Milei lança "passaporte dourado" e mira US$ 2,5 bilhões para o caixa argentino
Argentina vende cidadania para financiar o Tesouro e coloca a busca por liquidez soberana no centro do debate.

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Pressionada por US$ 29 bilhões em vencimentos de dívida até o fim de 2027, a Argentina passa a oferecer cidadania a estrangeiros em troca de um aporte direto de US$ 350 mil ou da compra de US$ 800 mil em títulos públicos criados para o programa. O modelo segue a lógica do "gold card" de Donald Trump e mostra até onde um governo pode ir para conseguir funding fora do mercado tradicional.
Um país atrás de dólares
O governo de Javier Milei anunciou em 2 de outubro de 2026 o programa de cidadania por investimento. A expectativa oficial é arrecadar cerca de US$ 2,5 bilhões em cinco anos. Pode parecer pouco perto do tamanho do problema, mas o valor importa para um Tesouro que tem US$ 29 bilhões em pagamentos de dívida previstos até o fim de 2027 e precisa de cada fonte de dólares que conseguir.
O produto em oferta tem valor concreto. O passaporte argentino dá acesso sem visto a mais de 160 países, incluindo os Estados Unidos. Na prática, o governo transforma um ativo institucional, a cidadania, em instrumento de captação. É uma receita que não depende do humor dos investidores internacionais nem da percepção de risco-país.
O movimento também ocorre num ambiente em que outros governos já testam o mesmo caminho. Em setembro de 2025, Trump anunciou o programa "gold card", com inscrições abertas em janeiro de 2026, exigindo contribuição de US$ 1 milhão mais uma taxa de processamento de US$ 15 mil.
Como funciona o programa argentino
O desenho oferece duas portas de entrada. Na primeira, o interessado paga US$ 350 mil diretamente ao Tesouro, sem devolução. Na segunda, compra US$ 800 mil em títulos públicos emitidos especialmente para o programa, com prazo de sete anos e sem pagamento periódico de juros.
A família também pode entrar, com custos adicionais definidos:
Cônjuge: US$ 100 mil
Filhos de 18 a 25 anos, solteiros e sem filhos: US$ 100 mil cada
Filhos menores de 18 anos: US$ 25 mil cada
Pelo exemplo citado na reportagem do NeoFeed, uma família de quatro pessoas pode aderir por US$ 500 mil no total. Outro ponto que diferencia o modelo argentino é a ausência da exigência de dois anos de residência prévia para quem entra pela via do investimento.
Ao apresentar o programa, o ministro Diego Santilli resumiu a intenção do governo: "A Argentina abre os braços aos cidadãos do mundo que desejam investir, desenvolver e aprofundar o nosso caminho."
Análise: funding soberano com estrutura de título zero cupom
Para quem acompanha estruturação de crédito, a segunda modalidade é a mais interessante. Um título de sete anos sem pagamento periódico de juros funciona como um instrumento zero cupom, no qual o comprador não recebe fluxo durante o prazo. A remuneração real do investidor deixa de ser financeira e passa a ser o passaporte. Em outras palavras, o Tesouro argentino capta recursos de longo prazo a um custo muito abaixo do que pagaria em uma emissão convencional no mercado externo.
A lógica lembra uma máxima conhecida por gestores de FIDC (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios): quem controla o acesso a um ativo escasso consegue melhores condições de funding. No crédito estruturado, isso aparece na qualidade do lastro e no nível de subordinação. Aqui, o "lastro" é um benefício que só o Estado pode emitir.
O risco também precisa entrar na conta. O investidor que escolhe a via dos títulos fica exposto ao risco de crédito soberano argentino por sete anos, sem cupons para amortecer a espera. Para um país com histórico de reestruturações, esse é um ponto que qualquer comprador vai pesar antes de assinar.
O que acompanhar daqui para frente
O primeiro indicador será a adesão real. A meta de US$ 2,5 bilhões em cinco anos depende de demanda estrangeira consistente, e a comparação direta com o "gold card" americano, mais caro e com outro destino, deve influenciar a escolha de investidores de alta renda.
Para o mercado brasileiro de crédito privado, o caso funciona como termômetro da situação fiscal do vizinho. Quanto mais o Tesouro argentino conseguir alongar e baratear sua dívida por caminhos alternativos, menor tende a ser a pressão sobre os vencimentos até 2027. Isso afeta o apetite por risco na região e a leitura de investidores institucionais sobre ativos latino-americanos. Vale monitorar o ritmo das primeiras adesões, a emissão efetiva dos títulos do programa e a reação das agências de rating.
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