Juros altos e crédito restrito reaquecem mercado de fundos estressados

André Fernandez e Luiz Felipe Terra Favieri, sócios e cofundadores da LAD Capital
Crédito: Divulgação
O aperto persistente no custo do crédito e o maior escrutínio sobre gestores e administradores de fundos têm reaberto espaço para um segmento que parecia adormecido nos últimos anos: o dos fundos estressados. Para a LAD Capital, gestora independente com R$ 2,5 bilhões sob gestão, o movimento reflete uma reorganização mais ampla da indústria de fundos brasileira.
Uma gestora que nasceu para lidar com ativos complexosFundada em 2017, a LAD Capital nasceu com foco em distressed assets (ativos em situação de estresse financeiro ou operacional), expressão que, segundo os sócios, inspirou o próprio nome da empresa: Latin American Distressed. Com o amadurecimento da operação, o escritório ampliou a atuação para fundos patrimoniais, private equity e estruturas voltadas ao desenvolvimento de empresas, sem abandonar a experiência acumulada em ativos mais complexos.
Essa trajetória volta a ganhar relevância diante das mudanças pelas quais passa o mercado. Segundo André Fernandez e Luiz Felipe Terra Favieri, sócios e cofundadores da LAD Capital, a história recente de fundos e gestoras em liquidação mostra um movimento de depuração da indústria. "Esse ajuste de agentes que estão saindo com problemas nos abre um mapa de oportunidades interessantes", diz Fernandez. "Existem ativos e cotistas à procura de outras casas. Isso aumenta a oferta de fundos para nós e para o mercado."
Atualmente, a gestora acompanha 50 empresas investidas em diferentes setores da economia e afirma ter voltado a ser procurada para assumir fundos em situações complexas, muitas vezes não por problemas relacionados aos próprios ativos, mas por dificuldades na estrutura de gestão ou administração dos veículos.
O que mudou: especialização volta a ser exigidaLuiz Felipe Terra Favieri, que também atua como diretor de Riscos e Compliance da LAD, conta que a primeira fase da gestora foi marcada pela recuperação de fundos com dificuldades operacionais e estruturas que precisavam ser reorganizadas. Ao longo dos anos, a casa passou a estruturar novos Fundos de Investimento em Participações (FIPs, veículos usados para investir em participações societárias de empresas) e fundos patrimoniais para grupos empresariais, ampliando sua atuação em private equity.
Segundo o executivo, assumir um fundo estressado exige mais do que substituir um gestor. "Quando a gente chega em um fundo estressado, tem que romper um pouco com o passado e criar uma tese nova", afirma. "Ainda que a conclusão seja parecida com a anterior, é preciso reconstruir toda a lógica do investimento."
Fernandez, que também é diretor da área de Recursos de Terceiros da LAD, destaca que a dupla habilitação da gestora junto à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), como gestora e administradora fiduciária, ajudou a consolidar esse posicionamento, principalmente em operações nas quais a liquidação do fundo poderia destruir valor para investidores e empresas investidas. "Liquidar fundo não é sadio para o sistema", ressalta.
O ambiente macroeconômico segue impondo dificuldades para empresas que dependem de capital para crescer. Apesar do início discreto do ciclo de redução da taxa de juros, o custo do crédito permanece elevado e limita novas captações. "O governo concorre com as empresas porque a Selic está lá em cima", diz Favieri. "As empresas estão alavancadas e precisam de dinheiro. Não existe mais compra de equity, quase, no Brasil. Não tem IPO."
Segundo ele, esse cenário tem levado empresas a buscar alternativas de financiamento por meio de FIPs, estruturas proprietárias e outras soluções do mercado de capitais. A dificuldade, avalia a gestora, já alcança companhias de grande porte. "Recentemente, fizemos reunião com uma empresa que fatura R$ 6 bilhões. Mesmo sendo uma operação enorme, ela encontra dificuldade para captação em bancos", relata Favieri.
A percepção também aparece nas conversas que a LAD mantém com investidores internacionais. A gestora promove encontros periódicos em Portugal para apresentar oportunidades do mercado brasileiro, mas o interesse esbarra em dúvidas sobre previsibilidade e segurança jurídica. "O Brasil tem muita oportunidade, mas está complicado para o investidor de fora", afirma Favieri, acrescentando que estrangeiros têm dificuldade de entender o ambiente regulatório: "quando eles vêm confiando em uma casa que acaba envolvida em problemas, isso queima o mercado."
Análise: fusões mais estratégicas e governança como filtroApesar do cenário desafiador, oportunidades de fusões e aquisições (M&A) continuam sendo acompanhadas de perto por empresas estrangeiras e brasileiras. Os sócios avaliam que o mercado de M&A segue ativo, mas com um perfil diferente do observado em ciclos anteriores de expansão: menos oportunista e mais voltado ao fortalecimento operacional das empresas. "As fusões hoje são estratégicas. Empresas do mesmo setor ou complementares estão se juntando para ganhar força", afirma Favieri, citando a fusão entre Petz e Cobasi como exemplo do movimento: "cada uma sozinha estaria morta. Hoje, as duas juntas têm uma eficiência melhor."
A necessidade de preservar margens e fortalecer a estrutura de capital também estimula a verticalização de cadeias produtivas. "Quem tem caixa pode adquirir um concorrente, um fornecedor ou um distribuidor", diz Favieri. "As margens estão cada vez menores e isso cria oportunidades."
Para operações de M&A, e também para a escolha das empresas em que a própria LAD investe, a governança passa por um crivo cada vez mais rigoroso. "Hoje, a gente subiu muito a régua. Quando olhamos uma empresa para investir, governança é o principal ponto", afirma Fernandez. "Mais do que nunca, governança e compliance", complementa, explicando que a gestora busca empresas auditadas, com estrutura societária organizada e controles capazes de reduzir riscos para investidores e demais envolvidos.
Perspectivas: resistência de empresários deve ceder ao aperto de créditoNa outra ponta dos negócios, muitos empresários ainda demonstram resistência à entrada de fundos de investimento por receio de perder autonomia. Segundo os sócios da LAD, esse comportamento tende a mudar à medida que o acesso ao crédito se torna mais restrito e a necessidade de profissionalização aumenta.
Os executivos não acreditam em uma mudança rápida do cenário para empresas dependentes do mercado de capitais, mas apostam que a reorganização em curso na indústria de fundos deve seguir produzindo oportunidades para gestoras especializadas. O reaquecimento dos ativos estressados é um exemplo desse processo. "Esse ajuste do mercado vai abrir uma oportunidade importante para quem sabe fazer esse trabalho", completa Favieri.
Fonte: Capital Aberto, "Fundos estressados voltam ao radar da LAD Capital", 3 de julho de 2026.
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