Bancos cobram até 128,87% ao ano no desconto de duplicatas, revela BC
Levantamento do Banco Central escancara a distância entre bancos no crédito para pequenas e médias empresas.

*Imagem UOL
Levantamento do Banco Central do Brasil referente à semana de 18 a 24 de agosto de 2026 mostra uma diferença de mais de nove vezes entre a taxa mais barata e a mais cara cobrada por instituições financeiras na modalidade de desconto de duplicatas para pessoa jurídica, operação amplamente usada por empresas para antecipar recebíveis e financiar capital de giro.
O desconto de duplicatas é uma das formas mais tradicionais de crédito mercantil no Brasil. Nela, a empresa antecipa junto ao banco o valor de duplicatas (títulos que representam uma venda a prazo já realizada) recebendo o dinheiro à vista, com desconto, antes do vencimento acordado com o cliente. É uma operação parecida, em espírito, com a cessão de recebíveis que estrutura um FIDC (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios), mas com uma diferença central: no banco, o preço é definido por uma única instituição, sem disputa de mercado; no FIDC, o direito creditório é precificado por múltiplos investidores institucionais, o que tende a gerar condições mais competitivas para quem cede o recebível.
O cenário de juros também ajuda a explicar o custo elevado. Com a Selic em 14,00% ao ano em setembro de 2026, o custo de captação dos bancos já é alto, e o spread bancário (a diferença entre o que o banco paga para captar dinheiro e o que cobra do cliente final) amplia ainda mais o preço final do crédito. Segundo análise da Antecipa Fácil, o spread no Brasil é estruturalmente elevado por fatores como volatilidade macroeconômica, custo de recuperação judicial em caso de inadimplência e concentração bancária, fatores que pesam ainda mais sobre pequenas e médias empresas, avaliadas com maior assimetria de informação em relação às grandes corporações.
O levantamento do Banco Central reuniu dados de 59 instituições financeiras que operam desconto de duplicatas prefixado para pessoa jurídica. No extremo mais barato aparece o BCO MUFG Brasil S.A., cobrando 1,07% ao mês, equivalente a 13,68% ao ano, taxa próxima da Selic atual. No outro extremo está a NU Financeira S.A. CFI (braço financeiro do Nubank voltado a crédito), com 7,14% ao mês, ou 128,87% ao ano, quase dez vezes mais cara que a instituição líder do ranking.
Entre os dois extremos estão nomes como Bradesco, Itaú Unibanco, Santander, Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil, além de bancos digitais como Digio, Inter e PicPay Bank, todos com taxas intermediárias que variam conforme perfil de risco da carteira, porte do cliente e política comercial de cada instituição. A dispersão tão grande em uma única modalidade de crédito reforça um ponto que gestores de FIDC já observam há anos: o preço do crédito bancário para PJ no Brasil depende menos do risco real da operação e mais de qual banco a empresa bate na porta.
Para o mercado de FIDC, esse tipo de dispersão de preços é, na prática, o combustível do crescimento do setor. O patrimônio líquido dos fundos de recebíveis fechou 2025 em cerca de R$ 810 bilhões e a projeção de mercado é de que a marca de R$ 1 trilhão seja alcançada ainda em 2026, um avanço de aproximadamente 23% já no primeiro trimestre do ano, segundo dados da Ouro Preto Investimentos.
"Isso cria um grande estoque de recebíveis elegíveis para securitização", avalia Leandro Turaça, sócio gestor da Ouro Preto Investimentos, ao comentar o apetite crescente de empresas por alternativas mais rápidas e menos burocráticas que o crédito bancário tradicional.
Pedro Da Matta, CEO da Audax Capital, reforça essa leitura ao apontar que, à medida que o crédito bancário fica mais caro e mais sujeito a ciclos de política monetária, o mercado passa a demandar instrumentos capazes de oferecer eficiência e melhor formação de preço para o risco de crédito. Segundo ele, é exatamente esse papel que o FIDC cumpre, ao transformar recebíveis em capital e conectar investidores às necessidades reais da economia produtiva.
Um retrato numérico ajuda a dimensionar o tamanho da oportunidade: estudo da Ouro Preto Investimentos indica que 76% do crédito nacional ainda passa pelos bancos, participação que tende a cair gradualmente, com projeção de chegar a 51% fora do sistema bancário até 2034. Dados da Uqbar, citados pela SOMMA Investimentos, apontam ainda uma expansão de 30% no segmento de FIDCs, puxada por captação líquida recorde e aumento expressivo no número de investidores.
A tendência para os próximos meses é de convivência entre os dois mundos, com o crédito bancário seguindo caro e concentrado em poucas instituições líderes de custo, e o mercado de capitais ampliando sua fatia entre empresas de maior porte, enquadradas no regime de Lucro Real e com fluxo de recebíveis consistente o suficiente para sustentar uma estrutura de FIDC.
Vale monitorar três frentes: a trajetória da Selic e seu efeito sobre o custo de captação dos bancos, a velocidade com que novas empresas passam a estruturar FIDCs próprios como forma de reduzir dependência bancária, e o comportamento da CVM e da ANBIMA na regulação de um mercado que cresce em ritmo acelerado e já desperta atenção sobre riscos de fraude e inadimplência em algumas estruturas menos criteriosas.
Fontes: Banco Central do Brasil, Portal do Fomento · Antecipa Fácil · Diário do Comércio · Acontecendo Aqui · Meelion (Selic)
FIDC NEWS
O .fidcnews é um veículo digital focado em notícias e análises sobre Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs), com o propósito de tornar acessíveis os dados e tendências do mercado de crédito estruturado.
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