Arminio Fraga compara herança fiscal a pré-crise de Dilma e vê ondas de inadimplência
O economista Arminio Fraga, ex-presidente do Banco Central, afirmou que a herança fiscal deixada ao próximo governo aponta para uma nova crise, em comparação direta ao cenário que antecedeu a recessão do governo Dilma.

A declaração, dada em entrevista ao economista Marcos Lisboa no videocast Desenquadrando, da Folha, tem peso direto para quem acompanha o mercado de crédito privado no Brasil, incluindo gestores e cotistas de FIDC (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios), a estrutura que reúne recebíveis originados por empresas e os transforma em cotas negociadas por investidores institucionais e qualificados.
Contexto: um alerta que já aparece nos dados de crédito
Fraga presidiu o BC entre 1999 e 2003 e construiu reputação como um dos nomes mais ouvidos sobre política monetária e fiscal no país. Sua leitura atual parte de um diagnóstico simples: o gasto público brasileiro saiu de aproximadamente um quarto do PIB há três ou quatro décadas para algo próximo de um terço hoje, uma alta de cerca de nove pontos percentuais sem que isso tenha vindo acompanhado de um ajuste equivalente do lado fiscal.
Para o economista, o país vive de novo um "ciclo político clássico", com aumento de gastos em ano eleitoral e coordenação fraca entre a autoridade monetária e o governo. Na descrição dele, o Banco Central tenta cumprir o mandato de controlar a inflação enquanto outra parte do governo busca formas de ampliar despesas, um desencontro que ele resume como um cabo de guerra entre as duas frentes.
O fato central: inadimplência já se espalha em ondas pelo crédito
O ponto mais relevante para o mercado de crédito privado está na descrição que Fraga faz da deterioração recente. Segundo ele, os problemas surgem rápido e em ondas, começando pelo crédito pessoal, que já acumula dezenas de milhões de casos de inadimplência. Na sequência, o varejo, setor que opera historicamente com margens estreitas e estoques elevados, teria sido atingido de forma severa pela combinação de juros altos e consumo mais fraco, a ponto de o economista descrever o setor como dizimado.
Essa sequência de crédito pessoal seguido por varejo é justamente o tipo de sinal que analistas de FIDC costumam monitorar de perto, porque boa parte das carteiras de recebíveis multicedente e dos fundos ligados a financeiras de varejo depende diretamente da capacidade de pagamento desses dois elos da cadeia. Um aumento sustentado de inadimplência no crédito pessoal tende a pressionar indicadores como a PDD (provisão para devedores duvidosos) das cotas subordinadas antes de qualquer efeito aparecer nas cotas seniores, funcionando como um termômetro antecipado de risco.
Fraga também citou o índice de desemprego, que recuou a 5,4% no trimestre até junho, o menor nível para o período em toda a série histórica, como um dado que mascara a gravidade do problema fiscal. Para ele, o erro de leitura é achar que aquecer a economia no curto prazo resolve desequilíbrios que são estruturais, uma aposta que, segundo sua avaliação, não deve funcionar desta vez.
Análise: o que a comparação com o período pré Dilma sinaliza ao investidor de crédito
A comparação com o cenário anterior à recessão do governo Dilma não é usada por Fraga como retórica vazia. Ele aponta que o crescimento do PIB per capita brasileiro foi medíocre nas últimas três décadas, em parte por causa da política fiscal adotada, e que houve poucos momentos de esperança nesse período, entre eles o primeiro governo Lula, que ele descreve como maravilhoso até um ponto em que, na sua expressão, os velhos vícios e as velhas ideias voltaram.
Para gestores de FIDC, o recado prático dessa análise é que descoordenação entre política fiscal e monetária tende a se traduzir em volatilidade de juros e em aperto de crédito bancário, movimento que já vem sendo sinalizado por bancos que declaram piora nas carteiras e sinalizam maior seletividade em novos empréstimos. Esse aperto costuma abrir espaço para o crédito estruturado, incluindo FIDC, ganhar relevância como alternativa de financiamento para empresas que perdem acesso ao crédito bancário tradicional, mas também exige mais rigor na análise de risco do originador e da qualidade dos recebíveis cedidos ao fundo.
Perspectivas: o que monitorar daqui para frente
O próprio Fraga descreve o momento como uma herança complicada para o próximo governo, o que sugere que o tema fiscal deve continuar no centro do debate econômico até pelo menos as eleições. Para o mercado de FIDC, os pontos de atenção mais imediatos são a evolução da inadimplência no crédito pessoal, o comportamento do varejo diante de juros ainda elevados e a forma como o Banco Central vai equilibrar o combate à inflação com pressões por mais gasto público em ano eleitoral.
Gestores e estruturadores de operações devem acompanhar de perto os próximos indicadores de default em carteiras de crédito ao consumidor e o ritmo de concessão de crédito bancário, já que ambos tendem a antecipar o apetite de risco disponível para novas cessões e para a formação de cotas subordinadas em FIDCs ligados a financeiras e a varejistas.
Fonte: Folha de S.Paulo, entrevista de Arminio Fraga ao videocast Desenquadrando, publicada em 15.ago.2026
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