Interoperabilidade é a chave para o sucesso da duplicata escritural no Brasil

Pesquisa da Núclea aponta que mais de 60% do mercado vê coordenação entre participantes e maturidade tecnológica como fatores decisivos para o funcionamento do novo ecossistema de recebíveis, que entra em operação nesta terça-feira (30/06) sob supervisão do Banco Central.
O momento histórico para o crédito corporativoO Brasil inaugura nesta terça-feira (30/06/2026) um novo capítulo na infraestrutura do crédito corporativo. O Banco Central (BC) lança oficialmente o ecossistema da duplicata escritural, instrumento que promete modernizar a circulação de recebíveis no país e abrir espaço para um mercado com potencial de trilhões de reais em volume negociado.
A duplicata escritural é uma versão eletrônica e registrada da tradicional duplicata mercantil, título de crédito utilizado por empresas para antecipar recebíveis junto a instituições financeiras. No novo modelo, as informações que antes circulavam de forma fragmentada e analógica passam a ser registradas em registradoras credenciadas, com rastreabilidade, padronização e integração entre sistemas. O objetivo é dar ao mercado financeiro uma visão consolidada e confiável dos recebíveis corporativos, ampliando o acesso ao crédito e reduzindo a assimetria de informações.
Para dar dimensão ao tamanho do mercado envolvido, o ecossistema conta com aproximadamente 1,5 milhão de empresas emissoras e mais de 18 mil grandes empresas sacadoras. Trata-se, portanto, de uma reforma estrutural no coração do crédito empresarial brasileiro.
O que o mercado pensa sobre o novo modeloÀs vésperas do lançamento, a Núclea, em parceria com o IBPad e a Môre Consultoria, divulgou os resultados da "Pesquisa de Duplicatas 2026", conduzida em fevereiro deste ano com instituições financeiras, empresas e associações do setor. O levantamento oferece um retrato claro das expectativas e preocupações dos principais agentes do ecossistema.
O dado mais expressivo: mais de 60% dos respondentes apontaram a coordenação entre os diferentes participantes do mercado e o avanço tecnológico como fatores decisivos para o sucesso da duplicata escritural. Em outras palavras, o mercado não acredita que a simples existência do marco regulatório seja suficiente. A adoção plena depende de um esforço coletivo de integração.
Outro número revelador é o de que 82% das instituições financeiras consultadas, entre bancos, cooperativas de crédito e empresas de varejo financeiro, já tratam a duplicata escritural como um tema estratégico. Além disso, essas organizações relatam possuir um roadmap estruturado, ou ao menos parcialmente estruturado, para atuar no novo modelo. Isso indica que o setor financeiro não está apenas observando a mudança: está ativamente se preparando para ela.
Por que a interoperabilidade concentra as atençõesO conceito que domina o debate do setor é a interoperabilidade. Na prática, ela representa a capacidade de diferentes sistemas, bancos, registradoras, empresas e demais participantes, trocarem informações de forma padronizada e fluida, sem barreiras técnicas ou informacionais.
A pesquisa aponta a interoperabilidade como um dos principais fatores para o bom funcionamento do novo ecossistema. Ela é entendida não apenas como um requisito técnico, mas como uma camada de governança que define se o modelo vai, de fato, funcionar em escala.
"A interoperabilidade passa a ser uma camada central da nova infraestrutura do crédito corporativo. O mercado entende que o sucesso da duplicata escritural dependerá diretamente da capacidade de integração entre sistemas, registradoras, participantes e fluxos operacionais", afirma Rodrigo Furiato, vice-presidente de negócios da Núclea.
A lógica é simples: se cada registradora ou instituição financeira operar em um padrão próprio, o ecossistema se torna fragmentado e a promessa de rastreabilidade e transparência não se concretiza. Foi exatamente esse tipo de fricção que gerou desafios no mercado de recebíveis de cartões, experiência que ainda pesa na percepção de risco de parte dos participantes consultados.
Os desafios pela frenteA pesquisa não esconde os pontos de atenção. As principais preocupações do mercado se concentram na integração técnica entre sistemas, nos processos de liquidação e conciliação financeira, e na realização de testes operacionais em escala. Esses três aspectos, segundo o levantamento, concentrarão os maiores desafios da fase de implementação.
A comparação com o mercado de recebíveis de cartões é recorrente entre os especialistas. Naquele caso, a transição para um modelo de registro obrigatório enfrentou ruídos operacionais relevantes nos primeiros meses, especialmente em conciliação e liquidação. O aprendizado dessa experiência é que a coordenação prévia entre participantes e a padronização de fluxos são condições inegociáveis para uma implantação bem-sucedida.
O novo modelo chega com vantagem em relação ao passado: há mais maturidade tecnológica no sistema financeiro, maior disponibilidade de APIs abertas e um histórico regulatório que já ensinou ao mercado a importância de um cronograma bem estruturado. Ainda assim, os participantes da pesquisa sinalizam que a execução exigirá atenção redobrada nos primeiros meses.
Perspectivas e impacto para o mercado de recebíveisA duplicata escritural tem potencial de destravar um volume expressivo de recebíveis que hoje não circula de forma eficiente no mercado. Ao padronizar e registrar esses títulos, o novo modelo torna possível que empresas de menor porte acessem linhas de crédito mais competitivas, usando como garantia recebíveis que antes ficavam presos em relações bilaterais com um único banco.
Para o mercado de FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios) e para as operações de securitização de crédito corporativo, o impacto pode ser significativo. A maior rastreabilidade dos títulos reduz o risco de fraude, amplia a qualidade da informação disponível para análise e tende a favorecer a estruturação de operações com ativos de recebíveis empresariais.
A expectativa dos participantes da pesquisa é que o novo ecossistema promova um ambiente mais conectado, transparente e integrado. Para que essa expectativa se converta em realidade, no entanto, o setor sabe que o trabalho começa agora, com o lançamento oficial do BC, e não termina nele.
Fontes: Pesquisa de Duplicatas 2026 (Núclea, IBPad e Môre Consultoria); Finsiders Brasil (29/06/2026)
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O .fidcnews é um veículo digital focado em notícias e análises sobre Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs), com o propósito de tornar acessíveis os dados e tendências do mercado de crédito estruturado.
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