduz inflação se permanecer no câmbio e na curva de juros. Se as propostas fiscais apresentadas nas próximas semanas forem percebidas como críveis, um real mais valorizado pode absorver parte da alta de commodities e insumos importados. Se ocorrer o contrário, câmbio, petróleo acima de US$ 100 e inflação no atacado podem operar simultaneamente na mesma direção. Por isso, não parece necessário abandonar a tese de queda da Selic, mas provavelmente será necessário rever a velocidade. O BC já trabalha com inflação de 3,9% em 2027, acima da meta de 3%, e a economia internacional voltou a apresentar juros longos muito elevados. Um cenário de IPCA próximo de 4,1%, combinado com risco fiscal, pode transformar cortes de 0,25 ponto em movimentos mais espaçados. Esse é o canal que chega ao consumo e ao investimento. Quanto mais tempo a taxa real permanecer elevada, maior será o adiamento de decisões de crédito, aquisição de bens duráveis e expansão empresarial. O mercado não precisa necessariamente eliminar as apostas em juros menores depois das eleições, mas terá de condicionar essa trajetória à combinação entre fiscal, câmbio e inflação, e não apenas ao resultado eleitoral”, Gustavo Assis, CEO da Asset.

     “O IGP-DI mostra uma pressão de custos que pode chegar às empresas antes de aparecer integralmente nas estatísticas de inflação ao consumidor. Essa diferença é importante. Em setembro, o IGP-10 mostrou aumento de 3,91% nas matérias-primas brutas, ao mesmo tempo em que as pressões globais sobre cadeias de suprimentos voltaram a crescer: o índice do Fed de Nova York subiu de 1,20 para 1,28 em setembro. Portanto, parte da inflação brasileira não está ligada apenas à demanda interna, mas também ao custo de produzir, transportar e financiar estoques. Num cenário em que empresas absorvam boa parte desses custos para preservar vendas, o repasse da aceleração do IGP-DI pode ficar na faixa de 7% a 12%, acrescentando aproximadamente 0,10 a 0,17 ponto percentual ao IPCA de 2027. Porém, se o câmbio se depreciar durante o segundo turno e o petróleo continuar acima de US$ 100, esse intervalo pode se aproximar de 0,20 a 0,25 ponto percentual. Isso ocorre porque câmbio e energia atingem vários pontos da cadeia simultaneamente, de frete e embalagens a insumos industriais e capital de giro. Esse processo também muda a gestão financeira das empresas. Selic de 13,75% significa que caixa parado, prazo de recebimento e necessidade de financiamento têm peso muito maior sobre a rentabilidade do que teriam em um ambiente de juros baixos. Se o Banco Central reduzir o ritmo de cortes após as eleições, a recuperação da atividade pode se tornar mais desigual. Empresas capazes de encurtar ciclos financeiros, financiar clientes ou fornecedores e capturar receita dentro de suas próprias operações passam a ter uma ferramenta adicional para administrar a transição. Nesse sentido, juros altos não afetam apenas o custo do crédito. Eles tornam a arquitetura financeira do negócio uma variável estratégica”, Letícia Moschioni, sócia da Finscale.

     “O IGP-DI acelerou para 1,50% em setembro, puxado principalmente pelo atacado, com destaque para commodities agrícolas e combustíveis. O dado, isoladamente, ainda não indica uma pressão disseminada sobre a inflação ao consumidor. O principal risco é o repasse desses custos para os preços finais, que caso persista, pode reduzir o ritmo de desinflação. Para o Banco Central, o resultado não deve interromper os cortes da Selic, mas pode limitar a velocidade da flexibilização. Já a questão eleitoral não tende a ter efeito relevante sobre a inflação no curto prazo. Seu impacto ocorre principalmente via expectativas fiscais, câmbio e curva de juros, podendo alterar as condições financeiras e a trajetória da inflação mais à frente”, Cassio Viana de Jesus, CIO da Pilar Capital.

     “O Brasil enfrenta hoje duas forças opostas. Internamente, o resultado do primeiro turno reduziu abruptamente o prêmio de risco dos ativos, com alta de 7,7% da Bolsa e forte valorização do real. Externamente, porém, as condições financeiras ficaram mais duras: o Treasury americano de 30 anos chegou a 5,70%, o petróleo voltou para aproximadamente US$ 101,50 e o dólar global permanece forte. É nesse conflito que deve ser interpretada a aceleração do IGP-DI para 1,50%. Se o choque de setembro for majoritariamente de commodities e matérias-primas, parte dele tende a dissipar antes de atingir o consumidor. Um repasse de 10% a 15% da aceleração de 1,44 ponto percentual produziria algo entre 0,14 e 0,22 ponto de inflação adicional, colocando o IPCA de 2027 na faixa de aproximadamente 4,0% a 4,1% a partir da projeção de 3,9% usada pelo Banco Central. O risco é a combinação entre petróleo e câmbio. Se o real perder a valorização observada após o primeiro turno, o Brasil passa a importar parte da inflação global justamente quando os preços no atacado doméstico estão reacelerando. Isso limita a possibilidade de o mercado projetar uma queda muito agressiva dos juros apenas com base no resultado eleitoral. Há um segundo preço a ser observado, que é o custo do dinheiro em dólar. Com os Treasuries oferecendo retornos historicamente elevados, o diferencial de juros necessário para manter capital em emergentes tende a permanecer alto. A eleição pode reduzir o prêmio fiscal brasileiro, mas não controla a curva americana. Por isso, o cenário mais consistente é de Selic ainda em queda, porém de maneira mais gradual. Para o investidor brasileiro, isso reforça a importância da diversificação internacional e da exposição a ativos dolarizados não como uma aposta eleitoral de curto prazo, mas como forma de reduzir a dependência de um único ciclo de juros, moeda e política econômica”, Fábio Murad, consultor da Wiser Asset.

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