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Crédito ao agro fica mais restritivo após recorde de recuperações judiciais em 2025

.fnFIDC NEWS 02/07/20265 min de leituraSem comentários
Crédito ao agro fica mais restritivo após recorde de recuperações judiciais em 2025
Crédito ao agro fica mais restritivo após recorde de recuperações judiciais em 2025

Depois de um ano marcado pelo maior volume histórico de recuperações judiciais no campo, o agronegócio brasileiro entra na nova safra de grãos, iniciada em 1º de julho, sob um ambiente de crédito bem mais seletivo. Bancos, cooperativas e gestoras devem elevar o rigor na exigência de garantias e colaterais, movimento que já reconfigura a política de crédito do Banco do Brasil e reforça o uso da alienação fiduciária como instrumento de proteção nas operações do setor.

Contexto: recorde de recuperações judiciais pressiona o crédito rural

Em 2025, o número de pedidos de recuperação judicial no agronegócio saltou 56,4% em comparação com o ano anterior, segundo dados da Serasa Experian, o maior volume desde o início da série histórica, em 2011. O salto colocou em xeque o modelo tradicional de concessão de crédito ao produtor rural e acendeu um sinal de alerta entre as instituições que financiam a cadeia do agro, das tradings aos bancos e gestoras de fundos estruturados.

Esse cenário é especialmente sensível para o mercado de FIDC (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios), peça relevante no financiamento do agronegócio brasileiro ao adquirir recebíveis originados por produtores, cooperativas e empresas ligadas à cadeia produtiva. O aumento das RJs eleva o risco de crédito embutido nessas carteiras e tende a reforçar a seletividade de gestoras na hora de aceitar novas cessões.

O que mudou: BB reforça alienação fiduciária e reduz peso da hipoteca

O cenário levou a ajustes na oferta de crédito pelo Banco do Brasil, historicamente um dos maiores fornecedores de crédito ao setor. Segundo Alberto Martinhago, diretor de Agronegócios e Agricultura Familiar do BB, em resposta por e-mail à reportagem, o banco aprimorou seus modelos de análise na concessão de crédito e vem reforçando o uso de instrumentos que proporcionem maior segurança jurídica, com destaque para a alienação fiduciária, já que determinados ativos vinculados a essa garantia não se submetem aos efeitos da recuperação judicial.

Segundo Martinhago, o banco passou a olhar com maior atenção desde o fluxo de caixa até as garantias e o histórico financeiro dos produtores, sobretudo em regiões e atividades mais sensíveis, além de manter modelos de análise de risco robustos e em constante revisão. De forma geral, o histórico de pagamentos, a capacidade de geração de caixa, o nível de endividamento, a qualidade das garantias e fatores como alavancagem compõem hoje a avaliação de crédito do banco.

"Seguimos apoiando o agronegócio e a agricultura familiar, com créditos concedidos de forma mais técnica e qualificada", afirmou Martinhago, para quem a medida visa à perenidade dos negócios tanto do produtor quanto do próprio BB, ao ofertar o crédito certo, na medida certa, garantindo sustentabilidade no longo prazo.

Tradicionalmente, os bancos usam a hipoteca como colateral nos empréstimos ao agronegócio. O problema, segundo fonte ouvida pela reportagem, é que o crédito com garantia hipotecária entra na classe de credores com garantia real dentro da recuperação judicial, o que torna a recuperação dos bens muito mais lenta do que no modelo de alienação fiduciária.

Análise: pior momento passou, mas cautela prevalece, diz CEO da Audax Capital

Na avaliação de Pedro da Matta, CEO da Audax Capital, casa de crédito com forte atuação e especialização na cadeia do agronegócio, o pior momento do setor já ficou para trás, mas o mercado se estabiliza em um patamar ainda difícil. Mesmo o fenômeno climático El Niño deve ter impacto limitado sobre a safra brasileira de milho. "Nem todas as regiões do país são afetadas da mesma forma pelo El Niño", afirmou Matta, para quem o fenômeno tende a causar impacto maior nas quebras de safra em outros países, o que pode até resultar em melhora de preços internacionais e de margens para o produtor brasileiro na próxima temporada de grãos.

"Não é o caso de recuperação do setor, mas sim de menos ruim para o setor", resumiu Matta, lembrando que os índices de recuperação judicial no agro seguem em patamares bem mais altos do que nos anos anteriores. Segundo ele, o momento de crédito mais escasso afastou do mercado arrendatários e produtores menos preparados, que haviam entrado no negócio durante o boom de crédito farto da pandemia e hoje enfrentam dificuldades. Ficaram no mercado, avalia Matta, os produtores que efetivamente sabem operar e já acumulam experiência no setor. Como reflexo, o Banco do Brasil reduziu a oferta de crédito para operações de menor retorno, movimento que abriu espaço para outras gestoras locais atuarem no financiamento do produtor rural.

Perspectivas: financiamento privado ganha força, mas também precisa ajustar garantias

Para Octaciano Neto, ex-secretário de Agricultura e cofundador e CEO da Zera.ag, plataforma especializada em soluções de capital, crédito e financiamento privado para o setor, o agronegócio viveu um problema conjuntural, não estrutural. O setor saiu de um cenário de Selic entre 3% e 4% e soja a R$ 190 a saca em 2021 e 2022 para uma inversão brusca, com a Selic subindo a 15% e a soja recuando para cerca de R$ 100 a saca, o que apertou o caixa de produtores que se alavancaram além da conta nesse período.

A entrada do financiamento privado no mercado de capitais trouxe avanços regulatórios concretos para o setor, com a Lei do Agro 1 e a Lei do Agro 2, marcos que contribuíram para a modernização do mercado de crédito privado ao agronegócio no Brasil, segundo Neto. Foi justamente com o crescimento desse financiamento privado que o mercado passou a identificar falhas na execução de garantias, sobretudo na hipoteca, em razão da forma como esse tipo de crédito é tratado dentro da recuperação judicial.

Por isso, além da alienação fiduciária, outras estruturas de garantia vêm sendo desenhadas para o setor, entre elas transferir o ativo para um fundo imobiliário, no qual o produtor rural entra como cotista subordinado e o financiador de maior volume de crédito como cotista sênior, retirando a titularidade do bem das mãos do produtor e mantendo a garantia fora do alcance de eventual processo de recuperação judicial. Segundo Neto, o mercado de financiamento privado ao agro vem corrigindo essas falhas regulatórias e buscando novos caminhos para robustecer o processo de garantias.

Além das gestoras, as tradings também vêm aumentando o financiamento ao produtor rural neste momento, destacou Neto, ainda que o cenário não seja uniforme entre culturas: produtores de café navegam bem no período atual, enquanto produtores de soja e milho enfrentam mais desafios, sobretudo no financiamento via operações de barter oferecidas por tradings, em que o produtor adquire insumos e paga a conta com parte da safra futura após a colheita, sem desembolso inicial em dinheiro.


Fonte: Capital Aberto, 30/06/2026. URL: https://capitalaberto.com.br/mercados/agronegocio-credito-nova-safr

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