Light encerra recuperação judicial e reduz dívida líquida pela metade
Depois de mais de três anos sob supervisão judicial, distribuidora conclui reestruturação de R$ 10 bilhões e reabre acesso ao mercado de crédito.

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A Justiça do Rio de Janeiro decretou, em 9 de setembro, o fim da recuperação judicial da Light, processo que durou mais de três anos e reestruturou cerca de R$ 10 bilhões em dívidas da distribuidora de energia. Para o mercado de crédito privado, o caso encerra um dos maiores testes recentes de resiliência de instrumentos como debêntures e bonds emitidos por uma concessionária de infraestrutura brasileira.
Contexto: três anos sob supervisão judicial
A Light entrou com o pedido de recuperação judicial em maio de 2023, pressionada por uma dívida líquida então em torno de R$ 10 bilhões e por dificuldades operacionais que incluíam altos índices de perdas de energia (furto e inadimplência) no Rio de Janeiro. O plano de recuperação foi homologado em junho de 2024 e passou a ser executado sob acompanhamento da 3ª Vara Empresarial do Rio, sob a titularidade do juiz Leonardo de Castro Gomes.
Ao longo do processo, debenturistas, bondholders e bancos aprovaram em assembleia um plano que combinou conversão de dívida em ações, emissão de novos instrumentos e aporte de capital novo. Foram convertidos aproximadamente R$ 2,2 bilhões em dívida por ações, movimento que diluiu credores mas evitou uma liquidação que teria gerado perdas maiores para quem carregava papéis da companhia em carteiras de crédito estruturado.
O que mudou: dívida menor, capital reforçado e concessão renovada
O juiz responsável pelo caso reconheceu que a Light cumpriu as obrigações centrais do plano: pagamento dos novos instrumentos de dívida, entrega de debêntures aos credores, integralização de capital e repasse de recursos a credores em valores de até R$ 30 mil. Mesmo com pendências pontuais ainda em curso, a decisão avaliou que prolongar o processo geraria mais efeitos negativos do que benefícios, e determinou o encerramento.
Os números resultantes da reestruturação são o centro da notícia para investidores de crédito. A dívida líquida da companhia caiu de R$ 10 bilhões para R$ 5 bilhões, uma redução de 50%, enquanto a alavancagem recuou para menos de 3 vezes o Ebitda, com expectativa de cair abaixo de 2 vezes após a revisão tarifária prevista para março de 2027. Paralelamente, a Light aprovou um aumento de capital de R$ 1,5 bilhão via emissão privada de novas ações ordinárias, a R$ 6,29 por ação, elevando o capital social da companhia para R$ 6,973 bilhões. O CEO Alexandre Nogueira já havia sinalizado, em maio de 2026, que esse aporte seria "a última etapa da recuperação judicial".
Outro fator que destrava o caso é a renovação da concessão de distribuição no Rio de Janeiro, concluída em julho de 2026 por mais 30 anos, cobrindo 31 municípios e mais de 4 milhões de unidades consumidoras. Com o novo contrato, a companhia se comprometeu a investir R$ 10 bilhões até 2030, quase integralmente em distribuição, sendo R$ 1,7 bilhão apenas em 2026, incluindo R$ 300 milhões destinados à Ilha do Governador após a falha crítica de energia registrada em janeiro de 2024.
Análise: o que dizem os especialistas de crédito
A agência Fitch já havia reagido ao avanço do caso em agosto de 2026, elevando o rating nacional da Light de D (default) para BB, com perspectiva estável, e o rating global de D para B-. Para o mercado de dívida corporativa, o upgrade é o sinal mais direto de que o risco de crédito da companhia mudou de patamar: segundo a avaliação da agência, o spread exigido em novas captações da Light pode cair pela metade em relação ao praticado durante a recuperação judicial, ainda que o custo de financiamento deva seguir "significativamente mais alto que a média" do setor elétrico no curto prazo.
Para gestores de fundos de crédito estruturado e FIDCs que carregam ou monitoram papéis do setor elétrico, o caso Light funciona como referência de precificação de risco em recuperações judiciais longas: mostra que a combinação de conversão de dívida em ações, alongamento de prazos e novo aporte de capital pode devolver a uma concessionária acesso ao mercado em prazo razoável, mas também reforça que o desconto aplicado a créditos em RJ ao longo do processo tende a ser recuperado apenas de forma gradual, à medida que indicadores de alavancagem e rating melhoram.
Um ponto de atenção que segue pesando sobre o crédito da Light é o descasamento entre perdas reais de energia e o limite reconhecido pela regulação, hoje fixado em 43% do mercado de referência. Essa diferença reduz o Ebitda da companhia em cerca de R$ 1 bilhão por ano. A expectativa do mercado é que a revisão tarifária de março de 2027 eleve esse limite para 58%, o que, segundo estimativas citadas pela Fitch, reduziria o impacto negativo de R$ 1,2 bilhão em 2026 para cerca de R$ 620 milhões em 2027, na proporção de R$ 30 milhões de Ebitda adicional a cada ponto percentual de ajuste.
Perspectivas: o que monitorar daqui para frente
Com a recuperação judicial encerrada, os próximos marcos que o mercado de crédito deve acompanhar são a revisão tarifária de março de 2027, que deve reduzir o custo do descasamento regulatório sobre perdas de energia, e a evolução do rating da companhia, hoje ainda distante do grau de investimento. A conclusão do turnaround operacional da distribuidora, previsto para o fim de 2028, também deve funcionar como gatilho para eventuais novos upgrades, na medida em que reduz o risco de eventos como o apagão da Ilha do Governador que pesaram sobre a percepção de crédito da empresa nos últimos anos.
Para o investidor institucional habituado a operar com dívida corporativa e estruturas de crédito privado, o desfecho do caso Light reforça um padrão observado em outras recuperações judiciais recentes do setor de infraestrutura: a saída da RJ não elimina o prêmio de risco de imediato, mas reabre, de forma gradual, o funil de acesso a capital mais barato, o que tende a ser acompanhado de perto por fundos que avaliam rotação de carteira em créditos ligados a concessões de energia.
Fontes: BrazilJournal
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